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O Cientista Criador

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Em Homenagem ao professor Carlos Byington, o novo post do portal é uma entrevista realizada em 2004 cujo tema é o “O Cientista Criador”.

Gratidão por tudo professor!

Entrevista: Carlos Amadeu Botelho Byington

Por: Liliana Liviano Wahba

Dr. Carlos Byington é um pensador que alia seu trabalho clínico à formulação de uma teoria simbólica sobre o desenvolvimento psicológico normal e patológico. Médico psiquiatra e analista, estudou psicanálise e depois fez a formação junguiana no Instituto C. G. Jung de Zurique; é um dos membros fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, da qual foi seu primeiro presidente e onde continua dando cursos e coordenando seminários. É também especialista em educação.

Sua teorização constitui a psicologia simbólica junguiana, que tem sofrido algumas reformulações, em decorrência da sua constante indagação e pesquisa sobre a natureza humana nos indivíduos e na cultura.

Com o intuito de acompanhar o pensamento desse autor, analista e mestre, foi idealizada esta entrevista, que nos parece de grande relevância para teoria junguiana da atualidade e sua contribuição social.

Dr. Carlos Byington é autor dos livros Estrutura da personalidade, O desenvolvimento da personalidade, Dimensões simbólicas da personalidade, A inveja criativa, Pedagogia simbólica, A construção amorosa do saber, além de inúmeros artigos, como, por exemplo, “Ética e psicologia” (Junguiana, n. 15), “Psicologia e política” (Junguiana, n. 21), “Ternura, sexo, dignidade e amor” (Junguiana, n. 19) e “Arquétipo da vida e da morte” (Junguiana, n. 14), entre outros.

Junguiana: Como o senhor diferencia a sombra? Antes falava em normal e patológica, mais recentemente em circunstancial e cornificada. Byington: Ao incorporar o conceito de fixação da psicanálise na teoria arquetípica percebi que a sombra é sempre patológica e passei então a diferenciar a sombra circunstancial da sombra cornificada. A primeira tem defesas formadas recentemente e que, geralmente, podem ser elaboradas quando confrontadas diretamente. A segunda tem complexos com defesas cornificadas, que oferecem resistência quando confrontadas e que, por isso, são de elaboração difícil e trabalhosa.

Entrevista publicada na Junguiana, revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, São Paulo, nº 22, 2004. Médico psiquiatra e analista junguiano. Membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Membro da Associação Internacional de Psicologia Analítica. Educador, historiador e criador da Psicologia Simbólica Junguiana.

E-mail: c.byington@uol.com.br site: www.carlosbyington.com.br

 

Junguiana: Como entende a defesa – que é vista como defensiva, não criativa – e sua criatividade para preservar a sobrevivência da psique?  Seria decorrente da bipolaridade: quanto de construtividade e quanto de destrutividade na sombra?

Byington: Criei o conceito de função estruturante da consciência para englobar todas as funções vitais dentro da dimensão simbólica. Assim, o ódio e a esperança são funções estruturantes tanto quanto a respiração e a marcha, todos tendo componentes objetivos e subjetivos. As funções estruturantes fazem parte da elaboração simbólica atuando sobre os símbolos estruturantes. As funções estruturantes, os símbolos estruturantes e os sistemas estruturantes são os complexos descritos por Jung. As funções estruturantes elaboram os símbolos para formar e transformar a consciência.

Uma pessoa odeia alguém. O ódio é a função estruturante e a pessoa odiada é o símbolo estruturante.

Fazendo uma leitura arquetípica da fixação, descoberta por Freud, percebi que ela é o principal distúrbio da elaboração simbólica e a causa e a raiz da formação da sombra, que, por isso, é sempre patológica. Nessa perspectiva, a sombra é formada pelos mesmos símbolos e funções estruturantes que originam a consciência, o que nos permite seguir Jung e afirmar que a patologia deriva da normalidade. Designei as funções estruturantes da consciência como criativas e as da sombra como defensivas. Com isso, quis assinalar que as funções estruturantes da consciência são plenamente criativas e as da sombra são apenas parcialmente criativas, pelo fato de serem fixadas.  Vejo, porém, que isso traz confusão, pelo fato de as defesas também serem criativas. Por conseguinte, a partir de agora, designo as funções estruturantes da consciência como funções não fixadas e as que formam a sombra como funções estruturantes fixadas ou defensivas.

