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Psiquiatria e Política – A Psicopatia Individual e Coletiva no Nacional Socialismo

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Continuando Wotan, o pequeno ensaio arquetípico de Jung (1936) sobre o Nazismo, quero tecer algumas considerações psicopatológicas sobre a psicopatia homicida e suicida de Hitler e sua complementação pelo Partido Nacional Socialista que dominou a sociedade alemã. Trata-se de um exemplo t rágico, mas significativo, da interação entre o Self Individual e o Self Cultural na dimensão política. Dentro da moldura simbólica e arquetípica delineada pela Psicologia Simbólica, pretendo desenvolver, no estudo da psicopatia individual e coletiva, a linha mestra postulada por Jung, segundo a qual a psicopatologia ocorre como disfunção da psicologia normal (Jung,1935). Esta perspectiva é muito diferente daquela de Freud, na qual a agressividade é sempre destrutiva, radicalmente oposta a Eros e subordinada desde o nascimento ao Instinto de Morte (Freud, 1920). Na teoria da Psicologia Simbólica, a afetividade e a agressividade, bem como o Arquétipo da Vida e da Morte podem ser criativos ou defensivos e, assim, operam a serviço da Consciência ou da Sombra, do Bem ou do Mal (Byington, 1996a). Não creio que este enfoque teórico torne o Mal menos destrutivo do que quando o consideramos subordinado ao Instinto de Morte.

O Nazismo tem sido amplamente estudado por historiadores, sociólogos, jornalistas e psicólogos, mas sua monstruosidade maligna é uma barreira que muito dificulta e afugenta qualquer estudo teórico da interação individual e cultural dentro do todo. Há muitos especialistas que divergem radicalm ente entre si, enfatizando ora a personalidade de Hitler, ora a sociedade alemã e as circunstâncias históricas como suas causas principais. Há até mesmo aqueles como o cine asta Claude Lanzmann, que realizou Shoah, o documentário de nove horas e meia sobre o Holocausto, que cercam o estudo do assunto com um tabu moral e a acusação de “revisionismo” ao defender a Artigo publicado na Junguiana, revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, São Paulo, nº 21, 2003.

Em tese, segundo a qual, explicar Hitler, além de fútil, é imoral, pois a própria iniciativa de entendê-lo já é obscena (Rosenbaum, 1998, pág. XVI). Assim, revisionismo seria todo e qualquer estudo que fosse além do repúdio absoluto ao Nazismo, como, por exemplo, a tentativa de analisar a formação da sua monstruosidade a partir do funcionamento histórico da sociedade alemã após a Primeira Guerra Mundial. Compreendo o repúdio de Lanzmann à explicação como uma reação emocional e moral de horror após a realização do documentário que incluiu os campos de concentração. De fato, ao tentar explicar qualquer fenômeno humano, primeiro é preciso admitir, por mais terrível e desumano que seja, que ele faça parte da vida, e é isso que parece ser impossível para Lanzmann. No entanto, considerar Hitler e o Nazismo um caso únic o, representante do Mal absoluto, sem nada em comum com os normais e, por isso, não e studá-lo dentro da psicopatia e da psicose, parece-me uma idealização defensiva da natureza humana e um desserviço à humanidade, pois impede perceber a relação de ambos com a Sombra e com o Mal nas disfunções da elaboração simbólica expressas por intermédio das defesas, no indivíduo e na Cultura. Ao agravar-se, a disfunção da agressividade normal apresenta toda uma gama de variações até os níveis extremos do sadismo, da tortura, do homicídio, do suicídio, da guerra e do genocídio. A falta desse estudo impede sobretudo a identificação da defesa projetiva do bode expiatório, presente nas disfunções mais banais dos relacionamentos humanos e que, no entanto, é a principal defesa pela qual os líderes demagógicos manipulam a sociedade para chegar a exercer psicopaticamente o poder político, como aconteceu no Nazismo.

A evidência de que há gradação do Mal mesmo no infe rno, exemplificada no Nazismo, foi tragicamente relatada por um sobrevivente de Auschwitz. O médico holandês Louis Micheels sobreviveu ao campo de conc entração e emigrou para os Estados Unidos, onde se tornou professor de Psiquiatria na Faculdade de Medicina de Yale e presidente do Western New England Institute de Psicanálise. Ele escreveu um livro corajoso e trágico, Doutor #117641, Uma Memória do Holocausto , no qual relata a existência, nos campos, de médicos que matavam e tr atavam os prisioneiros. Um dia viu um vídeo feito por jornalistas holandeses sobre dois desses médicos que conhecera. Um, o Dr. Eduard Wirths, que, no desembarcar, separava prisioneiros para morrer ou ser encaminhados para trabalhos forçados. Outro, o Dr. Hans Munch, que tratou e salvou a vida de muitos prisioneiros. Depois da guerra, o Dr. Munch foi o único médico de campo de concentração absolvido, em parte pelo testemunho de prisioneiros sobreviventes, e o Dr. Wirths suicidou-se logo depois de capturado, na certeza de ser condenado à morte (Rosenbaum, 1998, págs. 267-276).

Longe de qualquer pretensão de explicar a maldade h umana, e cônscio do sofrimento que o assunto desperta, sobretudo em pessoas relacionadas diretamente com suas vítimas, este artigo tem a intenção de abordar o Mal como expressão desta patologia extrema pelo método simbólico-arquetípico para ampliar o conhecimento da interação do Self Individual com o Self Cultural na normalidade e na patologia (Byington, 1987).

