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A Ética e a Alteridade

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O tema de nossa conversa de hoje é bastante atual, pois abordaremos a questão da ética, da alteridade e da psicopatia inserida no universo da intensíssima criminalidade em que vivem hoje as grandes metrópoles. Há os casos mais críticos, como os do Rio e de São Paulo, mas não são as únicas cidades com est a problemática e faz-se necessário refletir sobre tal questão sob diversos aspectos. A Psicologia pode nos trazer importantes contribuições para esta análise, que deve ser feita não apenas no nível individual, mas também no coletivo, nos níveis sociológico e tambémjurídico, dada a desatualização da legislação vigente sobre criminalidade envolvendo psicopatia. A noção de que o envolvimento de crianças na criminalidade implica menor gravidade, devido a sua maior pureza, é, por exemplo, não apenas inocente como errônea, do ponto de vista psicológico. Porque se há uma deformação de caráter , ou seja, se há uma fixação no desenvolvimento da personalidade no nível do caráte r, quanto mais precocemente ela ocorrer, mais grave poderão ser suas conseqüências no funcionamento da personalidade em um momento posterior. Portanto, o homicida doloso, aquele que tem intenção de matar, que atua durante a adolescência ou a infânci a, possui uma condição muito mais grave dentro da psicopatia do que aquele que entra no crime mais tarde. Curiosamente, é o oposto do que considera o Estatuto da Criança, por exemplo. Em realidade, este criminoso jovem, o homicida doloso, tem, devido à sua periculosidade, uma necessidade muito maior de reclusão, de exclusão social, do que o criminoso adulto. Estas noções que permeiam os aspectos jurídicos, sociológicos e individuais de nosso tema precisam ser abordadas de forma entrelaçada.

Ao abordarmos a problemática da ética com relação à transgressão criminal na formação do caráter, entramos invariavelmente no te rreno da psicopatia, do dinamismo psicopático.

O século vinte abre a Psicologia Moderna com Freud descrevendo as psiconeuroses de defesa: a histeria, a neurose de ansiedade, a neurose obsessiva e a psicastenia. De outro lado estariam as psicoses. Num terreno intermediário, as perversões. Freud não acreditava que houvesse defes a repressiva ou recalque no terreno das perversões porque estas atuavam a sexualidade. Assim, limitava a defesa repressiva às neuroses. As psicoses, por outro lado, por serem constituídas por fixações extraordinariamente precoces, teriam enorme dificuldade em receber tratamento psicoterápico baseado na neurose de transferência. Como sabemos, Freud baseou o tratamento psicanalítico na neurose de transferênci a, que consiste na projeção, sobre o analista, das fixações do paciente.

 

O século vinte concentrou-se demasiado nas neuroses e na psicoterapia da neurose, dentro da evolução psicodinâmica da Psican álise e da Psicologia Analítica. O terreno das perversões ficou fora da elaboração das neuroses na psicodinâmica psicanalítica, junto com as psicopatias. Em parte devido a isso, houve uma crescente penetração da corrente comportamentalista no tratamento de tais condições. Uma das razões para esse fato é que a defesa psicopática te m a intenção de fazer o mal. Geralmente, quando o psicopata busca o terapeuta, ele o faz já com o propósito de envolvê-lo em seu distúrbio do caráter e assim apen as finge que está se tratando. Isto ocorre, por exemplo, em casos de exigência jurídica de tratamento da psicopatia, nos quais o indivíduo vai para a terapia e procura envolver o terapeuta para que este acredite que ele está se tratando e com isso possa pleitear uma diminuição da pena ou a liberdade condicional.

A corrente comportamental e sua herdeira mais atual, a linha cognitiva, desenvolvem hoje os tratamentos mais comuns para a psicopatia, através de tentativas de modificar a maneira de agir e pensar do indivíduo. Na Psiquiatria forense a corrente comportamental está muito disseminada e tem se choc ado, freqüentemente, com os limites da ética médica terapêutica por adotar tratamentos baseados na substituição da conduta patológica por uma conduta normal condicionada. Lançam-se mão, às vezes, de mecanismos extremos como, por exemplo, dar choques elétricos nos órgãos genitais de estupradores ou mostrar uma figura da mulher que normalmente traria excitação e, simultaneamente, dar um choque no pênis, buscando d esfazer a ligação da excitação sexual com o ato de ver e atacar a mulher. Além disto, há também uma enorme variedade de tratamentos hormonais descondicionantes. Esses exemplos nos mostram a situação ética limítrofe na qual se realizam estes tratamentos. Por que se chegou a esse extremo? Porque o tratamento da psicopatia é, na realidade, de dificílimo acesso ao terapeuta. Com isso, sedimentou-se a noção que se tornou clássica de que as psicopatias seriam de fato essencialmente diferentes das neuroses porque não t eriam defesas. Elas seriam simplesmente distúrbios do caráter, ou mais especif icamente, da conduta, sem qualquer formação de defesas e, portanto, com uma psicodinâm ica diferente das neuroses.

Quando estudamos as perversões e as psicopatias do ponto de vista psicodinâmico, vemos que elas realmente se caracter izam por uma diferença bastante grande das neuroses. Elas são conscientemente atuad as, apresentando, por isso, um grau de distúrbio da personalidade muito além do encontrado em quadros de neurose, nos quais o comprometimento se dá, sobretudo, no mu ndo da fantasia inconsciente não atuada. Quando o neurótico atua sua Sombra, ele agride, ama, rejeita, não trabalha, bebe, engorda, sempre dentro de uma atuação neurótica, sem ter, no entanto, a intenção explícita de prejudicar a si mesmo ou ao outro. Ele não planeja a agressão defensiva ou qualquer outra atuação, e é neste ponto que a jurisprudência faz uma distinção entre culpa e dolo. Culpa é a ação sem planejamento, sem intenção. Dolo é a ação planejada, com intenção, com volição. A vontade está a serviço da ação. Apesar de Freud não ter estudado a neurose de caráter, psicopatia ou sociop atia, sua psicopatologia da perversão delas se aproxima. Ele descreveu a sexualidade infantil como a expressão do instinto sexual em zonas erógenas diversas que vão com o tempo se reunindo para unificar-se na fase genital e configurar a sexualidade adulta junto com o amadurecimento das glândulas sexuais na adolescência. Assim, a sexualidade infan til caracteriza a criança como perverso-polimorfa e a perversão no adulto se origi naria na fixação da sexualidade nessa fase do desenvolvimento sexual infantil. Desta maneira, para Freud (1905) a atividade sexual do adulto pode normalmente incluir na vida adulta normal a excitação das zonas erógenas que expressaram a sexualidade infantil, pois elas continuarão ativas durante toda a vida. Assim, a sexualidade para Freud é normal quando a excitação das várias zonas erógenas servem de preparativo para o orgasmo na relação genital, enquanto que na perversão a sexualidade e o orgasmo ficam subord inados a uma ou outra destas zonas erógenas intermediárias.

