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A Identidade Multicultural Latino-Americana

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A IDENTIDADE MULTICULTURAL LATINO-AMERICANA

Uma Introdução à Antropologia Simbólica

Exmo. Sr. Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Uruguai, Dr. Juan José Mendizabal, Exma. Decana da Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade Católica do Uruguai, Prof. Psic. Liliana Daset. Srs. Presidentes do Comitê Organizador deste Congresso. Drs. Pablo Gelsi e Dartiu Xavier da Silveira, prezados colegas, senhoras e senhores.

  • uma honra atender ao convite para dar a palestra inaugural deste congresso. Considero este convite uma homenagem à colaboração da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica e da Fundação Carl Gustav Jung do Uruguai, iniciada pelo Prof. Dr. Mario Eugenio Saiz e por mim há dezessete anos.

Quando nos reunimos falando Espanhol e Português e, no mais das vezes, “portunhol” como neste encontro, é impossível deixar de perceber o Eros presente em nossa confraternização. Este Eros vem da expressividade do Arquétipo Matriarcal, o arquétipo da sensualidade, que nos permite uma relação com o Arquétipo Patriarcal, o arquétipo da organização, diferente daquela que existe no primeiro mundo. Apesar de muito ferido pela dizimação das culturas indígenas e pela escravidão das culturas negras, o Arquétipo Matriarcal rege, exuberantemente, nossas vivências, e se expressa, entre outras vias, pela miscigenação que reúne nossas diferentes etnias e nossas ricas tradições populares. Por outro lado, não devemos negar o complexo de inferioridade que nos une relativamente ao “primeiro mundo”. Rotulados de “terceiro mundo” junto com as nações da África e da Ásia, nós, latino-americanos, nos sentimos estigmatizados, alvo de preconceitos. Também isso nos une através de um componente afetivo que nos conforta, mas nos mantém complexados.

O problema central de nossa identidade multicultural latino-americano parece-me ser nossa ambigüidade e nossa resistência em assumi-la para, então, poder ultrapassá-la. Somos, ao mesmo tempo, o descobridor e o descoberto, o conquistador e o conquistado, o violentador e o violentado. Oscilamos defensivamente, atuando ora num pólo, ora no outro. Este núcleo de fixação ambígua não assumida em nossa Sombra cultural nos impulsiona em direção ao sado-masoquismo. No pólo masoquista, nos sentimos inferiores e prontos a acolher e imitar modismos sociais, políticos, religiosos, ideológicos, científicos, artísticos, estéticos e comerciais do primeiro mundo. Recentemente, a economia brasileira se abriu para a globalização, ela o fez sem nenhuma proteção ao seu parque industrial, algo impensável para os países do primeiro mundo. O resultado foi um grande enfraquecimento do nosso setor industrial às custas do crescimento da proporção internacional. No pólo sádico, odiamos os estrangeiros do primeiro mundo e os responsabilizamos por nossa miséria, genocídio e exploração desde o descobrimento encobrindo nossa Sombra de elitismo parasitário da miséria, da corrupção, da ignorância e da empáfia. No último incêndio que ameaçou a Amazônia em 1998, o governo brasileiro, em função da “proteção de nossa soberania”, não só não pediu, como ainda se fechou para o oferecimento de ajuda internacional, sobretudo das brigadas aéreas canadenses especializadas em incêndios florestais.

A miscigenação do espanhol e do português com o índio e com o negro criou uma característica de “futuridade” e de receptividade a todas as nações. Enquanto as nações do “primeiro mundo” se fecham cada vez mais para os outros povos, em função de não partilharem o seu bem estar sócio-econômico, nós nos abrimos para o mundo. A presença atuante do Arquétipo Matriarcal na Península Ibérica, característica também da latinidade, favoreceu seu encontro miscigenante com as culturas índias e negras e, hoje,

  • um componente inseparável do Eros Latino-Americano que permeia nossa identidade multicultural. Esta psicodinâmica é muito diferente daquela do Arquétipo Matriarcal reprimido que caracterizou o desenvolvimento da Inglaterra e que se propagou na formação da cultura norte-americana.

No ano passado, enquanto caminhava de manhã pela Avenida Kukulcán, ao longo do mar de Cancún, comecei esta palestra. Olhando o céu mexicano, percebi dois lindos arco-íris que se abraçavam num coniunctio de poesia.

“O orixá Oxumaré é um piton que, levantando-se das profundezas da terra, atinge o firmamento, atravessa-o de um lado a outro e volta a penetrar na terra. Orixá do arco-íris e da riqueza, ele é também considerado um grande adivinho (Babalawo). Permanece no outro mundo (Orun) e vem a este mundo (Aié) de três em três anos. É, então, que ele estende sua energia (Axé) sobre o mundo, nas primeiras horas da manhã, quando o sol se levanta, e a energia (Axé) se expande ativa e poderosa. Representam-no duas serpentes de ferro, signo do preto” (Elbein dos Santos, 1977).

  • noite, ao admirar a lua cheia, vi suas crateras nas quais se projetou lendariamente a imagem de São Jorge, padroeiro da Inglaterra, montado a cavalo, enterrando sua lança na garganta de um dragão.

A interação do Arquétipo Matriarcal e do Arquétipo Patriarcal varia grandemente na mitologia, expressando a dificuldade que as culturas têm para integrá-los num todo. Na mitologia Assírio-Babilônica, por exemplo, quatro mil anos antes da lenda inglesa, outro grande império anunciava que o Universo havia sido formado pela ação do herói Marduk ao despedaçar o coração do dragão-serpente Tiamat.

No Velho Testamento, o símbolo da serpente traz uma sabedoria transformadora pela qual foi amaldiçoada: “Mas a serpente mais sagaz que todos os animais selvagens que Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedora do Bem e do Mal… Então o Senhor disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos: rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este lhe ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênese 3:1-15).

No dia seguinte, vi, em Chichén-Itzá, representações em profusão da serpente cascavel emplumada Kukulkán para qual os Maias-Toltecas ofereciam abundantes sacrifícios humanos. A serpente emplumada Quetzalcoatl foi um dos principais deuses do Panteon Asteca, protetor dos artesãos e sacerdotes, inventor do calendário e da escrita. Era identificada com Vênus, símbolo da morte e da ressurreição, representada, também, por um homem barbado, um dos motivos pelos quais Montezuma II cometeu o erro trágico de confundi-lo com Cortés.