Agradeço a você pela sua pergunta, que me permitiu aperfeiçoar a conceituação das funções estruturantes. Acho muito importante percebermos que as funções estruturantes não fixadas têm uma criatividade teoricamente inesgotável quando nos dedicamos à elaboração simbólica e que, por outro lado, as funções estruturantes fixadas têm sua criatividade escravizada pela compulsão de repetição e pela resistência, destinadas a impedir que a elaboração simbólica atinja a consciência.

A designação de Freud de mecanismos de defesa do ego é ambígua. Por um lado, ela registra a vantagem imediata da fixação pela diminuição circunstancial da ansiedade do ego. Por outro, porém, não leva em conta o prejuízo do Self com a formação da fixação e da sombra. Toda defesa formada é uma faca de dois gumes, que expressará na sombra a inadequação existencial, cujo sofrimento, a longo prazo, poderá ser imensamente maior para a pessoa ou para a cultura do que o alívio circunstancial imediato trazido pela sua formação. O fato de as defesas neuróticas diminuírem circunstancialmente o sofrimento e de as defesas psicopáticas frequentemente evitarem até mesmo a defesa psicótica é ganho cujo preço é a estagnação da elaboração dos símbolos em questão e o impedimento do crescimento da consciência. Possuir defesas corresponde, na demonologia, a ter um pacto com o diabo. A forma de pagamento é variável, mas permanente, sempre em detrimento da plenitude do Self.

A conceituação de Freud de mecanismos de defesas, que muitas vezes pode parecer vantajosa para a personalidade, torna-se compreensível quando lembramos que, para a psicanálise, o id não tem o instinto de individuação e, por isso, as diminuições do sofri- mento do ego pela repressão podem não ter as mesmas consequências que para o Self no referencial da psicologia analítica.

Junguiana: As percepções subliminares ou potencialidades que não sofreram repressão, nem recente nem antiga, que Jung também considera parte da sombra, ficariam em qual categoria?

Byington: Considero as percepções subliminares símbolos estruturantes da elaboração simbólica normal, fora da sombra, por isso, como os demais símbolos, sempre com parte consciente e parte inconsciente. Para mim, a dimensão arquetípica potencial é virtual e formadora potencial tanto do consciente quanto do inconsciente. Como poderia algo que ainda é apenas virtual ser ao mesmo tempo algo real? Por essa mesma razão, diferenciei o arquétipo central do conceito de Self. A dimensão. Do arquétipo central e demais arquétipos corresponde à realidade virtual da psique, que se atualizará, pela vivência, no eixo simbólico a partir de cada nova elaboração. Aí, sim, cada vivência será mais consciente ou inconsciente. Teorizo o inconsciente como uma qualidade e não um lugar na psique. As polaridades consciente-inconsciente. E pessoal-arquetípico estão presentes em todos os símbolos, em proporção variável. Quando a elaboração simbólica é fixada e atua na sombra, ela se torna predominantemente inconsciente. Quando é cada vez mais bem elaborada, ela se torna progressivamente mais consciente. Considerar inconsciente e pertencendo à sombra o potencial arquetípico junto com os símbolos ou complexos fixados e em poder das defesas gera uma confusão enorme entre a normalidade e ‘a patologia e dilui e ofusca na ambiguidade o conceito genial da sombra. O potencial arquetípico é virtual dentro do Self e, portanto, igualmente virtual da consciência e da sombra, que o atualizarão a cada nova vivência. A consciência tem a característica de buscar atualizar plenamente o potencial arquetípico, e a sombra, de expressá-lo de maneira fixada e deformada. O virtual e o real interagem na elaboração simbólica dentro da relação ego-arquétipo. Denomino eixo simbólico a relação inseparável entre consciência e sombra/elaboração simbólica/arquétipo central e demais arquétipos, porque a expressão eixo ego-self, de Neumann, dá a impressão errônea de que o ego pode existir fora do Self.