Apesar de a perversão não apresentar o recalque sup eregóico que encontramos nas neuroses, ela apresenta uma fixação, o que nos permite caracterizar sua expressão na Sombra como defensiva e daí falarmos em defesa perversa. O mesmo podemos fazer com a defesa psicopática, pelo fato de ela também a presentar uma fixação da elaboração simbólica e uma atuação sombria desta fixação.

Na neurose, não há dolo ou intenção. Ao abordar a q uestão da conduta intencional, passamos para o plano de comprometimento do caráter , da decisão da personalidade, da responsabilidade pela ação maléfica. Este terreno foi amplamente estudado na Psiquiatria. Conhecemos a obra de Kurt Schneider sobre a personalidade psicopática.

A ampliação de Jung do conceito de libido para energia psíquica, e não exclusivamente sexual, como pretendeu Freud, permitiu reconhecer a defesa psicopática em qualquer caso em que a defesa seja parcialmente consciente, o que ultrapassa de muito as perversões. Esta extensão do conceito de d efesa psicopática nos fez percebê-la em inúmeros quadros clínicos, que até hoje nunca haviam sido incluídos no conceito de psicopatia. Todos os distúrbios alimentares e de dr ogadição, por exemplo, incluem na sua psicodinâmica a defesa psicopática, pelo fato de se rem exercidos ao menos em parte conscientemente.

As diferenças existentes entre neurose, psicopatia, perversão e psicose são fundamentais para o enfoque psicodinâmico. O fato d e as psicopatias apresentarem uma atuação das fixações da mesma forma que as perversõ es enseja colocá-las juntas, num quadro psicodinâmico diferente do das neuroses e ps icoses. Dentro desta perspectiva, temos quatro estratégias psicopatológicas diferentes: a neurótica, a psicopática, que inclui a perversa, a borderline e a psicótica.

Dentro da conceituação da Psicologia Simbólica, a atividade psíquica é centrada no processo de elaboração. De um lado, esta forma a Consciência e do outro lado, a Sombra. Ambas provém dos símbolos. E o que são os símbolos? Todas as vivências humanas são símbolos e sua vivência traz a elaboraç ão. E o que é a elaboração de um símbolo? É a separação desse símbolo em seus componentes objetivos e subjetivos. Vai se formando, então, a identidade do Ego e do Outro na Consciência. Da Consciência passamos à conduta, que pode ser satisfatória ou não. Uma pessoa, por exemplo, pode estar vindo para cá e estar atrasada. Ela elabora o seu caminho, pensa no trânsito, mas ao invés de fazer a curva depois do monumento e entrar à direita, toma o caminho da esquerda e vai parar na 23 de Maio. É evidente que ela elaborou sua vinda para cá. Ela formou o seu Ego – está dirigindo – e o seu Outro – o seu carro, o trânsito, os faróis, as esquinas. Mas, na hora da conduta, ela percebe que, ao invés de estar na Av. Dante Pazzanese ela estava na Av. 23 de Maio. Então, o qu e ela faz? Ela re-elabora sua conduta dentro da vivência. Ocorre uma nova elabora ção simbólica e ela percebe que entrou à esquerda, ao invés de entrar à direita. Há uma nova formação da Consciência e modificação do Ego, que, desta vez, ao invés de determinar a entrada à esquerda, vira à direita e entra na Av. Dante Pazzanese, chegando ao Instituto de Engenharia para nossa palestra. A elaboração simbólica dá-se sempre atrav és da vivência. Ela forma a Consciência, transforma a conduta e continua em nov a elaboração e, assim, vai se aperfeiçoando durante a vida. Em tudo o que fazemos, está presente a elaboração simbólica. Quando ocorre, no entanto, aquilo que Freud descreveu como processo de fixação, devido à uma irregularidade qualquer durante esta elaboração, como o sofrimento físico, ambiente hostil, dificuldade de elaboração devido à carga traumática de vivência, ou até mesmo falta de tempo por ocupações demasiadas, estes símbolos fixados passam a ser vivenciados através da Sombra e são atuados em uma conduta existencial inadequada com um sério agravante, que é o fato de permanecerem dominantemente inconscientes.

Com esta vivência da Sombra, a conduta é naturalmen te inadequada e estará sujeita a uma nova elaboração, mas, como a defesa continua presente, ela atua outra vez na compulsão de repetição, que refaz o mesmo caminh o inadequado. Nas vivências da psicopatia, a atuação intencional da Sombra nos leva a pensar que estes pacientes não têm defesas. Se nos aprofundarmos nestas personalid ades, porém, veremos que a sua intenção dolosa não engloba toda sua atuação. Por t rás da intenção dolosa, criminosa, do psicopata, existe uma motivação inconsciente encoberta por defesas, tanto quanto nas neuroses, apesar de estas não apresentarem o compon ente de intenção que ocorre no dinamismo psicopático. Escolhemos o filme Os Últimos Passos de um Homem para analisar porque ele ilustra sobejamente esta tese.