Como muitas outras pessoas mentalmente desequilibradas, cujo distúrbio central é a disfunção da agressividade, Hitler foi um assassino suicida. A mistura da agressividade dirigida ao Outro e ao Ego é uma das evidências de que a agressividade está mal elaborada e fixada na Sombra. Trata-se, então, de u ma função estruturante indiscriminada, que por isso está dirigida ao Outro e ao Ego. Essa agressividade mal elaborada e a seguir projetada e atuada psicopaticamente nos judeus, comunistas, liberais, ciganos, eslavos, e nos portadores de doenças mentais e hereditárias, voltou-se também contra amigos e colegas do partido, contra os próprios soldados alemães ao proibir sua retirada e ao praticar erros estratégicos absurdos. Podemos vê-lo também nas derrotas sem rendição, na matança do próprio povo alemão e de si próprio. A monstruosidade do Nazismo foi liderada por Hitler, mas o principal fator que desafia a compreensão teórica foi sua aceitação pelo Congresso, por grande parte da sociedade e pelo exército, que se tornaram seus cúmplices, ao elevá-lo ao posto de Chanceler, com maioria para legislar.

A ascensão do Nazismo, baseada no discurso paranóide do bode expiatório da projeção do Mal, chama a atenção para a interação p olítica entre o Self Individual e o Self Cultural e as temíveis distorções patológicas possíveis, tantas vezes registradas na história, inclusive nos dias de hoje (Byington, 1987). A importância simbólica sociopolítica do Nazismo, nesse sentido, foi a sanção, por maioria de votos de um parlamento democrático, de um líder e de um partido que implan tariam um regime guerreiro de horror, que por muito pouco não obtiveram hegemonia planetária. De fato, a obtenção da bomba atômica pelos Estados Unidos antes da Alemanha foi somente uma questão de interesse e investimento. Houvessem Hitler e os físicos alemães se interessado pela obtenção da fissão nuclear como o fizeram com a bal ística e o resultado poderia ter sido outro. Se em seis anos, sob o comando de Hitler, a máquina de guerra alemã e seus campos de extermínio dominaram tantos países e mataram tantas pessoas, é impossível imaginar a extensão do Mal se o Nazismo tivesse obt ido a bomba atômica antes dos Estados Unidos.

Apesar de muitos leitores já conhecerem o referenci al teórico da Psicologia Simbólica, necessito recapitular alguns conceitos básicos para aqueles que o desconhecem.

Comecemos por enfatizar a ampliação dos conceitos de símbolo e de função pela Psicologia Simbólica para englobar todos os eventos e funções existenciais simultaneamente dentro da realidade subjetiva e objetiva. Surgiram assim os conceitos de símbolo, de função e de sistema estruturantes, que formam e transformam a identidade do Ego e do Não-Ego (o Outro) na Consciê ncia. Este processo é denominado Processo de Elaboração Simbólica e é aqui considerado a atividade psicológica central da personalidade individual e da cultura. Ele é regido pelo Quatérnio Arquetípico Regente, que opera à volta do Arquétipo Central. O quatérnio é formado pelo Arquétipo Matriarcal, que expressa principalmente a sensualidade; pelo Arquétipo Patriarcal, cuja essência é o poder e a organização; pelo Arquétipo da Alteridade, caracterizado por coordenar a interação democrática das polaridades e pelo Arquét ipo da Totalidade, que rege a elaboração simbólica em função do Todo.

Para aplicar o pensamento simbólico de Jung a toda dimensão psíquica, a Psicologia Simbólica ampliou o conceito de arquétipo para englobar também a Consciência. Assim fazendo, descreveu as cinco posi ções arquetípicas Ego-Outro, ao mesmo tempo, co-autoras e resultantes da elaboração dos símbolos estruturantes pelas funções estruturantes. São elas: a posição indifere nciada, que corresponde ao início da elaboração simbólica pelo Arquétipo Central; a posição insular, que forma ilhas na Consciência coordenadas pela sensualidade e pela ca usalidade mágica do Arquétipo Matriarcal; a posição polarizada, que tende a formar sistemas na Consciência coordenada pela capacidade abstrata e pela causalidade racional do Arquétipo Patriarcal; a posição dialética, articulada pela interação democrática das polaridades e pela sincronicidade do Arquétipo da Alteridade, que inclui os Arquétipos da Anima e do Animus descritos por Jung; e finalmente a posição contemplativa, que corresponde ao Arquétipo da Totalidade e que encerra a elaboração simbólica.

As disfunções da elaboração simbólica são aqui perc ebidas como a origem da Sombra, equacionada com o caminho do Mal, e de toda a psicopatologia. Essas disfunções englobam desde qualquer problemática gen ética até os distúrbios adquiridos, seja por doença orgânica, seja por uma limitação de origem emocional. Estas últimas incluem o conceito de fixação da Psicanálise e de m ecanismos de defesa do Ego, aqui considerados arquetipicamente como defesas do Self. Quando as funções estruturantes criativas sofrem distúrbios na elaboração simbólica, elas passam a ser denominadas funções estruturantes defensivas. Os símbolos fixados e as funções estruturantes defensivas formam o inconsciente reprimido da Psicanálise e a Sombra da Psicologia Analítica. Assegura-se assim a base psicodinâmica n ormal para a psicopatologia, como concebeu Jung (1935), e que falta na quase totalidade do DSM-IV. Este manual, que rege atualmente a Psiquiatria mundial, está organizado e m função de sintomas, quadros clínicos e de diagnósticos pouco ou nada articulados com o desenvolvimento normal.

Esta falta de articulação psicodinâmica dos quadros clínicos com expressões psicológicas normais propicia ”tratar” funções estruturantes criativas como defensivas, o que aumenta sobremaneira o numero de “clientes” da indústria psicofarmacológica. Os faturamentos astronômicos de multinacionais, obtidos com o tratamento supressivo de sintomas depressivos e ansiosos, que muitas vezes sufocam expressões criativas do sofrimento psicológico e que precisam ser ouvidas e existencialmente atendidas, além de pasteurizar a vida psicológica suprimindo suas denúncias, põem em dúvida a ética dessa indústria e dos médicos que a promovem, quando não separam e elaboram criteriosamente o que é criativo do que é defensivo.