O cerne da ambigüidade de nossa Sombra Cultural abriga a problemática da exuberância do dinamismo matriarcal nas culturas índias e negras e sua intensa repressão na cultura ibérica e mais intensa ainda nos países do “primeiro mundo”. Para elaborarmos esta ambigüidade patológica da Sombra Latino-Americana, necessitamos entrar no mundo dos símbolos e funções estruturantes, dos arquétipos, da Psicologia e da Antropologia e recorrer ao Arquétipo da Alteridade – arquétipo da dialética, da ciência e da democracia e grande coordenador das polaridades, inclusive da polaridade Matriarcal x Patriarcal, que é a polaridade básica da psique.

A busca de caracterização da Identidade Multicultural Latino-Americana requer uma perspectiva epistemológica comum à Psicologia e à Antropologia. Infelizmente, a tradição científica, ao se separar da religião e passar a dirigir a universidade no final do século dezoito, centralizou a verdade em torno da objetividade e relegou a subjetividade ao plano da fé irracional, dogmática e do erro. Esta separação dissociou radicalmente a subjetividade da objetividade, e dissociou também as polaridades interno-externo, mente-corpo, ciências humanas-ciências da natureza, indivíduo-coletividade e Psicologia – Antropologia (Byington, 1996, cap.2).

A descrição da libido como energia psíquica e a conceituação do Arquétipo por Jung reuniram Ciência e Religião ao percebê-las arquetípicamente enraizadas na Psique. No entanto, como descreverei melhor adiante, ao privilegiar o Processo de Individuação em detrimento do desenvolvimento da dimensão coletiva, o referencial Junguiano ficou impossibilitado de descrever de forma igualitária e paralela a polaridade indivíduo-sociedade, bem como de embasar arquetípicamente em uma dimensão comum as polaridades interno-externo, Ciências Humanas-Ciências da Natureza e Psicologia-Antropologia.

Por intermédio de uma epistemologia que conceituo como Ciência Simbólica, busco ultrapassar esta dissociação sujeito-objeto, interno-externo e abranger todas as polaridades dentro dos conceitos de Símbolo e Função Estruturante. Na conceituação da dimensão simbólica, todas as vivências humanas podem ser relacionadas com o todo individual, cultural, planetário e cósmico e nesse sentido são símbolos do Self. As polaridades dos símbolos, inclusive a polaridade Ego-Outro, estão presentes em cada vivência. A natureza à nossa volta possui inúmeros significados subjetivos e objetivos e, por isso, é tão simbólica quanto nossas emoções (Byington, 1988). Para a Psicologia Simbólica Junguiana Junguiana, as características físico-químicas do nosso corpo, da natureza e do universo são atributos simbólicos objetivos que estão dentro de cada vivência, junto com nossas reações emocionais. É a elaboração simbólica que as separa ao formar a identidade do Ego e do Outro na consciência. Nesta palestra, pretendo empregar esta epistemologia para conceituar a Antropologia Simbólica a partir da Psicologia Simbólica Junguiana, ambas emolduradas pelos parâmetros da Ciência Simbólica (Saiz Laureiro, 1989).

A Psicologia Simbólica Junguiana tem como base o conceito de arquétipo formulado pela Psicologia Analítica e o conceito de defesa formulado pela Psicanálise. Quando a elaboração simbólica é criativa, ela forma a consciência e, quando defensiva, ela forma as fixações descritas por Freud, que Jung denominou Sombra. Estas fixações dão origem à patologia individual e cultural. Há cinco séculos a América Latina elabora criativamente os símbolos do descobrimento para estruturar a identidade da sociedade multi-étnica de um “povo novo” (Ribeiro, 1975). Durante este processo histórico, formaram-se muitas fixações, duas das quais são monstruosas: o genocídio indígena e a escravatura. Existe uma outra grande fixação herdeira destas duas. Trata-se da enorme diferença entre o bem estar econômico das elites e a miséria do povo. Esta terceira fixação dificulta a elaboração e a ultrapassagem das outras duas, pois as elites coincidem em grande parte com a etnia branca de origem européia, de dominância patriarcal, e o povo miserável, de um modo geral, coincide com os índios sobreviventes, os negros, os mestiços, os pardos e mulatos, que expressam a cultura popular com grande pujança matriarcal. Pobreza, pouca escolaridade, desestruturação familiar, população carcerária e cultura popular formam um conjunto e luxo, alienação nababesca, ostentação, insensibilidade desumana, egoísmo e culto do status e do refinamento cultural europeu formam outro. Um exemplo ilustrativo é a ausência das etnias e classes menos favorecidas em nosso Encontro, sem dúvida alguma, devido ao fator econômico.

A dissociação sujeito-objeto, que levou a ciência moderna a identificar a verdade com o objetivo e a superstição e o erro com o subjetivo, mantém os economistas que se pautam pela liberdade do mercado freqüentemente aprisionados em números e planos objetivos e insensíveis à subjetividade que abriga o sofrimento e a dor dos menos favorecidos. A tão falada “vontade política” de combater a miséria é, essencialmente, a abertura para a subjetividade, cujo desespero muitas vezes não pode esperar os resultados do macro planejamento objetivo que tem o viés de confundir medidas paliativas de urgência com paternalismo e demagogia. Acontece que essa vontade política esbarra na identidade das tradições das elites e dos pobres oriunda da assimetria da polaridade colonizador-colonizado e escravizador-escravizado. A filiação freqüente das reivindicações sociais à teoria da luta de classes, que ao fazer do ódio instrumento da transformação, muito contribui para manter essa dissociação e essa dicotomia. As elites odiadas se sentem justificadas no seu isolamento blindado, cada vez mais literal ao adotarem a técnica de blindagem de seus Mercedes e BMW. Por sua vez, as classes menos favorecidas sentem-se condenadas à inferioridade e à pobreza por não poderem conquistar o poder pelo ódio e pela luta armada que é a conseqüência natural da transformação social pela teoria da luta de classes. Em ambos os casos, não se transforma a identidade patriarcal defensiva e arcaica colonizador-colonizado.

Numa perspectiva mais ampla, a Psicologia e a Antropologia Simbólica incluem a perspectiva ontológica de Heidegger (1929), onde qualquer vivência humana é inseparável do mundo (Dasein ist in-der-Welt sein), junto à perspectiva evolucionista de Teilhard de Chardin (1945), na qual a evolução da matéria gerou o Sistema Solar, a Terra e o início da vida, seguido pela biologização do planeta, pela formação do sistema nervoso, do cérebro e da consciência. Desta maneira, a Psicologia e a Antropologia Simbólica estudam a Psique como sinônimo de Deus e do Universo e compreendem o desenvolvimento individual e coletivo psicológico como o Processo de Humanização do Cosmos.