O componente inconsciente na atuação psicopática fi ca claro no filme e compõe sua linha mestra, mostrando o processo de abertura de uma defesa psicopática para confrontar e elaborar a Sombra. A vivência de desam paro, de sofrimento, de falta de pai, daquele homem viril, poderoso, agressivo estava completamente inconsciente. Aparentemente cônscio de sua maldade ele foi julgado eticamente responsável tanto pelo estupro como pelo assassinato do casal de jovens. No entanto, no desenrolar do filme, quando ele se aproxima da confissão, dentro da rela ção transferencial com a freira, podemos ver o conteúdo central de sua Sombra: o des amparo e a falta de pai, que o tornaram dependente do cúmplice mais velho e mais e xperiente. Estas defesas vão se abrindo em seu relacionamento com a freira, e é por isso que podemos falar em defesa psicopática. Quando essa defesa psicopática toma co nta da personalidade, temos a personalidade psicopática, o que torna a elaboração da Sombra praticamente impossível. Da mesma forma, conceitua-se a personalidade histérica, a personalidade do alcoólatra ou a personalidade do obeso, quando suas defesas abrangem parte significativa da personalidade. No entanto, na maioria das pessoas, se atentarmos bem, as defesas psicopáticas funcionam, habitualmente, ao lado das defesas neuróticas e da adaptação social normal da personalidade.

Se saímos de carro, passamos em um sinal e vemos uma criança com frio, de noite, a reação ética de uma pessoa seria parar o carro, colocar a criança dentro e perguntar por que ela está ali. Se a criança não te m onde morar, onde dormir, precisa ser alimentada, está adoentada, a reação normal seria r eceber, aconchegar e orientar a criança. Mas, o que nós fazemos? Fechamos o vidro,dizemos não para a esmola que ela pede, engrenamos a primeira e vamos embora para casa, para o trabalho, para nossas atividades. Isso é uma defesa psicopática, porque f azemos isso intencionalmente. Não é o vidro que sobe sozinho. A rejeição à criança que ficou não é inconsciente. Ela é, pelo menos, parcialmente consciente. Existe, portanto, esse componente de deturpação do caráter e da conduta, sobretudo nas grandes cidades , onde convivemos com a miséria e a criminalidade. Em uma cidade menor, no interior, o indivíduo com fome tem muito maior probabilidade de receber um prato de comida em um bar ou a assistência de uma pessoa que o leve para casa e lhe dê um agasalho, pois ger almente conhece a pessoa ou um seu parente. O alcoólatra, o mendigo, em cidades pequenas, são conhecidos. Lembro-me, na minha infância, de um mendigo que ia sempre lá em c asa jantar. A cozinheira ficava revoltada quando ele pedia comida e acrescentava: “Olha, chuchu não!”. Ela ficava indignada e dizia: “Ele vem aqui jantar e ainda escolhe o menu! Que absurdo!”

Eram os tempos passados, quando havia intimidade com a população e a confiança social. As cidades eram menores e mesmo as pessoas desconhecidas não assustavam, porque o índice de criminalidade era muito menor. A cidade grande pulverizou as pessoas, que cada vez menos se conhecem. Aumenta intensamente o medo, que é um dos grandes formadores de defesas e de Sombra. A cidade grande com muito desemprego e miséria tem um nível de Sombra, de ansiedade e de defesa muito maior do que a cidade pequena, e a adaptação social cria um enorme componente de defesa psicopática em toda a população, defesa esta complementar à alta taxa de medo e de criminalidade. Se examinarmos a defesa daquele motorista que foi embora e deixou a criança na rua, veremos que ele já tem medos defensivos na Sombra, aos quais ele não tem mais acesso. Ele não percebe que, na realidade, não está somente indo embora.

Está também fugindo da criança abandonada em meio à miséria e à violência. Certas pessoas ainda percebem o medo, mas à medida que ele se torna defensivo e é encoberto, elas o racionalizam e pensam que estão i ndo embora porque querem. Sua Persona politicamente correta encobre progressiva e defensivamente o abandono desumano da criança de rua, chegando até mesmo a racionalizar que não abriu o vidro e deu esmola para o próprio bem da criança, “para não deformar o seu caráter”. “Que ela cresça na vida, aprendendo a trabalhar para ser remunerada e que não se acostume a receber esmolas na rua, porque pode virar vagabunda!” Esta é a racionalização da Persona defensiva psicopática. No entanto, no fundo de sua Sombra, o motorista não está indo embora com sua moral preservada. Ele está, na realidade, fugindo horrorizado, e, por isso, não pode nem pensar em abrir a janela, qu anto mais em levar a criança para casa, alimentá-la e abrigá-la! Esse medo, na cidade grande, é um componente da Sombra, que a Persona encobre defensivamente, alienando as pessoas na defesa autista. A defesa psicopática é atuada muito freqüe ntemente, desta e de outras maneiras, encobertas pelos aspectos defensivos normopáticos d a sociedade.

Como a defesa psicopática é uma defesa transgressor a e delinqüencial, é assustador, do ponto de vista ético, saber que somos intencionalmente delinqüentes ao praticá-la em nossa conduta diária. Isso choca noss a formação moral, porque fomos educados para separarmos o Bem do Mal, para fazermos apenas o Bem e, portanto, nunca para praticarmos o Mal conscientemente, como fazem os criminosos. Esta parte consciente, intencional, da defesa psicopática, enc oberta pela Persona tornada defensiva, nos permite perceber que a nossa adaptação social está recheada de defesas psicopáticas tanto quanto de defesas neuróticas, que excluem da Consciência muitas partes sombrias da personalidade. É a função éticaque rege a identificação do Mal e que evita a prática da atividade destrutiva, do ataque ao Outro, à natureza e às coisas. A conduta que traz a destruição consciente é uma conduta do Mal e a que traz a construção das relações, em função do cuidado com o Outro, é a conduta do Bem. Mas o que acontece se a função estruturante da ética, que é, normalmente, uma função criativa, também tiver, como todas as funções estruturantes, o seu componente defensivo? O que acontece com a função ética operando defensivamente e veiculando símbolos na Sombra? Ocorre então a prática do Mal, do pecado, d o erro, o problema ético-filosófico-religioso central. Como fica a diferença entre o Bem e o Mal para cada um de nós, quando percebemos a prática do Mal como a atuação da Sombr a, de uma conduta que veio de uma defesa formada dentro da nossa personalidade? Échocante, mas inevitável concluir cientificamente, que o Mal nasce e se desenvolve dentro da vida.