As Quatro Estratégias Psicopatológicas

A interação da Sombra com a Consciência pode ser su bdividida em quatro estratégias defensivas típicas que determinam os quatro graus da psicopatologia simbólica. A estratégia defensiva neurótica mantém a Sombra dominantemente inconsciente. A neurose desarticula o funcionamento consciente e inconsciente da personalidade. Na estratégia defensiva psicopática, a Sombra domina a Consciência no que concerne à atuação, mas permanece inconsciente na reflexão. Na psicopatia, a Consciência se corrompe e se torna delinqüente para não perder o contato com a realidade e psicotizar. Na estratégia defensiva psicótica, a Sombra invade e domina centros operativos da Consciência, mantendo o contr ole da atuação e da reflexão das funções estruturantes comprometidas. Na psicose, a Consciência perde a articulação adequada com a realidade para manter seu estado de articulação com uma realidade simbólica própria alienada. Finalmente, na estratégia defensiva borderline, as funções estruturantes criativas se compõem com as funções e struturantes defensivas permitindo que estas operem setorizadamente, sem contudo dominar francamente centros operativos da Consciência, como ocorre na estratégi a psicótica. No estado borderline, a Consciência permite a operação de setores da person alidade fora da realidade por intermédio do desenvolvimento de funções estruturantes criativas que preservam sua ligação normal com a realidade.

A Passagem de Hitler da Estratégia Psicopática para Psicótica

Durante a guerra, vemos a psicopatologia de Hitler agravar-se e passar progressivamente para a estratégia psicótica, negando a realidade que o frustrava e penetrando num quadro delirante. Seu instinto agressivo psicopático incluiu cada vez mais o exército e o povo alemão, sem, em momento algum, fazer algo para protegê-los ou salvá-los, mas pelo contrário, condenando-os à d estruição, ao não permitir retiradas estratégicas ou qualquer acordo de paz antes dos bombardeios maciços, da invasão da Alemanha e de sua própria morte.

O General Franz Halder, chefe do Estado Maior, foi demitido por Hitler em 24 de setembro de 1942 e mandado para um campo de concentração. Em seu livro Hitler como Marechal de Campo, ele relata que foi demitido ao chamar a atenção de Hitler para o grande erro de pensar, apesar de informações do Serviço Secreto, que os russos estavam liquidados em Stalingrado (Halder, in Shirer, 1960, vol. 3, págs. 443-444).

O General Paulus, comandante do 6º Exército em Stalingrado, em 24 de dezembro de 1942 pediu permissão para render-se com duzentos mil homens, o que foi negado por Hitler. Em 24 de janeiro de 1943, Paulus comunicou que “as tropas estão sem munições e sem mantimentos … não é mais possível um comando eficaz … dezoito mil feridos sem quaisquer suprimentos, curativos ou remédios … insensato prosseguir na defesa. Inevitável o colapso. O exército solicita permissão para render-se a fim de salvar as vidas dos soldados remanescentes.” A resposta de Hitler foi a mesma: “proibida a rendição. O 6º exército defenderá suas posições até o último home m e o último cartucho e com sua heróica resistência fará uma contribuição inesquecí vel para o estabelecimento de uma frente defensiva e para a salvação do mundo ocidental.”. Paulus desobedeceu a Hitler e se rendeu (Shirer, 1960, vol. 3, págs. 461-462).

O General Rommel comunicou em 2 de novembro de 1942 que não poderia sustentar a luta no Norte da África e que pretendia retirar-se. Tinha começado a fazê-lo, quando Hitler lhe enviou a seguinte mensagem: “na situação em que vos encontrais agora, não há outra alternativa senão resistirdes f irmemente, não recuardes um passo, lançardes os canhões e todos os soldados na batalha … não deveis mostrar a vossas tropas outro caminho senão o que conduz à vitória ou à morte…” (Bayerlein, in Shirer, 1960, vol. 3, pág. 447). Em 4 de novembro o General Ritter von Thoma, que comandava o Afrika Korps, após dizer ao General Bayerlein que “a ordem de Hitler é um exemplo de loucura sem paralelo”, entregou-se a uma unidade britânica (Shirer, 1960, vol. 3, pág. 448).

Naquele inferno de derrotas, Hitler não mais consid erava o povo alemão digno de sua grandeza. “Se o povo alemão vier a ser derrotad o nesta luta”, declarou aos líderes distritais (Gauleiters) em agosto de 1944, “deve ter ficado demasiado fraco; terá deixado de provar seu valor perante a história e estará apenas destinado a ser destruído.” (Speer [a] in Shirer, 1960, vol. 4, pág. 244).

O General Guderian, Chefe do Estado Maior Geral, relata crises emocionais de Hitler, à medida que as notícias da frente de batalha pioravam. Eram ataques de fúria acompanhados de uma tremedeira das mãos e dos pés. Foi numa dessas crises que Hitler expediu uma ordem geral, em 19 de março de 1945, para que todas as instalações militares e industriais e as destinadas aos transportes e comunicações, bem como todas os armazéns da Alemanha fossem destruídos a fim de impedir que caíssem nas mãos do inimigo. A Alemanha devia ser transformada num vasto deserto. Nada se devia deixar para que o povo alemão pudesse sobreviver à derrota . “Se perdermos a guerra, a nação perecerá também … Só elementos inferiores restarã o nessa batalha, pois os superiores já estarão mortos.” (Speer [b], in Shirer, 1960, vol. 4, pág. 246).