Junguiana: Jung postulava que o conceito de sombra equivale ao inconsciente pessoal; o que acha disso?

Byington: Acho que ele diferenciou o inconsciente pessoal do arquetípico quando ainda não se sabia que o ego é formado por arquétipos e não existe sem eles. Pelo fato de o ego da consciência e o ego da sombra serem produtos do potencial do arquétipo central e da elaboração simbólica normal e fixada, não existe nenhuma função eólica ou imagem arquetípica presente na consciência que não seja, de alguma forma, pessoal e arquetípica. Acredito que a noção de Jung do pessoal e do arquetípico foi por ele criada para dizer que a dimensão arquetípica ia além da dimensão pessoal e, com isso, diferenciar a psicologia analítica da psicanálise. Há que se considerar que, na época em que ele criou a polaridade pessoal-arquetípica, a formação do ego era reduzida à psicanálise e ao início da vida, e o processo de individuação, à segunda metade da vida.

Posteriormente, quando Glande Jacobi, Bordam e Neumann descreveram a formação arquetípica do ego, essa divisão deixou de ter sentido. Existe algo de mais pessoal e arquetípico do que as imagens da mãe e do pai? Ou as imagens do incesto e do parricídio, mesmo que os consideremos simbolicamente normais ou patológicos?

Junguiana: Jung considerava que a anima e o animus seriam manifestações do inconsciente mais profundo e desconhecido – o outro “contra sexual” – do que a sombra, decorrente de experiências mais pessoais. Dentro de seu conceito de inconsciente, como entenderíamos essa “qualidade” referente ao animus e à anima?

Byington: Considero que Jung descreveu a anima e o animus homossexuais e contrapô-los sexuais da sombra porque ainda não conhecia a formação arquetípica do ego e a fixação dessa formação como origem da sombra. Caso o tivesse sabido, certamente teria percebido que as fixações dos símbolos da anima e do animus também podem formar a sombra e, por isso, não são seu contrapô-lo sexual.

Jung situou o animus e a anima como mediadores entre o consciente e o inconsciente. Mantenho a anima na personalidade do homem e o animus na da mulher: No entanto, eu os conceituo como arquétipos bipolares em todas as circunstâncias, inclusive no que se refere à identidade sexual. Os símbolos que eles coordenam podem não estar fixados e estruturar a consciência ou estar fixados e expressar complexos na sombra. Dentro da psicologia simbólica junguiana, a anima e o animus fazem parte do arquétipo da alteridade e podem expressar quaisquer símbolos, inclusive as polaridades ego-outro e homem-mulher, pois o que os caracteriza é o fascínio pela criatividade resultante da relação dialética do encontro das polaridades, e não os símbolos em si.

Junguiana: Se postularmos um “ego da consciência” e um “ego da sombra”, como foi mencionado, o ego deixa de ser entendido como somente consciente. Haveria uma porção inconsciente no ego, como dizia Freud? Esta iguala-se com a sombra,              o inconsciente?

Byington: Sim. Dentro da teoria da fixação, de Freud, o inconsciente reprimido expressa os componentes que poderiam ter formado o ego na consciência. Essa é a concepção de sombra que postulo na psicologia simbólica junguiana e, por isso, todos os seus componentes têm um ego, que é o ego da sombra. Quando elaboramos a sombra em função da ética, o conceito de ego da sombra é muito importante para assumirmos que o mal por nós praticado, ainda que inconsciente, pertence sempre também à nossa identidade. Na terapia, é importante que o paciente não lamente apenas suas qualidades sombrias, mas busque também vivenciar-se como o sujeito delas. É que o ego da consciência repudia o mal, mas o ego da sombra não só atua o mal, como também o deseja e cultua.  Somente quando vivenciamos e nos responsabilizamos por esse ego inimigo é que podemos realmente elaborar e integrar os complexos da sombra. Quem quiser corroborar essa teoria, basta fazer uma imaginação ativa com a sombra e confrontar esses dois egos por uma dramatização com role-plaina.