Este tema foi desde sempre debatido por filósofos e teólogos. Ele consta de todas as religiões e instituições sociais e políticas des de o início da civilização. A diferença é que agora ele se apresenta na Psicologia, que passa a perceber cientificamente o Mal como função estruturante defensiva de nossa personalidade, que expressa os símbolos da Sombra. Muitos dirão que isso é uma psicologização da Ética, da Religião e da Filosofia. No entanto, podemos continuar pensando a Ética filosófica, religiosa e até juridicamente e, ao mesmo tempo, introduzir a Psicologia para sua compreensão como função estruturante da Consciência dentro da Ciênci a. Tudo o que é dito na jurisprudência criminal é melhor compreendido quando examinamos a personalidade na sua expressão sombria e defensiva. As pessoas, então, se pergunta rão onde há culpa, pois, se a transgressão é inerente à personalidade, como ficam a responsabilidade e da culpa? Ora, elas ficam exatamente enraizadas dentro da elaboração simbólica como funções estruturantes, o que as tornam também compreensível pela Ciência. É aí que estão arquetipicamente a culpa e a função ética, descritas por Freud através do conceito de superego. A diferença, para a Psicologia Simbólica,é que a função estruturante da ética, como as demais funções estruturantes, pelo fato de ser arquetípica, isto é, genética, e assim participar naturalmente do processo de elaboração simbólica, está na Cultura. O superego, para Freud, é um agente externo imposto pela civilização ao id, que por natureza é perverso polimorfo, incestuoso e delinqüente, porque sempre também parricida. Para a Psicologia Simbólica a culpa não vem só da educação, de um agente externo, de um deus que desce da montanha, porque este deus já é a projeção da nossa elaboração simbólica. Esse deus ex-machina, que vem para nos dizer a diferença entre o Bem e o Mal, como mostrou Jung, é uma imagem do nosso Arquétipo Central, que é projetado como imagem arquetípica (imago Dei) nas religiões. Ele está em nossa personalidade, dentro da natureza do nosso ser-no-mundo, e é o grande regente ético do desenvolvimento da personalidade, o que torna o processo de elaboração simbólica sempre também ético. Esta perspectiva nos ensina que a culpa trazida pelas religiões através da noção de pecado é a projeção da distorção da elaboração simbólica que forma a Sombra. A elaboração simbólica da Sombra traz, no filme, o resgate da capacidade de sentir culpa e arrependimento, expressos pela freira na busca de salvar a alma do delinqüente homicida dentro da tradição católica. Para fazê-lo, ela necessita libertar a função estruturante da ética da sua fixação na Sombra do criminoso, pois só assim poderá fazer emergir a culpa, imprescindível para o arrependimento inerente ao processo de absolvição e reprimida pela psicopatia. Desta maneira, reúnem-se, no filme, a religião e a Psicologia, para a salvação da alma através da elaboração da defesa psicopática antes da extrema-unção, seguida pela morte por injeção letal.

O padre, seu superior, diz à freira que a sua missã o é a conquista do arrependimento para a salvação da alma do criminoso, missão esta até então nunca desempenhada por uma freira, uma mulher, naquele presídio. O padre explica de uma maneira lógica e racional a necessidade do arrependimento na preparação da alma para receber o sacramento da extrema-unção. Ele simplesmente repassa, quase que burocraticamente, esta função para a freira, sem explicar como fazê-lo, sem nada sugerir, deixando totalmente para ela a execução da missão. Mas será que, mesmo que quisesse, ele poderia ensinar como fazê-lo? A abertura de uma defesa tão grave é algo que se possa ensinar?

Fora da compreensão psicológica, o insight religioso cristão na natureza do pecado é visto ou de uma forma somente racional ou de uma forma mística irracional, impossível de explicar. O indivíduo ou se reconhece e se confessa culpado, ou o sacerdote categoriza de forma moralista sua conduta como pecaminosa, ou então, por uma habilidade transferencial milagrosa, o sacerdote consegue que a pessoa se dê conta de que está em pecado e que necessita de salvação. Há casos extraordinários também, como por exemplo Dostoievski que, em seu livro Crime e Castigo deixa Raskolnikov conviver com o crime, o Mal, o pecado, e sua própria desumanidade até iluminar-se pelo amor e redimir-se. Mas agora, fundamentados na Psicologia, vemos que não se trata nem somente de uma decisão de arrependimento do Ego, ne m tampouco de deixarmos para a inspiração religiosa a busca da salvação. Trata-se, sim, através do exame das defesas e da formação da Sombra e de seu conteúdo, de elaborá -los para resgatar a atuação criativa da função ética, submeter o Ego à culpa, dentro da elaboração, e assim, ensejar, pela sincronicidade, o arrependimento e o resgate sacrificial do Mal presente na fixação.

Conta uma lenda do Budismo Zen que um discípulo acompanhara um mestre durante muitos anos tentando descobrir o Zen. Perguntava, estudava, meditava, pensava, voltava a perguntar, e nada. O mestre se esforçava, ele também, mas sem resultado. Um dia, estavam hospedados em uma estalagem durante uma viagem de peregrinação. De madrugada, o mestre levantou-se para urinar e o discípulo foi também. Enquanto urinavam lado a lado, o mestre suspirou e disse: “esta é a única coisa que ninguém pode ensinar o outro como fazer”. Nesse momento, um raio atravessou a mente do discípulo, e ele sentiu o que é o Zen.