As Inúmeras Dimensões do Self

Guiada pelo Arquétipo Central, a Consciência pode s ituar a elaboração simbólica em diferentes dimensões do Self, cuja fenomenologia ultrapassa o Self Individual. Assim, a polaridade Ego-Outro, dentro do Processo de Humanização, pode perceber a elaboração simbólica como o Self Familiar, o Self Terapêutico, o Self Cultural, o Self Planetário e o Self Cósmico, e dela participar. É evidente que todas estas dimensões estão sempre presentes, mas a influência de cada um a delas na elaboração simbólica pode ser maior ou menor, dependendo das circunstânc ias. No caso do Nazismo, a influência do Self Cultural Alemão, do Self Cultura l Europeu e do Self Planetário interveio de maneira intensa na elaboração dos símbolos e funções estruturantes da identidade alemã e no seu comportamento nas duas grandes guerr as do século vinte, grandemente influenciados pelo Self Individual de Hitler na Segunda Grande Guerra.

Devido ao fato de habitualmente nos identificarmos com o Self Individual, tendemos a perceber as demais formas do Self fora de nós. Quando assim fazemos, caímos nas dicotomias Psique-Natureza, Psique-Corpo e Psique-Sociedade, que limitam o referencial epistemológico da Psicologia. Só escapamos dessa armadilha metodológica, quando assumimos a raiz arquetípica do nosso Ego identificada com o Self Cósmico, dentro do qual se diferenciam todas as demais formas do Self. Para poder assumir esta identidade conceitualmente, a Psicologia Simbólica identifica a energia-evento psíquico com a energia-matéria cósmica. Nesse caso, os conceitos de Self englobam os conceitos de Deus e de Universo, como percebeu há milênios a sabedoria hindu, ao conceber o Atman. Jung também pensou este assunto quando escreveu que “na idéia indiana do Atman, o ser individual e o ser cósmico formam um perfeito paralelo com a idéia psicológica do Self e do filius philosophorum. O Self também é Ego e não-Ego, subjetivo e objetivo, individual e coletivo.” (Jung, 1946, par. 474).

A partir da identificação da energia psíquica com a energia da Totalidade, a Psicologia Simbólica seguiu Teilhard de Chardin (1947) e descreveu o desenvolvimento psicológico como o Processo de Humanização do Cosmos, que engloba todas as dimensões da totalidade do Self, inclusive aquela d o Self Individual, cujo desenvolvimento Jung descreveu como o Processo de Individuação. O Nazismo foi sem dúvida o descaminho mais destrutivo e ameaçador da viabilidade do Processo de Humanização.

É importante entender que o Sistema Nervoso individual compreende o Arquétipo Central, que o faz capaz de funcionar sistemicamente, elaborando os símbolos, funções e sistemas estruturantes para formar e transformar a Consciência, que com ele interage. Todas as dimensões do Self participam em grau maior ou menor da elaboração simbólica e o fazem por intermédio do Eixo Simbólico Ego/Outro-Arquétipo Central. Neumann nomeou impropriamente este eixo de Ego-Self, o que sugere erroneamente que o Ego possa existir fora do Self (Neumann, 1970).

As influências recebidas das várias dimensões do Se lf interagem umas com as outras junto com a Consciência e o Arquétipo Centra l, de tal maneira que o produto final desta elaboração na Consciência é armazenado na mem ória com todas estas influências. Assim sendo, o Sistema Nervoso jamais é exclusivamente orgânico, mas é sempre também simbólico, posto que recheado de significados apreendidos. (Byington, 2003). Por isso tudo, a filosofia que abrange a Ciência Si mbólica, na qual se situa a Psicologia

Simbólica, se expressa como o Humanismo Simbólico, pois seu cerne é o Processo de Humanização do Cosmos percebido por intermédio da elaboração simbólica.

Como todos os demais símbolos e funções estruturantes, a interação entre as várias dimensões do Self também atinge seu auge de capacidade de elaboração dos símbolos, funções e sistemas estruturantes na posição dialética do Arquétipo da Alteridade (Byington, 1996b, cap. 9). Esta capacidade de produtividade psicológica máxima, que venho assinalando em minha obra há vint e e cinco anos, é devida à interação dialética quaternária entre as polaridade s dentro do princípio da sincronicidade e do sistema de múltiplo retorno do Self (von Berta llanfy, 1968). Trata-se da dialética quaternária essencial para as pessoas que querem se relacionar profundamente, sejam elas parentes, amigos, sócios ou cônjuges, bem comopara o relacionamento entre o Self Individual e o Self Cultural, como estamos abordando aqui na relação entre Hitler e a cultura alemã.

Quando nos referimos à elaboração dialética quaternária, incluímos sempre também a interação das polaridades situadas na Consciência e na Sombra, o que para a Psicologia Simbólica corresponde à relação entre o Bem e o Mal, coordenada pela função estruturante da ética. Assim procedendo, o processo de elaboração simbólica é capaz de extrair o máximo de significados da atividade simbólica da Psique. Conseqüentemente, é lógico que todas as atividades humanas, incluindo o conhecimento e a cultura acumulados, deveriam ser elaboradas pela posição dialética do Arquétipo da Alteridade, o que nos leva a concluir que, neste setor, a humanidade tem uma tarefa imensa a realizar. O filósofo inglês Alfred North Whitehead chamou a atenção para esta elaboração na ciência objetiva com seu livro Processo e Realidade, tema que Carl Popper continuou em Realidade Objetiva, ao enfatizar a importância do reconhecimento do e rro (da Sombra) no progresso da Ciência.

A análise dialética da Política e da História pelo Materialismo Dialético de Marx e Engels deu grande ímpeto para a elaboração das Ciên cias Sociais nos séculos dezenove e vinte. Infelizmente, ao aplicar a dialética à transformação política e econômica da sociedade, o Materialismo Dialético cometeu quatro erros fundamentais, que muito enfraqueceram a implantação do Arquétipo da Alteridade e contribuíram para favorecer o Nazismo.