Junguiana: O conceito de função estruturante criativa e função estruturante defensiva conduz ao pressuposto de que a criatividade seria sempre equiparada à construtividade e que não haveria destrutividade no ato criativo? Completando a pergunta, a capacidade criativa do ser humano é complexa, e nota-se que artistas e personalidades inspiradas e reconhecidas por seus talentos criativos podem falhar em empregar criativamente suas funções estruturantes no sentido de estruturar consciência; outros indivíduos têm boa capacidade de lidar com seus conflitos e suficiente elaboração simbólica sem possuir talento criativo. Deveríamos diferenciar o que entendemos por criatividade?

Byington: Pelo que respondi à segunda pergunta, acho que o conceito de função estruturante fica mais bem formulado quando retiramos dele o critério de criatividade e o substituímos pelo critério da fixação. Nesse caso, passamos a conceber as funções estruturantes como não fixadas (formadoras da consciência) e como fixadas ou defensivas (formadora da sombra).

A função estruturante não fixada forma a consciência de maneira livre e progressiva para todo o Self, ao passo que a função estruturante fixada ou defensiva tem sua criatividade aprisionada pela fixação e pela compulsão de repetição e dirige essa criatividade contra o crescimento da consciência e do Self. A criatividade das defesas existe, e na histeria e demais distúrbios de dominância matriarcal, por exemplo, ela é extraordinariamente exuberante, mas apenas em função de expressar a sombra e o sintoma e, ao mesmo tempo, evitar a entrada dos seus símbolos na consciência e o desenvolvimento de todo o Self. A função estruturante não fixada tende a fazer crescer a consciência e o Self e, por isso, digo que ela opera a serviço do bem, enquanto a função estruturante fixada ou defensiva opera contra a consciência e mantém-se na sombra, estagnando o Self, e, por isso, digo que opera a serviço do mal. Essa concepção está baseada no conceito principal da obra e da vida de Jung, segundo o qual o instinto de individuação é responsável pela formação da consciência e é o instinto central do Self. A criatividade artística é uma dimensão específica da criatividade em geral, subordinada à função estruturante da estética, que elabora os símbolos dentro de, um contexto particular que denominamos arte. Como as demais funções estruturantes, ela pode ser não fixada ou fixada e defensiva na sua expressão. Um artista pode sofrer o bloqueio da sua função criativa e expressá-la de forma defensiva, como ocorre de maneira psicótica no filme O iluminado, de Kubrick. O fato de a função estruturante artística estar associada a outras funções estruturantes, como a agressividade ou a sexualidade não fixadas ou fixadas, é secundário e não deve ser usado como critério para diagnosticar a expressão fixada ou não fixada da função estética. O mesmo acontece com a polaridade construtivo-destrutivo. Uma pessoa pode ser muito criativa esteticamente, mas isso não significa de modo algum que ela também o seja nas demais funções estruturantes. Há artistas muito doentes psicologicamente, com quem o convívio íntimo é uma tortura, mas que nem por isso deixam de ser menos criativos do ponto de vista estético. Faço questão de enfatizar que a função artística tem, ela própria, características não fixadas e fixadas, as quais não devem ser confundidas com as características não fixadas e fixadas de outras funções estruturantes. Em outras palavras, para falar da psicopatologia de uma personalidade artística há que se diferenciar claramente aquilo que se refere à arte daquilo que diz respeito a outras funções estruturantes. O fato de Van Gogh ter sido depressivo afetou as imagens de sua pintura, mas não a grandeza maior ou menor de sua arte. Por outro lado, há pessoas muito criativas nas dimensões política, religiosa, amorosa e científica, por exemplo, que podem ser muito pouco criativas na dimensão estética.

Junguiana: Uma questão atual que circula nos meios junguiano refere-se ao conceito de pulsão de morte. Jung achava que, sendo a energia bipolar; o princípio vital contém a aniquilação e a morte, ainda que esta última estivesse, em última instância, subordinada ao princípio vital. A sua concepção de bipolaridade do arquétipo da vida e da morte, assim como Jung, não relativiza a possibilidade de aniquilação, mas não confere autonomia ou “finalidade” a uma pulsão de morte. Como vê isso?