O VIÉS INDIVIDUALISTA DA PSICOLOGIA

A perspectiva psicodinâmica que caracteriza a Psicologia moderna foi matizada pelo viés da unilateralidade individualista e subjetiva, tanto na Psicanálise quanto na Psicologia Analítica. Não é por acaso que Narciso foi escolhido como patrocinador do desenvolvimento da personalidade através da teoria do narcisismo primário e secundário da Psicanálise e sua parceira Eco foi relegada ao ostracismo (Montellano, 1996). Este fato configura de maneira relevante a prevalência do Ego e do interno, em detrimento da importância do Outro e do externo na tradição da chamada Psicologia do Inconsciente ou Psicologia Profunda.

A Psicanálise se ateve ao referencial personalista no desenvolvimento do Ego, seja no Complexo de Édipo formulado por Freud como o centro de desenvolvimento da personalidade, seja na díade boca-seio ou criança-mãe descrita por Melanie Klein. A tentativa de Freud de interagir indivíduo-grupo através da herança individual do Complexo de Édipo e da culpa pelo assassinato do pai-chefe da horda primitiva permaneceu uma fantasia projetada (Freud, 1914). Sua comprovação só poderia ser aceita em função da Teoria Lamarquista da herança dos caracteres adquiridos, que não encontrou subsídios na Genética moderna.

Ao formular o conceito de arquétipo como parte do inconsciente coletivo, Jung ultrapassou num primeiro momento o redutivismo personalista da Psicanálise e abriu a Psicologia para a dimensão transpessoal. No entanto, ao descrever o Processo de Individuação como uma separação do coletivo coordenado pelos Arquétipos da Anima e do Animus na segunda metade da vida, Jung favoreceu e criou um redutivismo do desenvolvimento psicológico à dimensão individual, em detrimento da dimensão coletiva. Não quero com isto dizer que, durante o Processo de Individuação, não ocorra uma grande diferenciação da individualidade coordenada pelos Arquétipos da Anima e do Animus. O que quero é enfatizar o fato de que, ao reduzir os Arquétipos da Anima e do Animus exclusivamente ao Processo de Individuação, Jung não pode perceber nem ensinar aos seus seguidores que estes arquétipos, se reconhecidos em toda sua extensão, são os mesmos arquétipos que coordenam o desenvolvimento da dimensão coletiva em direção à democracia. Ao não perceber que os Arquétipos da Anima e do Animus coordenam o desenvolvimento psicológico igualmente na dimensão individual e coletiva (Byington, 1983), Jung não pode evitar o redutivismo da dimensão psicológica ao viés individualista. Sua ruptura com Freud se fizera em boa parte por não concordar com a redução da dimensão psíquica à sexualidade (Jung, 1912). De fato, através da perspectiva arquetípica, desde a publicação de Símbolos e Transformações em 1912, a Psicologia pôde estudar os símbolos dos mitos, das religiões, crenças, costumes, obras de arte e vivências em geral em função do desenvolvimento psicológico em todas as dimensões humanas e não somente na sexualidade como propusera Freud. No entanto, ao reduzir os Arquétipos da Anima e do Animus e a meta do desenvolvimento psicológico ao Processo de Individuação, Jung criou um viés em sua obra que impossibilitou o estudo arquetípico do desenvolvimento sócio-político. Em função dessa unilateralidade teórica, Jung desenvolveu em sua obra um preconceito contra a dimensão coletiva, que afetou seus seguidores e limitou muito a compreensão arquetípica do significado coletivo de religiões como o Budismo e o Cristianismo e sua influência no Socialismo e na construção das ciências modernas e da democracia (Byington, 1983).

O preconceito a favor da individualidade em detrimento da coletividade aparece em inúmeras passagens na obra de Jung. Já na obra “Relação do Ego com o Inconsciente” (Jung, 1916-par.240) ele escreve: “Por conseguinte, toda pessoa é, de certa forma inconscientemente uma pessoa pior quando está em sociedade do que quando está só, pois na medida em que é levada pelo coletivo e privada de sua responsabilidade existencial, qualquer grupo numeroso composto de pessoas muito admiráveis passa a ter a moral e a inteligência de um animal desajeitado, estúpido e violento. Quanto maior a organização, mais inevitável é a sua imoralidade e estupidez cega (Senatus bestia, senatores boni viri). Ao valorizar as qualidades coletivas nos seus representantes individuais, a sociedade premia a mediocridade em tudo o que se acomoda de forma fácil e irresponsável” (Jung 1916, par.240). Vinte e um anos depois, nas Terry Lectures, vemos o mesmo tipo de viés contra o coletivo: “Existe muita justificativa para que o ser humano tema as forças impessoais que rondam o seu inconsciente. Nós somos felizmente inconscientes dessas forças porque elas nunca ou quase nunca aparecem em nossas relações pessoais ou em circunstâncias individuais. Mas se as pessoas se reúnem e formam uma multidão, os dinamismos do homem coletivo surgem com as feras e demônios adormecidos em cada pessoa até que ele entre na multidão. O homem na massa desce inconscientemente a um grau moral e intelectual inferior, ou seja, desce àquele grau que sempre lá esteve, abaixo do limiar da consciência, pronto para ser atuado, logo que ativado pela formação da massa” (Jung, 1937).

Não se trata de diminuir a importância da patologia social e sim, de ressaltar o viés do pensamento de Jung que a fez sobressair-se diante da patologia individual. A crueldade dos crimes praticado por indivíduos só é menor que a das massas em quantidade, mas não em gravidade. Basta consultarmos os anais policiais de crimes hediondos cometidos por indivíduos isolados para invalidarmos a tese de que as forças arquetípicas do inconsciente “nunca ou quase nunca aparecem em nossas relações pessoais ou em circunstâncias individuais”. Por outro lado, basta pensarmos em momentos grandiosos coletivos da história da humanidade como, por exemplo, os cristãos confrontando os leões no Coliseu, a “Marcha do Sal” na libertação da Índia e as marchas pelas reivindicações dos direitos civis nos Estados Unidos, para não concordarmos com a afirmação de que “qualquer grupo composto de pessoas muito admiráveis passa a ter a moral e a inteligência de um animal desajeitado, estúpido e violento”. É preciso compreender que a vida criativa de Jung sofreu o impacto do nazi-fascismo e do comunismo, o que pode explicar em parte porque esse preconceito contra a dimensão coletiva reaparece tantas vezes na sua obra como uma verdadeira fixação. Novamente, em Psicologia e Alquimia (Jung, 1950), ele escreve: “Tais mudanças (da inflação do europeu) só podem começar com os indivíduos porque as massas são formadas por brutos cegos, como sabemos… Não existem dúvidas nas massas: Quanto maior a multidão, melhor a verdade e maior a catástrofe”.