O primeiro erro foi o redutivismo do Self Cultural à dimensão econômica, equivalente em gravidade à redução feita por Freud da libido à dimensão sexual. Reduzir o estudo de qualquer fenômeno a uma única dimensão do Self impede o seu enfoque sistêmico (dentro da totalidade) e mutila sua compr eensão simbólica. O segundo erro foi a redução das polaridades do Self Cultural a duas classes sociais. O terceiro foi a redução do relacionamento destas duas classes sociais à luta de classes e não à sua interação dialética. Finalmente, o quarto erro foi a idéia de que, se o proletariado coletivizasse a propriedade privada e o poder político, acabariam as classes sociais e reinaria o paraíso comunista com uma sociedade sem classes, isto é, sem tensões entre as polaridades na dimensão social.

Como qualquer dimensão do Self, a dimensão social a presenta arquetipicamente polaridades que se manifestam socialmente. Assim, nos estados comunistas, as polaridades se transmutaram das classes socioeconômicas, abolidas junto com a propriedade privada, para a polaridade política do Partido versus a classe proletária. O que foi abolido com essa transformação social a ferro e fogo foi a democracia, junto com a dialética da alteridade, substituída pela ditadura monopartidária exercida supressiva e repressivamente pela posição polarizada do Arquétipo Patriarcal. Este quarto erro foi o mais grave de todos devido a ter levado a teoria comunista a respaldar ditaduras que exterminaram muitos milhões de pessoas no século vi nte (Byington, 1980) e a propiciar o uso da truculência pelo Partido Nacional Socialista.

Estes erros da dialética não foram percebidos e analisados pelos estudiosos devido à teoria marxista da transformação econômica ter sido invalidada por sua negação da criatividade e produtividade do mercado econômico e por ter ela sido a cartilha dos parâmetros socioeconômicos de terríveis ditaduras p olíticas. Com isso, infelizmente para a Cultura, interrompeu-se o estudo da dialética como expressão do Arquétipo da Alteridade nas dimensões socioeconômica e política e, mais uma vez, como no caso do Mito Cristão, não se compreendeu que o seu descamin ho não foi devido à dialética em si, mas à sua patriarcalização defensiva que substituiu a abrangência criativa da posição dialética pela estreiteza dogmática da posição pola rizada.

A Teoria Arquetípica da História

Uma análise simbólica e arquetípica na dimensão do Self Cultural não pode prescindir da Teoria Arquetípica da História concebida pela Psicologia Simbólica (Byington, 1983). Esta teoria se baseia no encadeamento dos arquétipos regentes na elaboração dos símbolos para formar a Consciência n a história da humanidade, analogamente ao que acontece no desenvolvimento da personalidade individual e na elaboração de qualquer símbolo durante a vida.

Apesar de esta teoria se referir a milênios e, por isso, generalizar e não considerar muitas etapas fundamentais tão bem estudadas pelos especialistas, ela é muito útil para manter o estudioso da humanidade firmemente enraizado na perspectiva histórica arquetípica do processo de Humanização do Cosmos. Cada tamanho de pássaro tem um tipo de relação com o conhecimento do solo, e assim é o conhecimento psicológico da História. Os pássaros de asas menores percebem a ár vore e o monte, enquanto que os pássaros de asas maiores podem ver a cordilheira e o oceano. É indispensável que todas as aves se associem na busca da percepção da superfície terrestre.

Se considerarmos que as mutações que geraram o Homo Sapiens têm aproximadamente mais de cem mil anos, podemos supor que nossa Consciência foi, durante o chamado período pré-histórico de mais de oitenta mil anos, coordenada dominantemente pela sensualidade e fertilidade do Arquétipo Matriarcal. Isto provavelmente ocorreu pelo fato de os povos caçadores-coletores nômades terem como elaboração simbólica principal as funções estruturantes da alimentação e da sobrevivência.

A partir da revolução agro-pastoril, há mais de dez mil anos, conquistamos paulatinamente a moradia permanente que permitiu a construção das cidades e dos impérios, que ao longo dos séculos geraram a “nacionalização” do Self Planetário. Provavelmente a dominância do Arquétipo Patriarcal e da posição polarizada foram se tornando dominantes a partir da construção das cidades, da escrita, da propriedade privada articulada com a organização familiar hereditária, das classes sociais e do capitalismo (Engels, 1884). A nacionalização do Self Planetário tem sido um processo milenar que acompanhou as correntes migratórias e a formação dos impérios. Até hoje, mesmo na Europa, as diferentes etnias ainda não se transformaram definitivamente em nações, como ficou patente nos recentes conflitos dos Balcãs. O continente africano tem sido palco de terríveis lutas interétnicas dentro de um mesmo estado. Elas evidenciam que o critério dos colonizadores europeus, ao subordinar a divisão territorial às conveniências de conquista e domínio, orientou-se p elo padrão patriarcal, muitas vezes sem levar em conta o padrão matriarcal que enraíza tradicionalmente as etnias à Terra Mãe.

A unidade alemã só foi realizada em 1871 e a italiana em 1861, o que nos dá uma idéia de como são recentes, quando pensamos que as fronteiras do Brasil foram fixadas em 1750. Uma das reivindicações territoriais da Alemanha de Hitler era a reunião com a Áustria e a primeira ocupação territorial, antes da invasão da Polônia, que desencadeou a Segunda Guerra Mundial, foi a anexação dos sudetos, população preponderantemente alemã de parte da Tchecoslováquia. O pangermanismo de Hitler, unido ao nacionalismo de um povo que se achava humilhado e fragilizado depois da Primeira Guerra Mundial, da qual ele foi um dos veteranos, foram dois ideais de sua pregação aos quais ele, ardilosamente, reuniu o ataque projetivo do bode expiatório aos judeus e comunistas e o ideal quimérico de um suposto sangue ariano ancestral dos alemães. Um fator da maior importância para veicular a demagogia e a mentira d eslavada adotada por Hitler e pelo Partido foi uma dedicação especial à comunicação de massa, que se institucionalizou depois no Ministério de Goebels.