Byington: Como descrevi no artigo “Arquétipo da vida e da morte” (Junguiana, n.14), concebo as pulsões, instintos ou tendências para a vida e para a morte como funções estruturantes da vida e da morte subordinadas ao arquétipo central, junto com todas as demais funções psíquicas. A função da vida constrói e amplia. A função da morte destrói e elimina. Ambas são necessárias e interagem em toda atividade existencial, pois tudo – inclusive as estrelas – um dia cresce e frutifica e um dia envelhece e morre. Como todas as demais funções estruturantes, a função estruturante da vida e a função estruturante da morte podem também ser não fixadas ou fixadas. Quando a função estruturante da vida não é fixada, ela cultiva e desenvolve o que é necessário ao Self, mas quando passa a ser fixada ou defensiva ela cultiva e busca desenvolver o que não é mais necessário e, assim, estagna o Self. Um grande exemplo é a função estruturante parental. A criança ativa extraordinariamente a função estruturante da vida, cuja criatividade permite aos pais acolhê-la, protegê-la e alimentá-la. Logo, porém, aspectos iniciais do processo existencial do bebê começam a envelhecer e a ser ultrapassados, e o aspecto não fixado da função estruturante da morte é ativado. O bebê já pode dormir sozinho em seu quarto. Sua simbiose absoluta espacial está se tornando obsoleta e quase morrendo. A dependência envelhecida tem que ser sacrificada e entregue à morte para manter a criatividade plena do Self. Mas a mamãe começa a chorar e o papai não resiste ao seu sofrimento e a acompanha: “Como é que nosso neném vai ficar sozinho naquele quarto escuro e nós aqui indiferentes? Que egoísmo!” E assim, por mais um ano, o quarto do neném dorme vazio. Instalam-se o mimo e a superproteção, que limitarão a frustração criativa do ego do bebê e que, se repetidos nas etapas seguintes da vida, preparam o futuro tirano, voluntarioso, narcisista, e conduz, às vezes, a problemas na formação do caráter. A função estruturante da vida, que havia sido tão criativa, agora passa à defensiva. Ao mesmo tempo, a função estruturante da morte, que foi impedida de destruir criativamente e matar a dependência simbiótica primária, passa também à fixada e defensiva. Essa fixação prejudica o crescimento do Self e prepara o desenvolvimento da futura neurose de relacionamento ou, até mesmo, da deformação psicopática do caráter.

Junguiana: Ligada à questão anterior; seria concebível o mal absoluto predominar no Self e, mais ainda, no arquétipo central? Como compreender a auto regulação, homeostase e princípio de individuação com a inclusão da possibilidade do mal equiparado ao bem como princípio norteador do desenvolvimento? Na prática clínica, por exemplo, a relativização das polaridades se anula no extremo, já que diante de um paciente suicida poucos analistas verão isso como um processo natural, a menos que haja uma situação existencial excepcional, e aí já não se trataria do entendimento que fazemos do mal. Jung dizia que somente o conhecimento e a ausência de ingenuidade com a possibilidade do mal nos ajudariam a evitar que ele se tornasse absoluto.