Como mencionei acima, todo esse viés parece-me ter começado com o fato de Jung haver descrito os Arquétipos da Anima e do Animus exclusivamente no Processo de Individuação e de haver conceituado a Persona unicamente como uma diferenciação da dimensão coletiva. Jung chegou a explicitar isto no glossário dos Tipos Psicológicos (1921) na definição de “individuação” e de “alma”: “(a individuação) é o desenvolvimento da individualidade psicológica como um ser diferente da psicologia coletiva e geral. A individuação, por conseguinte, é um processo de diferenciação que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual”… “A personalidade interna é a maneira como nos comportamos com relação aos nossos processos internos. Trata-se da atitude interna do caráter voltada para o inconsciente. Denomino a atitude externa Persona e a atitude interna Anima”. Algumas linhas antes, no par. 801, ele escreve: “Assim, a Persona

  • um complexo funcional ativado pela adaptação ou pela conveniência pessoal, mas que não é de forma alguma idêntica à individualidade. A Persona é uma expressão exclusiva da relação com os objetos”. Não se trata de invalidarmos a descrição do Processo de Individuação feita por Jung como uma diferenciação do coletivo, mas sim, de apontarmos o viés formado com a restrição exclusiva dos Arquétipos da Anima e do Animus ao Processo de Individuação e da Persona à dimensão coletiva. Uma parte importante do Processo de Individuação consiste na criação de uma Persona para sua expressão. Podemos mesmo dizer que uma parte essencial da função dos Arquétipos da Anima e do Animus no Processo de Individuação dos humanistas, estadistas, cientistas, artistas e heróis dos últimos séculos tem sido o de criar e desenvolver uma Persona para o funcionamento das instituições democráticas. Da mesma forma, a transformação da Persona coletiva nestes últimos séculos tem sido fundamental para o funcionamento dos Arquétipos da Anima e do Animus nas dimensões individual e coletiva.

O conhecimento dos padrões arquetípicos da consciência (veja adiante) muito nos ajuda a compreender a ação comum dos arquétipos na dimensão individual e coletiva. Ao descrever o Arquétipo de Alteridade e a posição dialética no funcionamento da consciência individual e coletiva englobando os Arquétipos da Anima e do Animus, a Psicologia Simbólica Junguiana concebe a coordenação do Processo de Individuação na dimensão do Self Individual lado a lado com a diferenciação da dimensão coletiva para atingir o funcionamento democrático das instituições dentro do Self Cultural. Nesta perspectiva, podemos perceber este mesmo Arquétipo da Alteridade coordenando o processo de elaboração simbólica dos símbolos da natureza pela relação dialética ecológica dentro do Self Planetário.

Esta unilateralidade na obra de Jung impediu o estudo da consciência coletiva com os mesmos arquétipos usados para a diferenciação da consciência individual, o que manteve a dissociação histórica entre Psicologia, Sociologia e Antropologia.

AS OBRAS DE ERICH NEUMANN E DE JOHN WEIR PERRY

Estes dois Junguianos aplicaram o conceito de arquétipo para o desenvolvimento da dimensão coletiva, mas, como Jung, não chegaram a relacionar os Arquétipos da Anima e do Animus e o Processo de Individuação com a diferenciação da dimensão sócio-política.

Johan Jacob Bachofen (1870) foi o primeiro a assinalar que sociedades de dominância matriarcal haviam precedido a sociedade tradicional européia de dominância patriarcal. Neumann relacionou esta idéia com o conceito de arquétipo e descreveu através de mitos a dominância do Arquétipo da Grande Mãe, seguida da dominância do Arquétipo do Pai, no desenvolvimento da consciência coletiva (Neumann, 1949). Posteriormente, no livro “A Criança”, publicado após sua morte, ele descreveu esta mesma seqüência de dominância arquetípica no desenvolvimento individual (Neumann, 1970).

John Weir Perry, estudando a recuperação da personalidade após surtos psicóticos, observou símbolos de totalidade que relacionou com a atividade criativa do Arquétipo Central do Self (Perry, 1974). Posteriormente, ele descreveu essa mesma simbologia na formação histórica das monarquias e, a partir daí, relacionou o desenvolvimento histórico das culturas com o desenvolvimento arquetípico da personalidade (Perry,1966). Acontece que o padrão arquetípico social estruturante das monarquias é o padrão do Arquétipo Patriarcal. Assim sendo, Perry viu a coordenação do Self Cultural pelo Arquétipo Central exclusivamente através do Arquétipo Patriarcal. Ora, o Arquétipo Central é o coordenador do processo de elaboração simbólica, seja durante a dominância do Arquétipo Matriarcal, seja durante a dominância do Arquétipo Patriarcal. Ao não diferenciar o Arquétipo Patriarcal , no caso da interpretação arquetípica da monarquia, como um dos quatro padrões de dominância expressos pelo Arquétipo Central, Perry superpôs o Arquétipo Patriarcal ao Arquétipo Central e não reconheceu nenhum outro arquétipo no desenvolvimento da dimensão coletiva.

Desta maneira, vemos que a descrição arquetípica do desenvolvimento da consciência coletiva por Neumann e Perry não incluiu os Arquétipos da Anima e do Animus (Arquétipo de Alteridade). Este fato manteve o viés de Jung que favoreceu indevidamente a dimensão individual em função do processo de individuação, em detrimento da dimensão coletiva.