Até aqui, este enfoque arquetípico pode ser guiado pelo referencial teórico tradicional de Jung e de Erich Neumann, desde que não identifiquemos o Arquétipo Matriarcal com a mulher, a “Grande Mãe” e o “femini no” e o concebamos como expressão de sensualidade e fertilidade igualmente da mulher e do homem. Nesse caso, o mesmo devemos fazer com o Arquétipo Patriarcal para não ser identificado com o homem e o masculino e ser considerado a expressão da organiza ção abstrata seja no indivíduo ou na cultura, no homem ou na mulher. Isto não impede que o Arquétipo Matriarcal tenha sido historicamente reduzido à mulher, à mãe e ao femini no e o Patriarcal ao homem, ao pai e ao masculino durante o período de dominância patria rcal da cultura.

Após a dominância patriarcal, a Psicologia Simbólica descreveu a anunciação mítica seguida pelo início da implantação histórica progressiva do Arquétipo da Alteridade e de sua posição consciente dialética a partir do Mito do Buddha no Oriente e do Mito Cristão no Ocidente. Esta implantação tem sido entr emeada por circunstâncias e fases históricas de patriarcalização defensiva. No Ocidente, esta deformação começou com uma relativa patriarcalização dos Evangelhos Canônicos quando os comparamos com os Evangelhos Gnósticos, e continuou com a institucionalização do Mito dentro da estrutura piramidal da Igreja, que seguiu o modelo patriarcal do império Romano. A projeção do bode expiatório nas correntes divergentes do poder oficial rotulou-as de heresias e deu margem à organização repressiva da Inquisição, que durante catorze séculos patriarcalizou de maneira psicopática o Mito Cristã o e o empregou na perseguição, confisco de bens, prisão, tortura, homicídio e guer ras para a hegemonia do poder da Igreja (Byington, 1991). A perseguição aos judeus, nos progroms, como bodes expiatórios da repressão em nome de Cristo, sempre teve um luga r de destaque na Inquisição e durante séculos pautou o anti-semitismo que atingiu seu auge genocida no Nazismo.

Tenho descrito em outras publicações (Byington, 1983, 1991, 1996b, cap. 2), e aqui resumo sucintamente, como o Mito Cristão elabo rou e propiciou a implantação criativa histórica do Arquétipo da Alteridade por ntermédio da catequese, da Missa e dos monastérios durante a Idade Média. Após o milênio inicial de elaboração introvertida da mensagem de salvação do Mito, seguiu-se a grande extroversão socioeconômica, política, artística e científica que transformou os monastérios em universidades, desencadeando o Renascimento, as ciências modernas e o Iluminismo, seguidos pela industrialização. Tenho chamado reiteradamente a atenção para a dissociação patológica objetivo-subjetivo do Self Cultural da chamada Cultura Ocidental, ocorrida quando a Ciência tomou o poder na Universidade e, ao liberar -se da Religião em função da Inquisição, expulsou também o subjetivo e, com ele, a totalidade humanista. Desta maneira, a Psicologia Simbólica mostra que a dissociação ética do Self Cultural Europeu, ocorrida durante séculos pela posição polarizada da antinomia Cristo-Diabo, agravou-se sobremaneira com a dissociação subjetivo-objetivo que mutilou o saber universitário no final do século dezoito. Assim sendo, há que se ise ntar o Iluminismo e o culto da razão por ela professado da responsabilidade pelo racionalismo dissociado do século dezenove. O culto da razão em si não é patológico. O que tornou o racionalismo materialista do século dezenove patológico foi a dissociação subjetivo-objetivo sobreposta à polarização puritana e maniqueísta do Bem e do Mal herdada da Idade Média.

Estas considerações são importantes porque o século dezenove apresentou a industrialização, dentro da implantação histórica da dialética da alteridade, buscando um humanismo correspondente ao poder adquirido pelo operador da máquina. O movimento socialista buscava o reconhecimento desse direito já adquirido pelo proletariado. No Manifesto Comunista de 1848, essa reivindicação foi desviada da alteridade para a dominância polarizada patriarcal. A exortação “prol etários do mundo, uni-vos” para estabelecer a “ditadura do proletariado” prenunciou as terríveis ditaduras comunistas do século vinte. Dessa forma, o socialismo deixou de ser dialético e as revoluções comunistas passaram a implantar suas ditaduras, a começar pela Rússia. O Partido Comunista tomava o poder e estabelecia a repressão e a tirania, transformando seus opositores em bodes expiatórios e rotulando-os de traidores da revolução e do proletariado. Em muitos países, essa revolução foi repudiada por causas as mais variadas. O Nazismo se desenvolveu dentro do movimento socialista europeu liderado pela revolução comunista russa de 1917. Entre 1918 e 1920, os comunistas tomaram o poder na Alemanha três vezes. A primeira em Munique , em novembro de 1918, durante três meses; a segunda, em Berlim, em janeiro de 191 9, durante uma semana, e a terceira novamente em Munique, em maio de 1919. Em todas as três vezes foram depostos por grupos de direita formados entre outros por ex-militares que se aglomeravam depois da guerra (Freikorps), e pelo que restava do próprio exército. Foi em princípio de 1919 que Hitler, ele próprio um veterano do exército derrotado, começou a descobrir seu dom oratório ao ser aproveitado pelo exército como educador (Bildungsoffizier). Em setembro, ele começou a freqüentar reuniões do pequeno Partid o dos Trabalhadores Alemães que, em 1º de abril de 1920, teve seu nome modificado para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Seu caminho nacionalista foi traçado desde o início em feroz oposição ao judaísmo, que ele identificava com o marxismo de ideologia internacional, cuja vitória política na Rússia enchia de horror o exercito e muitos alemães.