Desta maneira, foram se produzindo as condições buscadas pela freira na sua missão. Ela não é uma analista e, por isso, escapa de ficar presa ao conhecimento teórico e impossibilitada de exercer sua sensibilidade mística existencialmente para penetrar na profundidade da alma do criminoso, posto que, para tal, necessita da inteireza da sua personalidade. O caso se presta sobremaneira à anál ise psicológica simbólica porque, ao buscar misticamente o arrependimento necessário par a a absolvição da alma do criminoso, antes de sua morte, e ao não ter conheci mento teórico de como empreender essa busca, ela se lança com a empatia da luz da sua própria alma e entra corajosamente no inferno da maldade para encontrar a alma do criminoso, desgarrada na psicopatia. Ao fazê-lo, ela nos permite ver com grande clareza que o seu caminho foi bem sucedido pelo fato de ela ter elaborado criativamente a defesa psicopática e assim ilustra de forma sensível e profundamente humana o quanto o Mal, mesmo consciente, está fixado na Sombra. Esta tese é confirmada quando a elaboração da defesa revela sua origem na fixação da alma ferida, que uma vez liberta, expõe a profundidade do sofrimento que originou  sua  fixação  e  emerge  das  profundezas  do  inferno  psicopático  através  da liberação  da  culpa  criativa  que  propicia  a  vivência   plena do arrependimento e sua redenção. É importante perceber o quanto não se trata aqui de um arrependimento formal, que racionalmente pede desculpas e promete não repetir a ação, para logo recair e passar a vida novamente pedindo desculpas e fazendo sempre a mesma coisa. Esse tipo de arrependimento é meramente formal, sem profundidade psicodinâmica, se restringe ao nível da Persona, sem atingir a profundidade arquetípica que envolve a totalidade. O arrependimento psicodinâmico profundo   baseia-se no exercício da função estruturante da centroversão, através da qual o Ego da Consciência regride à fixação, confronta o Mal presente na Sombra, percebe e busca a integração dos significados e das conseqüências destrutivas do Mal dentro do processo existencial. É essa integração psicológica, devido à percepção do Mal dentro do seu coração, das suas entranhas, do seu raciocínio, de suas defesas e de sua Sombra que traz a possibilidade do arrependimento e da integração e vivência de totali dade. Estamos diante de uma dialética do Bem e do Mal que envolve o funcionamento da personalidade de tal maneira, que podemos perceber que a integração do Mal, o arrependimento, a vivência do pecado, a confissão e todas essas funções de desenvolvimento  da personalidade correspondem à abertura das defesas através da percepção consciente dos símbolos percebidos e atuados dentro da Sombra. Com isso, podemos rever o filme de modo a acompanhar a trajetória deste indivíduo que atua conscientemente sua Sombra e será conduzido, através da relação com a freira e diante de sua morte, sob imensa pressão psicológica, a abrir a sua personalidade e confrontar a sua Sombra. Na realidade, ele passa existencialmente por um processo psicoterápico muit o intenso, sob a orientação espiritual da freira, e que tem a dupla ameaça: de um lado, a execução final, e de outro, a dialética do Bem e do Mal dentro de sua própria personalidade, em função da sua vivência do Grande Coniunctio do seu Processo de Individuação.

Neste ponto nos perguntamos: por que ele se abriria para o Bem? Por que ele confrontaria o Mal? O que acontece na personalidade com o confronto da Sombra? Por que esse indivíduo, diante da morte, se deixaria encaminhar para a confissão? De início, psicopaticamente, ele já quer ludibriar a freira e, através da confissão, recriar o processo e adiar a execução. É uma manipulação. Aos poucos ele vai tomando consciência, sob grande pressão, de que a morte é inevitável. Então, por que ele iria confrontar a sua vivência sombria, maléfica, sádica, estupradora, ho micida? Por que ele iria confrontar isto na aproximação do fim? O que este confronto traz à personalidade?

Sabemos que a personalidade se desenvolve e se diferencia paulatinamente ao longo da vida como um processo de transformação de Consciência, uma percepção do que é a vida, e que leva a uma inteireza e entrega crescentes à medida que a pessoa tem a oportunidade de, aos poucos, realizar seu Processo de Individuação. Vemos que aqueles que ficam pelo caminho são exatamente os qu e permanecem fixados nas primeiras etapas da vida, sobretudo na infância mai s arcaica, na infância mais tardia e na adolescência. São tais fixações que impedem que est es indivíduos caminhem no seu Processo de Individuação. A vida psíquica, se encarada do ponto de vista da individuação, pode ser descrita como um processo que almeja completar-se dentro da totalidade da vida e que culmina com a morte, significando o encontro da personalidade com a Totalidade do Universo, que é chamado, religiosamente, de “Encontro com Deus”. No entanto, dentro da linguagem psicológica, e não religiosa, há o desenvolvimento destes símbolos e funções estruturantes, a formação progressiva da Consciência e a diferenciação da personalidade que irá, aos poucos, tornar-se um todo. O indivíduo irá se diferenciar e convergirá, gradualmente, em direção ao Todo do Universo. Como se a vida fosse uma diferenciação progressiva para a percepção da Totalidade do Universo, ou como se fosse o próprio Universo criando sua humanização para o reconhecimento de sua grandiosidade. Isto é mostrado claramente no grande livro místico do Velho Testamento, no qual vemos todo este processo ocorrer a Jó.

Há, no filme, a problemática da proximidade da mort e em contraposição a uma imensa fixação da personalidade em componentes de grande sofrimento na infância. Um menino sem pai, crescendo na pobreza com a mãe, den tro de um ambiente de criminalidade de rua, onde se estrutura sua defesa de caráter, o que nos leva a perceber a freqüência da formação da defesa psicopática e da psicopatia na grande cidade. O problema das famílias que se desestruturam, as crianças que são educadas sem a preservação de suas identificações primárias, isto é, um casal parental, e que sofrem grandes fixações em suas personalidades, o que as predispõe, mais tarde, à conduta delinqüencial geralmente iniciada na infância.