Byington: Sei teoricamente o que é o mal dentro da dimensão neurótica, psicopática, borderline e psicótica, mas não sei o que Jung quis dizer com a expressão “mal absoluto” quando descreveu a sombra em Aio. Como afirmei em meu artigo “Ética e psicologia”, na Junguiana 15, não concordo com as críticas de Jung à doutrina católica do Summum Bonum e do Privatio Boni, que, segundo ele, negam a realidade do mal. O próprio Jung e todos nós junguianos trabalhamos considerando o arquétipo central a matriz criativa da consciência e do processo de individuação, o que equivale a equipará-lo ao Summum Bonum. A psicanálise descreve um id que traz, ao nascer, as pulsões incestuosa e parricida, que devem ser sublimadas para formar o superego. Essa é, por assim dizer, a doutrina do Sumum Ma/um.  Para a psicologia analítica, a patologia é consequência de um distúrbio do processo de individuação, que passa, então, a expressar o mal. Essa é a doutrina do Privatio Boni. A confusão de Jung a esse respeito parece-me advir da sua não diferenciação entre o arquétipo, que é virtual, e o seu distúrbio real. Essa confusão parece-me a mesma que ele fez entre os conceitos de arquétipo central e de Self e entre as potencialidades arquetípicas e a sombra. O fato de surgir o mal como disfunção da capacidade de elaboração simbólica do arquétipo central não significa que este seja o mal, mas sim que a ocorrência da disfunção caracterizou a formação do mal no lugar da formação do bem (Privatio Bono). Se uma pessoa tropeça e quebra a perna não significa que a função da marcha seja má, e sim que uma deficiência da marcha levou à fratura. A concepção da ética como função estruturante, presente na elaboração de qualquer símbolo e função estruturante de acordo com a psicologia simbólica junguiana, transforma o desenvolvimento psicológico na luta permanente entre a consciência e a sombra, entre o bem e o mal. O arquétipo central coordena a elaboração simbólica através dos arquétipos e é, por isso, o grande orquestrador dessa luta.  Não é que ele fabrique as fixações, pois elas se formam dos tropeços e quedas que ocorrem durante as longas caminhadas. O arquétipo central tolera as fixações e continua a elaboração simbólica incluindo a sua presença nefasta nas defesas e resistências da sombra. Todo organismo vivo assim o faz. A lagartixa que perdeu a cauda continua a caçar insetos para sobreviver. O pássaro com a asa ferida voa até quando e onde puder. A individuação inclui permanentemente a luta entre o bem e o mal, desde o início da formação do ego, pois essa luta é a própria disputa entre o ego da consciência e o ego da sombra, cujos embates pontuam a vida das pessoas e da humanidade. O máximo do esforço criativo do arquétipo central para continuar o processo de individuação faz-se na vigência do mal terrível das fixações dentro dos dinamismos psicopático e psicótico. Coube ao gênio de Nise da Silveira demonstrar essa dramática verdade ao documentar a continuação inconteste do processo de individuação em casos de esquizofrenia crônica até as vésperas da morte (vejam os vídeos sobre Carlos Pertuis, Fernando Oiniz e Adelina Gomes, feitos por Leon Hirszman e coordenados pela Dra. Nise para a Funarte, na biblioteca da SBPA).

Junguiana: Quando a ética não se constitui numa função estruturante não fixada podemos pensar em psicopatia?  Como diferenciamos a defesa impedindo a elaboração ética da psicopatia e do mau-caratismo ou desonestidade?

Byington: Quando a função estruturante da ética sofre uma fixação, torna-se função estruturante defensiva e passa a atuar na sombra e, como qualquer outra função psicológica, pode fazê-lo dentro das dimensões neurótica, psicopática, borderline ou psicótica. A psicologia simbólica junguiana não diferencia entre a função estruturante defensiva da psicopatia, do mau-caratismo ou da desonestidade.  Psicodinâmica e cientificamente, essas condições humanas expressam a atuação defensiva da função estruturante da ética na dimensão psiquiátrica.

Junguiana: Uma outra pergunta encadeada: é possível desenvolver uma elaboração simbólica com uma postura antiética profunda?

Byington: Qualquer elaboração simbólica que confronte as fixações e defesas da sombra requer uma postura ética criativa. A postura antiética não elabora a sombra, porque o ego que a expressa já se tornou, ele próprio, um prisioneiro da sombra através da função estruturante da ética fixada e, portanto, tornada -defensiva.

Junguiana: A sua obra tem dado especial atenção à educação de crianças, um tema apreciado por Jung. Seria a seu ver uma forma de psicoprofilaxia para a construção da cidadania, com possibilidade de inserir valores éticos e desenvolvê-los?

Byington: Com certeza! Quando percebemos que toda elaboração simbólica é feita entre o ego da consciência e o ego da sombra, a educação passa a ser centrada na elaboração simbólica. O tratamento da sombra é feito no consultório, mas a sua profilaxia tem lugar na família e na escola. Desenvolver cognitiva e emocionalmente a consciência e evitar a formação das fixações e, por conseguinte, da sombra são as duas principais finalidades da função ética dentro da educação. Quando isso é feito em casa e na sala de aula, o outro passa a ser um companheiro inseparável do ego, formando-se uma relação ego-outro, na própria consciência, baseada na amizade, na cooperação, no respeito e na dignidade, que são as bases da cidadania.