Apesar da conturbação social e da ameaça comunista, a Alemanha caminhava para a alteridade e a democracia. Nas eleições de 19 de janeiro de 1919, que pela primeira vez incluíram as mulheres, três de cada qu atro votos foram para partidos democráticos. Infelizmente, as humilhantes condiçõe s para a Alemanha no tratado de Versailles de 1919 e a crise econômica mundial do final da década seguinte desviaram a Alemanha da alteridade para a regressão nacionalist a patriarcal que levou Hitler ao poder em 1933. A sociedade alemã foi radicalmente patriar calizada na posição polarizada e elitista em todas as suas dimensões. O trabalho pro fissional foi interditado às mulheres, que passaram a se dedicar, por lei, exclusivamente ao lar, apesar da falta que fizeram na produção industrial, sobretudo durante a guerra.

A Personalidade de Hitler e a Ascensão do Partido

Aquele que se tornou o monstro sanguinário homicida e suicida líder da Alemanha Nazista nasceu em 1889 e tinha trinta anos quando entrou para o partido, em 1919. Sua vida em nada preconizou o herói diabólico do Mal que se tornou. A formação de sua personalidade apresenta grande conflito agressivo com seu pai, que o queria tornar funcionário público, contraposto à complacência de sua mãe, que o sustentou com sua magra pensão de viúva dos catorze aos dezessete ano s, quando faleceu. Aluno mimado e voluntarioso, só estudava o que queria, principalmente História e Geografia. No final de sua adolescência, viajou para Viena e tentou estuda r pintura na Escola de Belas Artes, mas foi reprovado e aconselhado a seguir arquitetura, o que só fez como amador, esquematizando inúmeros prédios públicos depois de ditador. Nessa criatividade tardia, também expressou o componente suicida de sua personalidade, ao preconizar junto com os projetos grandiosos desenvolvidos por ele e pelo arquiteto Speer para o campo de Zepelin, na sede do Partido em Nuremberg, o “princípio das ruínas”. Edifícios importantes seriam construídos e num futuro distante desmoronariam, formando ruínas pitorescas (Cohen, 1989). A mesma idéia suicida vamos encontrar na sua admiração por Rienzi, ópera de Wagner, que retrata a história de um heróina Roma Antiga, que lidera o povo contra a aristocracia. Traído, sua última batalha é no Capitólio, que desaba incendiado. Esta expressão suicida, que pertence ao arquétipo do herói patriarcal e que arrastou não somente Hitler, mas o exército e todo o povo alemão, voltou a se repetir na dimensão da arquitetura no mito do Anel dos Nibelungos. Depois de morrerem em batalha os heróis Sigmund e Siegfried, segue-se a epopéia final em que o Walhalla, a fortaleza de Wotan, construído pelos gigantes, desaba em chamas, destruindo o deus que escolheu o poder no lugar do amor.

 

Ao lado de devassos arruinados, de modos de vida duvidosos e de origem igualmente duvidosa, de aventureiros e de restos corruptos da burguesia, encontravam-se vagabundos, soldados dispensados, detentos saídos das prisões, condenados foragidos, gatunos, charlatães, lazarentos, batedores de carteiras, vigaristas, jogadores, rufiões, proprietários de prostíbulos, carregadores, pichadores, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de facas, soldadores de panelas velhas, mendigos, em suma, toda essa massa confusa, decomposta, flutuante, que os franceses chamam de a bohème (a boêmia). Foi com estes elementos que lhe estavam próximos que Bonaparte constituiu o corpo da sociedade do Dez de Dezembro. (Slama, 2003).

Quando ainda jovem, na época em que tudo nos sorri, nada me fazia tão triste como o ter nascido em uma época em que todas as honras e glórias eram reservadas a negociantes ou a funcionários do governo …

Ah! Se me tivesse sido possível ter nascido cem anos antes … já nos meus mais tenros anos, eu não era pacifista …A culpa d o governo alemão, neste caso [Balcãs] foi de perder sempre as boas oportuni dades de intervenção [guerra] devido à preocupação constante de manter a paz. … O governo de Viena deu o seu ultimato [iminência de guerra] … dominado por delirante entusiasmo, caí de joelhos … A 3 de agosto [1914] apresentei um requerimento [de alistamento] … Ao abrir com mãos trêmulas o documento no qual li o deferimento … meu contentamento e minha gratidão não tiveram limites… (Hitler, 1924, págs. 107-111)

A minha maior metamorfose foi, porém, a que experimentei em relação ao movimento anti-semítico … As ligações dos judeus com a prostituição e sobretudo com o tráfico branco … v i o judeu envolvido como dirigente frio, inteligente e sem escrúpulos nessa escandalosa exploração dos vícios da grande cidade … eu ficava pasmo … não se sabia o que mais admirar, se a sua loquacidade, se o seu talento na arte de mentir … Passei a ser um fanático anti-semita … A esse povo não s eria destinado o domínio da Terra? … Se o judeu, com o auxílio de seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a cor oa mortuária da espécie humana … Lutando contra o judaísmo estou realizando a obra de Deus. (Hitler, 1924, págs. 46-52)

O ambiente caótico e revolucionário reinante no pós-guerra foi-lhe extraordinariamente útil. Quando a guerra terminou, em 1918, o exército alemão havia convocado onze milhões de soldados, dos quais dois milhões haviam morrido. A