O REDUTIVISMO ETNOCÊNTRICO DO INÍCIO DA ANTROPOLOGIA

A Antropologia também foi afetada pela dissociação sujeito-objeto que a deixou reduzida à dimensão coletiva e separada das descobertas sobre o desenvolvimento da personalidade. Além do redutivismo à dimensão coletiva, que complementou o redutivismo da Psicologia à dimensão individual, o principal redutivismo da Antropologia Comparada do final do século dezenove de Lévy-Brühl, Tylor e Frazer foi o do etnocentrismo ao interpretar o fenômeno do animismo. Lucien Lévy-Brühl (1857-1939) descreveu “o pensamento pré-lógico dos primitivos” (Lévy-Brühl, 1922). Sir Edward Burnet Tylor (1832-1917) em Primitive Culture descreveu o “animismo” das “culturas primitivas” como a pré-religião (E. Britânica, 1993). Sir James Frazer (1854-1941) descreveu a magia em relação evolutiva com a ciência a ponto de caracterizá-la como a expressão de uma incapacidade de pensar corretamente, o que expressou na frase tão célebre quanto errada: “a magia é a ciência bastarda”. (Frazer, 1890). Fazia-se a amplificação, em gabinete, dos símbolos das culturas “estudadas” com símbolos de outras culturas preconceituosamente denominadas “primitivas”. O menor conhecimento científico e poder tecnológico e a freqüente confusão do conhecimento com a superstição das culturas tribais foi desprezado junto com o seu maior entrosamento com o corpo, a natureza, a intuição, o misticismo e a comunidade, características da expressividade matriarcal. Estas características matriarcais foram atacadas pela projeção patriarcal puritana defensiva dos descobridores que rotulou as culturas tribais de “inferioridade moral”. Uma vez categorizadas como “inferiores”, a exploração, o domínio e o extermínio de muitas culturas tribais foram sancionados da mesma forma como aconteceu com o solo, o subsolo, a fauna e a flora das terras descobertas. Sua sabedoria, em muitos casos superior, exatamente por essa expressividade matriarcal mais exuberante e diferenciada, foi ignorada e muitas vezes aniquilada. É importante notar que toda esta interpretação pejorativa do animismo como “pré-isto” e “pré-aquilo” se deve a uma dificuldade do europeu de compreender até hoje a mentalidade de dominância matriarcal. Daí a grande importância do símbolo do etnocentrismo na história da Antropologia.

O “evolucionismo” cultural basou-se no desenvolvimento tecnológico, o que colocou a sociedade industrial ocidental forçosamente no topo da pirâmide. Lewis Henry Morgan (1877), Jacques de Morgan (1947) e mesmo o nosso antropólogo Darcy Ribeiro em seu Processo Civilizatório (Ribeiro, 1968) adotaram esse critério evolutivo tecnológico. O desastre antropológico epistemológico ao qual levou esse método materialista, porém, não foi somente o desconhecimento da realidade sócio-cultural individual, familiar, artística, política, religiosa e filosófica das culturas tribais. O redutivismo do etnocentrismo evolutivo materialista abriu espaço nos círculos acadêmicos para a noção facciosa da superioridade da civilização ocidental não só cultural, mas também racial, pois introduziu o racismo “cientificamente” na ciência antropológica. A obra do Conde Joseph-Arthur de Gobineau (1816-1882) “Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas” publicada no século dezenove já expressa esse viés que seria ampliado com resultantes genocidas na ideologia nazi-facista, no século vinte, pelo conceito de “arianismo”.

A ANTROPOLOGIA MODERNA E O TABU DE COMPARAÇÃO

Franz Boas (1858-1942) é considerado o pai da Antropologia Moderna, por ter fundado a Antropologia de campo centrada na própria cultura estudada. Desta forma, Boas protegeu a Antropologia do viés evolutivo etnocêntrico e estabeleceu o método de evitar a Antropologia evolutiva e comparada tão preconceituosamente praticada por seus antecessores. Por intermédio do método da “Antropologia de campo”, que substituiu a “Antropologia de gabinete”, Boas propôs a delimitação da Etnologia à realidade única de cada cultura.

Os ferimentos epistemológicos do redutivismo evolutivo etnocêntrico deixaram cicatrizes na Antropologia Moderna, que transformaram em tabu qualquer estudo comparativo intercultural. No entanto, toda posição metodológica que envolve componentes preconceituosos como esse, mais cedo ou mais tarde, é questionada pelo caminho do conhecimento. Enquanto a Antropologia Moderna se dedicou ao estudo das culturas tribais, o método exclusivista não comparativo protegeu-a do etnocentrismo das sociedades industrializadas e rendeu um enorme conhecimento sobre a riqueza dessas culturas. Com o passar dos anos e a exaustão de reservas, a poluição ambiental, a devastação ecológica e o isolamento progressivo das pessoas que acompanharam o progresso tecnológico das sociedades industrializadas, o método antropológico comparativo começa outra vez a se impor, só que, desta vez, favorecendo a visão de mundo das culturas tribais, sobretudo no que concerne a sua sabedoria ecológica e ao seu cooperativismo. Apesar de serem culturas com desenvolvimento tecnológico muito menor que o da civilização industrial, seu desenvolvimento ecológico, mítico-religioso e sociológico relacionado com a dinâmica familiar e com as relações políticas de seus membros não raro mostram uma sabedoria que a civilização industrial até hoje desconheceu. A cultura dos aborígenes australianos, como os Gagudju, por exemplo, que durante quarenta mil anos conviveu e preservou a natureza guiada pelo seu referencial mítico na região por eles denominada Kakadoo no Norte da Austrália, mostrou-se incomparavelmente superior ecologicamente à civilização industrial, cujos valores nos poucos séculos da civilização industrial colocaram em perigo a sobrevivência humana no planeta. Contudo, apesar de enaltecida por setores da cultura geralmente filantrópicos e alternativos, a diferenciação matriarcal das culturas não tem sido suficientemente mobilizadora da Antropologia oficial para levá-la a um método comparativo não evolucionista que possa estudar cientificamente a superioridade de muitos costumes de culturas com diferenciação matriarcal sobre seus correspondentes na civilização industrial do primeiro mundo. Isto não aconteceu em parte pelo tabu do preconceito tradicional da Antropologia moderna de não se comparar culturas para evitar o etnocentrismo e em parte pela falta de um referencial para se praticar uma Antropologia Comparada criativa não evolucionista que evite os redutivismos e, ao mesmo tempo, compare os processos de elaboração simbólica entre as culturas com suas vantagens e desvantagens. A perspectiva simbólica nos permite usar a Antropologia junto com a Psicologia de uma forma comparativa para contribuirmos cientificamente para o desenvolvimento humano.