Isto nos traz um grande ensinamento sobre o momento que atravessamos nas grandes cidades brasileiras, por exemplo. Quando se reúnem pessoas para protestar contra a onda de criminalidade, geralmente pede-se mais repressão policial e, no entanto, buscar criminosos que vão atuar sua delinqüência, e stamos falando em um estágio de repressão que é o estágio em que lidamos com a crim inalidade já atuante na cidade, mas, psicopatia, de delinqüência. Ali se constitui a def ormação do caráter, de maneira, não raro, irreversível. Muito mais fácil do que ter uma polícia que anda de noite armada para prender criminosos é retirar as crianças da rua e estabelecer um sistema social subvencionado por um Governo que crie estas crianças abandonadas, com uma estrutura familiar de forma a dar a elas a oportunidade de um crescimento saudável. Isto é muito mais lógico e evidente. Ao vermos, no filme, a personalidade do criminoso se formando, é evidente que é muito mais fácil prevenir, lutando c ontra o abandono, do que depois frear, adotando a repressão sobre a personalidade. Isto é óbvio, porque a criança ainda apresenta a sua carência sem a defesa estruturada. Ela ainda não formou a sua Sombra pela defesa psicopática. Ela diz que está com fome, com frio, querendo um lar, alguém que goste dela, que cuide dela, não uma FEBEM onde será encarcerada com outros mais velhos, experimentados no crime, que vão aperfeiçoar sua defesa psicopática. É preciso recolher a criança abandonada, automaticamente, na medida em que ela é abandonada e lhe dar uma estrutura familiar.

Vemos, no filme, a formação da personalidade de um criminoso que, em meio ao abandono e à criminalidade, começa, desde cedo, a atuar essa vivência de revolta e de agressividade, claramente relacionada com sua vivên cia de desamparo, que é dissociada, negada, e que passa a ser atuada criminosamente de forma defensiva. Ele começa a agredir, a atacar e a afirmar-se pintando seu corpo, tatuando-se com símbolos autoritários, inclusive nazistas. O seu corpo é che io de tatuagens de suásticas, fazendo apologia de um governo que, depois do crime, ele irá homenagear na televisão, fato que lhe custará toda e qualquer chance de ser indultado pelo governador. Ele se confessa um adorador de Hitler, um anti-semita, a favor de todas as atrocidades nazistas e com isso complica ainda mais a sua situação. Estas suásticas que ele tem no corpo, símbolos do nazismo, absolutamente autoritário, prepotente e ge nocida, são, para ele, símbolos de força, porém força defensiva, que esconde a fraquez. Não é a verdadeira força. Em seu corpo ele já mostra, através das tatuagens nazistas , que a sua noção de força, de pai, de protetor, de homem forte está se formando de maneir a completamente defensiva, ocultando no cerne de sua Sombra o menino abandonado e sua real necessidade de um pai carinhoso, de um pai companheiro, de uma família, na qual ele tivesse suas identificações primárias, seu complexo parental cri ativo estruturante e depois sua adolescência, assegurados por uma interação com uma estrutura familiar. Ele não tem a matriz e, sendo assim, sua personalidade se organiza de forma delinqüencial e seu caráter de forma defensiva.

Vemos desde o começo que não se trata simplesmente de uma deformação de caráter, do indivíduo que nasceu assim, ou que deve ria fazer uma coisa e, por maldade, faz outra. Na realidade há uma estruturação defensi va que atua a Sombra conscientemente, conteúdos da sua personalidade que não são acessíveis à reflexão. Há intenção em sua vivência de perversão e de ódio, de injustiça, de auto-afirmação masculina. Ele afirma e atua conscientemente, mas se trata de uma Consciência apenas parcial. Como o conteúdo reflexivo da sua Sombra es tá inconsciente, ele tem uma conduta consciente cada vez mais imoral, delinqüenc ial e sem limites, que pode ser remetida à formação defensiva de sua personalidade que atua na Sombra aquilo que ele não pode elaborar de maneira consciente.

Acredito que isso seja muito importante para revermos o dinamismo psicopático, para não acharmos que o distúrbio do caráter é simp lesmente uma mutilação, um distúrbio do crescimento de algo que devia estar al i e que faltou, como se você não tivesse o dedo de uma mão ou um braço, por exemplo, ou que você tivesse nascido sem e precisasse ser operado para colocar uma prótese. Não funciona assim. A defesa psicopática, dentro do dinamismo psicopático e da p roblemática do caráter, é uma defesa atuada para esconder símbolos que estão na Sombra e o filme ilustra isso, do início ao fim, de maneira coerente e exuberante. Vemos que a freira quer o tempo todo atravessar a defesa e chegar ao conteúdo da Sombra. Ela quer a abertura da alma, a vivência de salvação, mas para isso tem que atravessar a resistência e a reação de uma defesa muito violenta, sob a forma de uma defesa sádica, cínica, dentro da estratégia psicopática que ele demonstra desde seu primeiro encontro com ela. É importante historiarmos esse episódio.

Primeiro ele a agradece por ter vindo. Mas, logo depois, diz que ele a associa com sua ex-mulher que o entregou à polícia e quase lhe arranca a carta na qual pedira ajuda. Ele a associa com a mulher que odeia. Logo a seguir, começa a conversar com ela e a fazer perguntas, mas corta sua participação, dizendo que ela está perguntando demais. Depois a ridiculariza por cuidar dos pobres. Por que? Porque ela veio até ali e já vai em direção à sua Sombra de menino pobre, carente, de menino de rua, menino da praça da Sé, oculto pela defesa psicopática. Ele, por um lad o, precisa dela, está sozinho, vai morrer, está dissociado e sem amor. Por outro lado, resiste, se defende pela compulsão de repetição, com cinismo, sadismo, rejeição e prepotência. Isso tudo ele atua transferencialmente. O olhar ao final do primeiro encontro é de um cinismo e de uma dureza muito intensos. Podemos ver claramente o poder da defesa.

Eu quero ilustrar para vocês, com esse filme, como a defesa psicopática se forma e atua na personalidade delinqüencial e como ela pode ser elaborada, da mesma maneira como fazemos correntemente com as defesas neuróticas, no consultório. A defesa psicopática, no entanto, é de elaboração muito mais difícil, e daí a grande façanha que a freira conseguiu realizar. É importante levar em conta a elaboração dentro da sua fé e na contagem regressiva da pena de morte.