Alemanha não tinha como se alimentar. A desordem so cial era enorme. Ao mesmo tempo, o mundo intelectual e artístico clamava por uma nova Alemanha. Desregramento no exército, revolução proletária comunista em marc ha e grupos para-militares por todos os lados tornavam as atividades políticas inseparáv eis de atividades violentas. Os comícios eram freqüentemente reprimidos por comitês de operários marxistas. Foi nesse ambiente que o partido nazista começou a recrutar uma verdadeira tropa de choque. É Hitler quem escreve:

Logo no começo de nossa grande atividade nos comícios, propus a organização de uma guarda da sala como um serviço de ordem para o qual só se deviam recrutar rapazes fortes …, que vinham sendo educados na convicção de que o terror só se vence pelo terror. … O ataque constitui a arma mais eficaz da defesa. … Nossa tropa de serviço de ordem tem que ser precedida da fama de ser uma comunidade de combatentes. … Com que entusiasmo se alistavam então estes rapazes. .. . Em 4 de novembro recebi as primeiras notícias sobre o ataque ao nosso comício …. Expus aos rapazes que havia chegado a hora de provarem, pela primeira vez, a sua fidelidade inquebrantável ao movimento. Nenhum de n ós tinha o direito de deixar a sala senão depois de morto. … Como lobos , precipitavam-se, em matilhas de oito ou dez, sobre os seus adversários, conseguindo aos poucos, expulsá-los da sala. … quase todos estava m sujos de sangue … exultávamos diante de uma tal ressurreição de antig a cena guerreira … Nós tínhamos ficado senhores da situação … e eu recomecei a falar … Nossos adversários não esqueceram a lição recebida … Eu havia chegado a uma bandeira de fundo vermelho com disco branco, em cujo centro figurava uma cruz suástica preta … Fizeram-se logo encomen das de braçais para os encarregados de serviços de ordem … Era um símbolo de verdade … no vermelho, vemos a idéia socialista do movimento, no branco, a idéia nacional, na cruz suástica, a missão da luta pela v itória do homem ariano, simultaneamente com a vitória da nossa missão renovadora que foi e será eternamente anti-semita … Dois anos mais tarde, as “tropas de ordem” já se tinham transformado há muito tempo em um batalhã o de assalto. (Hitler, 1924, págs. 307-317)

Assim formou-se o batalhão SA do Partido.

Ao terminar o ano de 1922, aproximadamente quatrocentos assassinatos políticos haviam sido perpetrados, a maioria por grupos de direita e o Partido Nacional Socialista começou a crescer. Em 1924, Hitler tentou um golpe, fracassou e foi preso. O Partido quase desapareceu, mas a crise econômica da década e a ameaça comunista permanente permitiu-lhe renascer e crescer outra vez. Em 1929, 170 mil membros; em 1932, 1 milhão e 378 mil membros.

Em 30 de janeiro de 1933, Hitler se torna Chanceler, com escassa maioria, por acordo político. Ainda havia muita oposição ao Nazismo. Ele pede eleições para o Congresso. Na campanha, as SA agem com audácia e br utalidade. Goering torna-se Ministro do Interior e comanda a força policial da Prússia. Surge assim a polícia secreta, a Gestapo. Himmler faz o mesmo com a polícia da Baviera. Sob forte pressão das SS o Congresso dá a Hitler poder para legislar por decre to. O exército, os conservadores e os grandes industriais relutam em aceitar Hitler por causa do poder armado e terrorista das SA. Hitler as sacrifica em troca da Presidência. Em 30 de junho de 1934, na chamada Noite das Facas Longas, Himmler, Goering e as SS assassinam as lideranças da SA e os inimigos de Hitler. Em 1º de julho, o presidente Hindenburg agradeceu a Hitler por “sua ação decisiva e brilhante intervenção pessoal, que liquidara a traição no nascedouro e salvara o povo alemão de um grande perigo” (Shirer, 1960, vol.1, pág. 336). O exército também apoiou a subordinação do Nacional Socialismo às forças da lei. Em função do forte abalo de sua identidade nacional durante o período da pós-guerra, o povo alemão tornou-se propenso a retornar à dominância do Arqué tipo Patriarcal de forma radical com o restabelecimento da posição polarizada num nível até mesmo pré-cristão, como percebeu Jung (1936). A intensidade da ativação patriarcal foi tão intensa que em poucos anos o Nacional-Socialismo elitizou a consciência c oletiva com o “arianismo” e eliminou brutalmente qualquer oposição. Esta patriarcalização fulminante desequilibrou de tal forma o Self Cultural que sua patologia cresceu extraordinariamente.

Hindenburg morreu em 2 de agosto de 1934, e no mesmo dia Hitler passou a ser denominado Führer e Chanceler do Reich. Ele assumiu o poder e exigiu de todos os oficiais e membros das forças armadas um juramento de fidelidade a ele próprio, e não à nação (Shirer, 1960, vol 1, pág. 338). O acordo ent re Hitler, o presidente Hindenburg e o exército para exterminar as SA elegeu a psicopatia homicida e suicida para governar a Alemanha e desencadear a avalanche monstruosa da guerra e do genocídio.

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É médico psiquiatra e analista junguiano. Nascido em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina. Especializou-se em Psiquiatria e Psicanálise, e, em 1965, graduou-se pelo Instituto Jung, em Zurique. Retornou ao Brasil e fundou, com outros colegas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, que já formou até 2005 noventa analistas, e a Sociedade Moitará, para o estudo de símbolos da cultura brasileira, mais tarde incorporada à SBPA. Foi presidente, diretor de ensino e há muitos anos é supervisor e coordenador de seminários na SBPA. Além de ministrar inúmeros cursos e palestras no Brasil e no exterior, ensinando e divulgando a obra de Jung, Carlos Byington desenvolveu conceitos próprios, que originaram a Psicologia Simbólica Junguiana.

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