A maioria das sociedades com grande diferenciação matriarcal, pelo próprio fato de espiritualizarem as forças da natureza de forma animista, tem um relacionamento ecológico respeitoso e preservador que as sociedades industrializadas com dominância patriarcal e repressão matriarcal jamais conseguiram, pelo contrario. Ou seja, o próprio Animismo, que servia para a Antropologia etnocêntrica evolutiva inferiorizar as sociedades tribais, após melhor estudo e conhecimento delas, vem demonstrar a sua superioridade no que concerne à ecologia. Deve-se considerar ainda que estas sociedades são muito ritualizadas, o que propicia uma proximidade amorosa que favorece a participação emocional, afetiva e produtiva nas tarefas comunitárias e identifica o bem estar do indivíduo com o da comunidade (Saiz Laureiro, 1986). É preciso cultivar e protejer o “jeitinho brasileiro e latino-americano” no seu conteúdo matriarcal lúdico e criativo para que ele não resvale para o matriarcal defensivo da esbornia e da corrupção. Não quero idealizar o Arquétipo Matriarcal nas sociedades latino-americanas. Basta pensarmos nas superstições arraigadas em nossas sociedades, inclusive na escolha de tantas lideranças históricas representadas por caudilhos paternais, “bem feitores do povo”, tão ditadores quanto sedutores e corruptos demagógicos, para não os idealizarmos, pois, se o fizéssemos, estaríamos regredindo ao ufanismo Rousseauniano do “bom selvagem”. A vantagem em se voltar a uma Antropologia Comparada é grande, principalmente, porque se trata de contribuir teoricamente para a sobrevivência do humanismo e até mesmo da espécie.

O maior problema da implantação da ciência exclusivamente objetiva é sua negligência dos significados subjetivos e sua conseqüente desumanização. Freqüentemente, essa ciência materialista subordinada ao livre mercado capitalista ou ao controle estatal comunista atua esta Sombra Frankensteiniana o que resulta na alienação crescente da sociedade. O materialismo “dialético” que inspirou o Socialismo Comunista e a teoria capitalista do livre mercado liberal foram ambos influenciados pela dissociação sujeito-objeto dentro da repressão do Arquétipo Matriarcal na tradição da dominância patriarcal do Ocidente e trouxeram um grande distúrbio no processo de humanização do

Planeta. Por outro lado, a atitude exclusivamente subjetiva se torna presa fácil de crenças obscurantistas e de distorções emocionais que são igualmente alienantes. Por essa razão, a Ciência Simbólica elabora as ciências e todos os fatos como símbolos estruturantes da consciência, buscando extrair seus significados e separá-los criteriosamente para compreender tanto quanto possível quais são do Ego, do sujeito e quais são do Outro, do objeto.

Outra vivência sociológica que nos impulsiona para formular uma nova Antropologia Comparada não evolucionista é o próprio desejo de buscar conceituar a identidade de sociedades multiculturais, nas quais coexistem características das sociedades industrializadas, de dominância patriarcal, lado a lado com costumes e crenças animistas de culturas com grande pujança matriarcal. Não só as sociedades latino-americanas, mas todas as sociedades colonizadas pelos países europeus estão nessa situação. Com a implantação progressiva do Arquétipo da Alteridade, do desenvolvimento da democracia no mundo, da busca da economia sustentável e do respeito crescente às minorias étnicas, o estudo do intercâmbio cultural é cada vez maior. Até mesmo os países europeus praticam-no de forma crescente, seja isso em decorrência das etnias hoje minoritárias que sempre existiram em seus territórios, ou das etnias que colonizaram longe e que para eles um dia imigraram.

O terceiro fator que nos estimula a buscar um referencial teórico para uma Antropologia Comparada não evolutiva é a limitação da teoria do sincretismo. Aplicado aos símbolos do Candomblé na sociedade multicultural brasileira, por exemplo, o sincretismo explica os símbolos Iorubá-Nagô por uma analogia que expressa a repressão religiosa do passado. Dizer que Xangô é o equivalente de São Jerônimo, Oxossi e Ogum, de São Jorge, Iemanjá, de Nossa Senhora da Conceição, Oxumaré, de São Bartolomeu e Obaluaiê, de São Sebastião nos informa sobre a repressão religiosa do Candomblé que buscou esses santos para acobertar seus cultos, mas pouco nos ensina sobre uma possível comparação do funcionamento desses símbolos no Self Cultural Iorubá-Nagô com o funcionamento de símbolos semelhantes no Self Cultural de tradição européia.

ARQUÉTIPO, ESTRUTURA, SÍMBOLO E FUNÇÃO ESTRUTURANTE

Os conceitos de Arquétipo de Jung e de Estrutura de Claude Lévi-Strauss servem imensamente para compreendermos melhor os símbolos culturais pelo método da amplificação. No entanto, o perigo do redutivismo dos significados de uma cultura a outra é muito grande. Trata-se do mesmo perigo redutivista diante do qual sucumbiu a Antropologia de gabinete. Aumenta-se a compreensão arquetípica dos símbolos, mas perdem-se os seus significados específicos na cultura estudada. O grande antídoto para este redutivismo são os conceitos de Self Cultural, de Símbolo e de Função Estruturante, cuja função psicodinâmica desvela seus significados únicos dentro do Todo. Dentre estes três conceitos, o conceito de Símbolo Estruturante deve ser priorizado como parâmetro epistemológico, além dos conceitos de arquétipo e de estrutura, porque ele engloba, ao mesmo tempo, características históricas do aqui-e-agora e características arquetípicas ou estruturais. Percebido sempre com a sua raiz arquetípica, o símbolo é o grande denominador comum que reúne História e Etnologia.

O CONCEITO DE SELF CULTURAL

Jung conceituou o Self como a totalidade psíquica individual, englobando o consciente e o inconsciente, o Ego e os Arquétipos (Jung, 1921). Erich Neumann descreveu o eixo Ego-Self para estudar a relação da Consciência com a Totalidade (Neumann, 1977).

Continuando a criatividade de Jung e de Neumann, descrevi o conceito de Self Cultural para englobar a interação da consciência coletiva, dos símbolos e dos arquétipos de uma determinada cultura (Byington, 1986). Acrescentei o conceito de Eixo Simbólico para representar a relação da consciência individual e coletiva com os arquétipos por intermédio dos símbolos e das funções estruturantes. Prefiro o conceito de Eixo Simbólico ao invés de Eixo Ego-Self empregado por Neumann porque esta denominação nos dá a falsa impressão de que o Ego pode existir fora do Self (veja o gráfico no final). Em sua vasta obra, Jung procurou demonstrar que o Self tem uma função centralizadora e criativa que busca diferenciar a consciência por intermédio das vivências simbólicas. Para articular a consciência com o Arquétipo Central do Self, conceituei todas as coisas como símbolos estruturantes e todas as funções existenciais como funções estruturantes para diferenciar o Self e estruturar a consciência. Tudo é símbolo estruturante e tudo é função estruturante, porque todas as vivências humanas formam e transformam a consciência coordenadas pelo Arquétipo Central. O Presidente é um símbolo e sua função estruturante é o poder executivo. Orumilá é um símbolo e sua função estruturante é a relação com a intuição e a riqueza da natureza, e assim por diante.