Neste ponto há uma associação interessante entre re ligião e psicoterapia. Infelizmente, quando o Cristianismo foi se institucionalizando e se tornando patriarcal e repressivo, a confissão começa a se banalizar e a perder sua força como o sacramento do encontro com Deus. Hoje, o indivíduo tem simplesmente que nomear o ato errado, o pecado, depois rezar uma série de Padres-Nossos e Ave-Marias, e receber a absolvição. Parece, às vezes, que até mesmo os padres perderam a ligação mística com esse sacramento. Se o pecador tem naturalmente esse contato e vivencia a culpa, o arrependimento e o perdão, muito que bem; mas, se n ão tem esse dom, o sacerdote dificilmente sabe reconhecer isso e invocá-lo. No e ntanto, essa atitude é uma degeneração do ritual da confissão, que se originou no encontro com a Sombra diante da Totalidade. Na confissão, o indivíduo deveria confr ontar sua Sombra para ter um encontro com Deus. Esta, me parece, era a origem do ritual, a origem da confissão do pecado. Na psicoterapia sabemos a importância da vivência do e ncontro com a Sombra, pois nada acontece se permanecemos no falar dela sem emoção. Nesse caso, as pessoas racionalizam, interpretam, falam, mas permanecem nas palavras, não vivenciam a Sombra e não mudam. A mudança ocorre com o confronto vivo da Sombra. No ritual cristão, era o confronto do pecado, e é isso que a freira tenta fazer. Mas a defesa sádica se interpõe na relação deles, que passa a ser uma r elação transferencial. Ela tenta romper a defesa e entrar na Sombra para abrir a alma, ou seja, as emoções da personalidade, mas ele bloqueia a intimização. No entanto, ele tem poucos dias de sobrevida, o que energiza muito a relação. A pressã o psicológica para ela salvá-lo e ele salvar-se é enorme. Se o Processo de Individuação é a realização do potencial da personalidade durante toda a vida, eticamente o Processo de Individuação precisa da inteireza, da completude, sem a qual ele se frustra. Se a morte se aproxima, o Processo de Individuação, por si só, aumenta a pressão da realização do potencial do Arquétipo Central. Nós vemos isso em doentes terminais, mesmo sendo crianças e adolescentes. De repente, essas crianças começam a dizer coisas que representam um estado de desenvolvimento muito mais avançado do que a sua idade, porque a proximidade da morte arquetipicamente influencia o processo. O processo se acelera intensamente para realizar e ultimar seu potencial. É exatamente issoque acontece com o criminoso. Aos poucos, a pressão da morte que se aproxima e a pres são da freira, que quer o encontro com sua alma e a integração da sua personalidade, começam a empurrar a Sombra em direção à Consciência; e as defesas dele, que de in ício crescem e resistem, paulatinamente vão se abrindo e permeando a relação com a Sombra e a integração da personalidade. Os Arquétipos da Anima, da Alteridade e do Coniunctio ativam a aproximação e a dialética do Bem e do Mal como tese e antítese, hegelianamente buscando uma nova síntese.

Consideremos agora a segunda parte do filme, quando a freira vai se encontrar com o pai do jovem assassinado e depois com o padre. Podemos ver como o autor e o diretor expressam através da personalidade do pai o imenso sofrimento originado nos símbolos que estão reprimidos na Sombra do assassin o. O sofrimento reprimido no assassino e vivenciado pelas duas famílias fará a i ntermediação entre o assassino e as pessoas ligadas às vítimas, desempenhando desta forma o papel da interação entre a Sombra mais as defesas, e a parte consciente, que vivencia os símbolos abertamente e que sofre, real e profundamente, as dores da vida. De um lado, os pais que perderam os filhos. Do outro, ele, com sua defesa sádica, imper meável ao sofrimento, sem se dar conta da dor que causou. A freira intermedeia esta relação e mostra para o espectador, exatamente onde está o sofrimento na Sombra, o cini smo dele, a defesa que oculta a dor verdadeira, e também o sofrimento na Consciência, q ue é vivido intensamente pelas pessoas próximas às vitimas e que aos poucos começaa romper as defesas e a aflorar na Consciência dele.

Entre a personalidade do homicida e a personalidade das pessoas que sofreram o ataque e a perda, está a freira, intermediando esse s dois lados da Psique humana através das diferentes personalidades. É profundamente pedagógico para a teoria psicológica a freira realizar essa função terapêutica porque, assim fazendo, ela demonstra como a disfunção do caráter é uma defesa sujeita à elaboração e à cura. Em linguagem religiosa, para ela, isso significa a salvação, ou seja, ele poderá receber o sacramento da extrema-unção. É a fala que o padre expressa em termos religiosos tradicionais e que as pessoas ouvem e acham que é simplesmente um ritual, mas que tem por trás a possibilidade da transformação psicológica pela sincronicidade coordenada pelo Arquétipo da Alteridade, a vivência de transformação da personalidade, que inclui a elaboração da culpa, do arrependimento, do perdão e a integração da Sombra na busca da salvação.

Isso é muito antigo e pode ser intensamente vivenciado no Cristianismo, mas passa despercebido quando se percebem apenas as palavras do ritual e perde-se a conexão com o que ocorre dentro da Psique, diferente de quando a pessoa pratica a Religião de forma viva, intensa, marcada pela sua f orça criadora, como era em seu início. Com o tempo, esse ritual poderoso caiu em padrões d e receitas, sermões que ficam na Persona e fogem ao que está acontecendo profundamente dentro da Psique. Quando vivenciamos o sacramento da confissão dentro da elaboração dos símbolos fixados e expressos por defesas na Sombra, percebemos que a psicoterapia junguiana se inspira profundamente no Mito Cristão, no que ele tem de ma is arcaico e existencial.

A partir da percepção da psicopatia como defesa é possível compreendermos essa noção de que a Consciência, mesmo fazendo algo dent ro do Mal intencionalmente, não tem a capacidade de reflexão plena do que está faze ndo. Esta é a vivência da defesa psicopática que presenciamos no filme, quando ele m ata e estupra através de uma defesa delinqüencial, homicida e sádica, sem saber o que o leva a fazê-lo, sem estar em contato com a sua fonte de carência, de necessidade de amor , exatamente daquilo que ele destrói, pois destrói um casal de jovens que estão se amando. Este casal amoroso representa o que ele mais necessitou na estruturação da sua personalidade e é o que ele vai atacar e destruir, por um lado de forma intencional, e por outro inteiramente inconsciente. Vemos, então, a conduta do Mal e a di ferença entre o Bem e o Mal dentro da personalidade no funcionamento da Sombra, na ignorância do significado do Mal pela fixação da função estruturante da ética, que a torna incapaz de se dar conta do significado da Sombra.