Junguiana: A sociedade brasileira está estarrecida, mas também acomodada com a corrupção crescente. A revolta acomete muitos jovens que se deparam com dificuldades quando seguem uma conduta ética e verificam o sucesso – poder; dinheiro – de outros que deturpam tal conduta. Sentem que ser ético é quase ser feito de bobo, apesar de valorizarem corajosamente suas posturas. O que podemos dizer a eles para ajudá-los em sua individuação?

Byington: O que precisamos ensinar aos jovens é a formação da sua consciência e da sua sombra na luta entre o bem e o mal. Assim fazendo, nós os ensinamos a reconhecer e a lutar contra o mal neles, na sua família, na sua comunidade e em todo o planeta. Os jovens querem criatividade e participação ativa, porque juventude é crescimento e ação. Por isso, ensinar preceitos éticos patriarcais tradicionais não os motiva, pois é um ensinamento de fora para dentro, decoreba, e não construído dentro do seu cotidiano. Quando os jovens vivenciam a realidade simbólica dessa luta, eles são iniciados na busca da autorrealização, da felicidade, da justiça, do amor e da compaixão como o caminho do bem e vão se tornando aptos para identificar o caminho do mal à sua volta e perceber que a riqueza, o poder e os bens de consumo não trazem nem plenitude, nem amor, nem paz aos que os tornam a finalidade da vida.

Junguiana: Qual seria a neurose ou psicose atual em nossa sociedade, a seu ver? E como a psicologia analítica ajudaria a tratá-la?

Byington: O principal problema da atualidade parece-me ser a alienação ética e existencial trazida pela desorientação individual e coletiva, como bem descreveu Jung no livro O homem moderno em busca da alma. Essa alienação impede reconhecer os valores que realmente são importantes na vida individual e coletiva e combater os principais sintomas da sombra moderna: o egoísmo, as dependências, a indiferença, a corrupção e a violência, centralizados na massificação e na pulverização da identidade das pessoas, sobretudo nas grandes cidades.  Quando visitamos uma favela com a mente e o coração abertos e nos deparamos com a miséria, sabendo que, possivelmente, em grande parte, as verbas para educação, alimentação, saúde, moradia e transporte “diluíram-se” no meio do caminho e que seus fraudadores, nas raras vezes em que são identificados e punidos, entram e saem das prisões dependendo dos advogados que contratam, ficamos surpresos de o nosso povo não ser muito mais revoltado e violento.  Quando visitamos então uma delegacia ou um presídio e vemos as condições desumanas dos presos, saímos com dificuldade de saber se o sistema penitenciário é dirigido à recuperação ou é uma escola do crime, financiada pela sociedade de forma inconsciente e sadomasoquista para castigar a si própria.

A mandalas, descrita por Jung como a principal imagem de totalidade do processo de individuação, é um símbolo inspirador para guiar o poder público no ré enraizamento do indivíduo das comunidades carentes, dentro da relação de alteridade do indivíduo com a comunidade. Quando a centralização funciona apenas no nível macro da sociedade, nas grandes comunidades regionais, ela contribui para a perda da individualidade no nível das pequenas comunidades. A imagem da mandala revela como as principais entidades institucionais das comunidades carentes estão descentralizadas e aponta um caminho para sua micro centralização, reunindo o indivíduo com o todo comunitário. Um campo desportivo num pólo importante da comunidade, que serve também para outras atividades culturais, rodeado pelo posto de saúde, escola, posto policial e agência de colocação profissional e cadastradora das habilidades dos membros da comunidade para convocá-los em mutirões, é um caminho para construir a identidade das pessoas que ali vivem. A forma em mandala é aqui a expressão do Self comunitário propiciador da formação da identidade dentro do padrão de alteridade. Essa ideia é baseada no conceito de que no processo de individuação a identidade individual forma e é formada pela identidade grupal.

Entrevista realizada em maio de 2004

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