A ELABORAÇÃO SIMBÓLICA NO SELF INDIVIDUAL E CULTURAL

Desta maneira, a vivência das funções estruturantes vai permitindo a incorporação dos significados dos símbolos à consciência individual e coletiva. Denominei este processo de Elaboração Simbólica. Por conseguinte, a psique individual e a psique cultural, ou seja, o Self Individual e o Self Cultural são fábricas de elaborar símbolos por intermédio das funções estruturantes para formar e transformar a consciência individual e a consciência coletiva. As funções estruturantes podem ser criativas e defensivas. Ambas são coordenadas pelos arquétipos. As funções criativas levam ao desenvolvimento e as defensivas formam a Sombra Individual e Cultural, que expressa a estagnação ou as reações inadequadas, destrutivas e patológicas.

A SOMBRA INDIVIDUAL E SOMBRA CULTURAL

Os distúrbios do processo de elaboração simbólica ocorrem formando a fixação descrita por Freud. Neste caso, as funções estruturantes deixam de ser dominantemente conscientes, livres e criativas e se tornam defensivas e dominantemente inconscientes, fenômeno este descrito também por Freud por intermédio dos conceitos de mecanismos de defesa do Ego, compulsão de repetição e resistência. As fixações dos símbolos e seus complexos constituem uma estrutura na personalidade e na cultura que Jung denominou Sombra, respectivamente, individual e coletiva e que é dominantemente inconsciente e sempre patológica, dentro desta perspectiva. Ao situarmos os conceitos de fixação, mecanismos de defesa, compulsão de repetição e resistência dentro do referencial arquetípico do Self Individual e do Self Cultural, podemos empregar a Teoria dos Arquétipos de Jung e a Teoria dos Mecanismos de Defesas de Freud tanto no estudo normal quanto no estudo patológico do Self Cultural pela Antropologia Simbólica.

A Sombra pode ser circunstancial, quando os símbolos e as funções estruturantes, funcionando defensivamente, voltam a operar criativamente confrontados pelo Ego e pela Consciência Coletiva. No entanto, a Sombra pode se tornar cronificada, quando os símbolos e as funções estruturantes, funcionando defensivamente, resistem ao confronto por intermédio das defesas e da compulsão de repetição ou, não podem nem mesmo ser confrontadas devido ao seu alto teor de inconsciência e resistência. Desta maneira, podemos empregar o processo de elaboração simbólica na Antropologia Simbólica de forma comparada e não evolutiva, tanto para estudar símbolos e funções estruturantes que operam normal ou criativamente, como para estudar símbolos e funções estruturantes que operam defensivamente na Sombra do Self Cultural.

A função estruturante intermediadora expressa pelos símbolos de Exú e de Cristo, respectivamente, no Self Cultural Iorubá-Nagô e na cultura ocidental cristã, por exemplo, nos permite compreender, de forma psicodinâmica simbólica, muito além do sincretismo, porque Exú foi confundido com o Diabo. O fato do Cristianismo, apesar de ser um mito de alteridade, ter sido grandemente patriarcalizado durante a sua institucionalização, fez com que muitas de suas funções estruturantes coordenados pelo Arquétipo Matriarcal como, por exemplo, a sensualidade, a agressividade, a possessão, a magia, a mediunidade, a criatividade e a imaginação mística fossem reprimidas e expressas pela Sombra como funções diabólicas (Byington, 1986). Quando estas funções estruturantes expressas por Exú foram percebidas pelos europeus, a projeção defensiva do símbolo do Diabo do Cristianismo foi imediata. No entanto, se considerarmos somente esta eqüivalência de Exú e do Diabo no sincretismo tradicional, não perceberemos que o Diabo é a Sombra de Cristo expressa defensivamente no Cristianismo, enquanto que Exú expressa a mesma função estruturante do Arquétipo da Alteridade de forma criativa no Self Cultural Iorubá-Nagô. Assim sendo, apesar de corresponderem a uma função estruturante comum, a diferença psicodinâmica operativa dentro do Self Cultural entre Exú e o Diabo é muito grande, para não dizer oposta. Desta forma, o sincretismo simbólico entre Exú e o Diabo na Antropologia Simbólica nos permite um estudo muito rico da relação com o inconsciente, o pecado, a agressividade, o sexo e a morte nesta duas culturas. A Antropologia Simbólica permite também uma melhor compreensão do fenômeno da possessão, comum nos terreiros do Candomblé e da Umbanda e que começa a ser admitido pelo movimento carismático católico que cresce intensamente hoje no Brasil.

Os primeiros antropólogos brasileiros que estudaram a possessão criativa nas culturas afro-brasileiras a consideraram um fenômeno defensivo histérico porque nelas projetaram defensivamente a Sombra do Self Cultural Europeu, no qual o Arquétipo Matriarcal reprimido na Era Vitoriana se expressava pela histeria, como descobriu Freud. Desta maneira, o estudo do símbolo do Diabo e da função estruturante da possessão são dois grandes exemplos que ressaltam a importância do método comparativo da Antropologia Simbólica.

Na história recente brasileira, encontramos um exemplo marcante de emergência matriarcal no nível artístico, que desconcertou a rígida polarização patriarcal entre a esquerda marxista baseada na luta de classes e a direita reacionária, que buscava a manutenção dos privilégios do status quo. O posicionamento artístico dos novos baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso, na década de sessenta, foi um exemplo baiano da síntese na dialética Hegeliana entre a tese e a antítese. Insurgiram-se contra o patrulhamento ideológico das esquerdas que determinava como deveria ser a arte engajada e ao mesmo tempo cantaram a liberdade da arte e da cultura durante a repressão. Ao serem presos como revolucionários e terem suas cabeças raspadas, os dois artistas se deram conta que expressavam um movimento novo que não pertencia nem a um lado nem ao outro. A Tropicália foi um movimento emergente criativo baiano com intenso componente matriarcal que expressou o Arquétipo da Alteridade pela criatividade poética e musical ao propor o confronto com as tradições sociais de dominância patriarcal através da posição dialética. A arte de Caetano Veloso continua a expressão da alteridade dentro da identidade latino-americana ao cantar, em seu recente disco Fina Estampa em espanhol, músicas de países latinos com o sotaque de cada país. Trata-se de um belo exemplo de conjunção da multiplicidade matriarcal e da unicidade patriarcal dentro da alteridade (Luvizotto, 1999). Multiplicidade matriarcal, porque cada país tem a sua música, seu sotaque, sua história, seus costumes e tradições. Unicidade patriarcal, porque sua abstração nos permite ver todos esses países dentro do denominador comum sul-americano.