Caminhamos agora para a vivência de confissão. Por um lado, a defesa psicopática encontra o problema da verdade, que o l eva a começar a ceder, a permitir o confronto e a assumir a responsabilidade pela morte do casal de jovens. Ele assume o homicídio, mas esse não é o fator central na sua transformação. O cerne do problema é, para ele, entender por que ele seguiu o criminoso mais velho, admitir que estava amedrontado, acovardado, admirava a força do mais velho e por isso o seguiu. Era uma relação com um pai forte para ele que, apesar de adulto, sentia-se um menino amedrontado e tão fraco dentro da relação que tinha medo de dizer ao outro, mais velho, que ele queria voltar, que não queria prosseguir. U m medo de criança, medo infantil, covarde e completamente escondido aparece e nos permite ver, ao mesmo tempo, a formação da defesa e a responsabilidade, a culpa, o pecado e o crime. Não se trata somente de admitir o erro, o crime, o que para ele, na primeira etapa, já foi muito. O mais relevante foi encontrar o porque do crime. É o problema da verdade, a que a freira se refere quando cita S. João nos Evangelhos: “A verda de te libertará…”. Ele, psicopaticamente, se aproveita literalizando a confissão e falando num detetor de mentiras. Ela contorna essa defesa manipuladora e diz: “O problema é de você morrer com dignidade”. Morrer com dignidade é perceber o porque dentro de si, ou seja, encontrar e identificar a fixação na Sombra que motivou sua defesa e conduta. Este é o encontro com a verdade. Aí sim há a possibilidade d o encontro com a Totalidade, que leva à redenção. Não é só uma questão de arrependimento em função de admitir o erro, pedir desculpas e prometer não fazer mais. A transf ormação ética da personalidade no encontro com a Sombra e com o Mal está ligada à des coberta daquele símbolo da Sombra que ficou fixado no drama do desenvolvimento da personalidade daquela criança ferida, abandonada, sem pai, do menino carente que passou a usar a força do criminoso, a agressão à sociedade, o preconceito racial e até mesmo o nazismo, em função da sua fraqueza e não da sua força. É neste ponto que há a virada e o encontro com a Sombra e a verdade profunda que leva ao resgate da integridade do Ser.

A formação da personalidade delinqüencial não ocorre nos adultos que estão matando, mas sim nas crianças que estão, agora, dormindo na praça da Sé, cheirando cola de sapateiro e se prostituindo. É lá que está a formação da delinqüência. O governo tem que ir até lá. O problema de aparelhar a polícia, nomear mais policiais, comprar mais carros, é um problema absolutamente secundário diante da formação calamitosa da patologia de caráter delinqüencial das crianças de rua, que estão abandonadas neste momento pelas ruas e pelas favelas da cidade. Nós vamos sair daqui, eles vão passar nos faróis, vão pedir e nós vamos fechar os vidros e continuar com nossa defesa psicopática que nos permite a adaptação social.

Vejamos agora a última cena, quando ele, aberto, en contra-se com o Mal que realizou. Ele encontra-se com a Sombra e depara-se com o significado do sofrimento que causou aos pais dos jovens. É uma sincronicidade que o nome da moça assassinada e estuprada é Hope, que quer dizer Esperança.

A abertura da Sombra e o encontro ético na personalidade faz-se no nível psicodinâmico. É uma ocorrência intrapsíquica que a Filosofia, o Direito e a Religião descrevem, mas sem a devida compreensão da alterida de, da sincronicidade e do que acontece dentro da personalidade para formar a Consciência através da elaboração simbólica. Quando percebemos isso, vemos que o problema de lidar com a recuperação do criminoso não é um problema da conduta, mas um problema de reorganização psicológica do indivíduo. Pode ser que, em muitos casos, não se consiga essa transformação, mas, seu conhecimento teórico é de fundamental importância. O cidadão que trabalha com Direitos Humanos, na polícia, ou que é juiz de menores, tem que ter esse conhecimento, porque para os meninos delinqüen tes, ele é a condição que permite trabalhar inteligentemente com a causa e não simplesmente com a mentalidade estreita que reprime o sintoma. Estas crianças necessitam da reestruturação da personalidade, de uma família onde eles possam prevenir e elaborar as fixações de sua Sombra no nível da família estruturada, do casal parental. É isso que,teoricamente, o menino de rua precisa, ao invés de um simples cerceamento pelo encarceramento. Esse deve ser o referencial teórico, mesmo que a sociedade só possa desempenhá-lo de maneira relativa e precária.

Com isso, espero ter chegado à minha intenção inicial de mostrar que a defesa psicopática, delinqüencial ou distúrbio do caráter é tão psicodinâmica quanto a neurose e que precisa ser trabalhada no nível de sua formação, porque, apesar de a conduta e a intenção da pessoa que comete o ato delinqüencial parecerem claras, nem por isso são totalmente conscientes. Sua raiz está, em realidade , na Sombra, oculta, inconsciente e precisa ser desvendada e retirada para transformar a patologia delinqüencial e psicopática que acompanha as disfunções morais do caráter.

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É médico psiquiatra e analista junguiano. Nascido em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina. Especializou-se em Psiquiatria e Psicanálise, e, em 1965, graduou-se pelo Instituto Jung, em Zurique. Retornou ao Brasil e fundou, com outros colegas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, que já formou até 2005 noventa analistas, e a Sociedade Moitará, para o estudo de símbolos da cultura brasileira, mais tarde incorporada à SBPA. Foi presidente, diretor de ensino e há muitos anos é supervisor e coordenador de seminários na SBPA. Além de ministrar inúmeros cursos e palestras no Brasil e no exterior, ensinando e divulgando a obra de Jung, Carlos Byington desenvolveu conceitos próprios, que originaram a Psicologia Simbólica Junguiana.

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