OS ARQUÉTIPOS REGENTES

O processo de elaboração simbólica é o centro do Eixo Simbólico da atividade psíquica individual e cultural. Os símbolos e funções estruturantes que aí atuam são pessoais, arquetípicos, circunstanciais, coletivos e históricos pelo fato de serem inseparáveis da estruturação da consciência individual e coletiva, mas são, ao mesmo tempo, arquetípicos, porque sua elaboração é coordenada pelo Arquétipo Central e pelos demais arquétipos nele centralizados. Dentre estes incontáveis arquétipos, quatro sobressaem-se por fazerem parte de toda elaboração simbólica e, por isso, os descrevi como os Arquétipos Regentes do processo de elaboração simbólica. Eles são o Arquétipo Matriarcal, coordenador principalmente da sensualidade, o Arquétipo Patriarcal, coordenador basicamente da organização, o Arquétipo da Alteridade, coordenador essencialmente do encontro dialético das polaridades e o Arquétipo de Totalidade, coordenador da percepção de conjunto da realidade psíquica. Juntos formam o Quatérnio Arquetípico Regente.

A EXTENSÃO DO CONCEITO DE ARQUÉTIPO E AS POSIÇÕES ARQUETÍPICAS DA CONSCIÊNCIA

A descoberta de que os arquétipos coordenam a formação do Ego desde o início da vida por Fordham e Neumann levou a Psicologia Simbólica Junguiana a estudar o funcionamento arquetípico da Consciência relacionado com os Arquétipos Regentes. A partir daí, tornou-se claro que o arquétipo não é só inconsciente, pois também se expressa por intermédio da relação Ego-Outro na consciência. Esta percepção permitiu a formulação de uma teoria arquetípica da relação Ego-Outro na Consciência e tornou possível o embasamento arquetípico da Teoria das Relações Objetais da Escola Inglesa de Psicanálise desenvolvida por Melanie Klein. De acordo com este enfoque, temos cinco posições arquetípicas da relação Ego-Outro no processo de Elaboração Simbólica tanto no Self Individual quanto no Self Cultural. São elas:

POSIÇÃO INDIFERENCIADA – correspondente ao início da elaboração simbólica, quando os símbolos são constelados pelo Arquétipo Central. Todos os acontecimentos da vida individual e da cultura têm esse momento inicial de indiscriminação antes de serem elaborados e devidamente integrados na conduta. Neumann a denominou posição urobórica em analogia com o Uroboros o dragão alquímico que engole a sua própria cauda, ilustrando que nesta fase indiferenciada, o início se confunde com o fim.

POSIÇÃO INSULAR – correspondente às ilhas de consciência características da dominância da elaboração simbólica pelo Arquétipo Matriarcal. Estas ilhas conscientes são interligadas por energia inconsciente. Este estado poli-subdividido faz parte das elaborações simbólicas normais e pode ser comparado à posição esquizoparanóide de Melanie Klein, ao estado perverso-polimorfo de Freud e à participação mística de Lévy-Brühl.

POSIÇÃO POLARIZADA – É característica do Arquétipo Patriarcal, na qual as polaridades operam, em sentidos opostos, no mesmo símbolo e se conjugam com polaridades de outros símbolos formando sistemas. Esta posição é comparável à posição depressiva de Melanie Klein.

POSIÇÃO DIALÉTICA –Trata-se da posição de encontro democrático das polaridades, característica do Arquétipo da Alteridade, tanto em oposição como em igualdade. Ela engloba os Arquétipos da Anima e do Animus descritos por Jung. Ele próprio chamou a atenção para a função mediadora do Arquétipo da Anima (Jung, C6, CW12 par. 242). Nesta posição, o Ego e o Outro se desapegam relativamente dos Arquétipos Matriarcal e Patriarcal e se relacionam de forma dialética, democrática e até mesmo intercambiável.

POSIÇÃO CONTEMPLATIVA – É a expressão característica do Arquétipo da Totalidade na elaboração simbólica. Nesta posição o Ego e o Outro se desapegam de tal forma dos dinamismos anteriores que se percebem um só na vivência de Totalidade. Ela corresponde ao Tao no Taoísmo, ao Zen no Zen Budismo, ao Nirvana no Budismo, ao Moksha no Hinduismo e ao estado de graça no Cristianismo.

AS ATITUDES ATIVA E PASSIVA NA ELABORAÇÃO SIMBÓLICA

O Ego e o Outro podem ter uma atitude ativa ou passiva durante a elaboração simbólica. No início da elaboração, geralmente o Ego atua na posição passiva e o Outro na posição ativa. Com o desenvolvimento da elaboração, estas atitudes tendem a se inverter. Na medida em que o Ego se diferencia nos dinamismos matriarcal e patriarcal, ele tende a assumir cada vez mais a atitude ativa na relação Ego-Outro. No dinamismo de alteridade, o Ego se diferencia para se relacionar em igualdade de condições com o Outro e no dinamismo de totalidade, a diferenciação egóica caminha cada vez mais para se desapegar de tudo e de si mesmo num grau tão extremo que chega a se perceber junto com o Outro dentro do Todo.

CONCLUSÃO

As posições arquetípicas da Consciência descritas pela Psicologia Simbólica Junguiana facilitam a compreensão do embasamento arquetípico comum à Psicologia Individual e Coletiva, que conceitua também a Antropologia Simbólica. As posições indiferenciada, insular, polarizada, dialética e contemplativa correspondentes ao Arquétipo Central e aos quatro Arquétipos Regentes: Matriarcal, Patriarcal, de Alteridade (Anima-Animus) e de Totalidade podem assim ser melhor compreedidas no Self Individual e no Self Cultural. O Quatérnio Arquetípico Regente é um referencial que nos permite a elaboração simbólica das vivências individuais e culturais, em função do que há de mais básico e essencial na vida de nossa espécie. Ele nos permite acompanhar de forma sistêmica a relação das partes com o Todo através dos quatro grandes padrões referenciais da vida psíquica.

No que concerne a nossa identidade multi-étnica, a preservação e a elaboração criativa do Arquétipo Matriarcal em nosso desenvolvimento precisa ser assumida lado a lado com o desenvolvimento do Arquétipo Patriarcal. O desenvolvimento do Arquétipo Patriarcal na América Latina é fundamental para melhorar nosso nível de administração, responsabilidade no confronto das graves limitações da nossa sociedade nas áreas de habitação, saúde e educação, bem como no aumento de produção e planejamento sócio-econômico. O posicionamento patriarcal tradicional de nossas duas principais instituições

  • o Exército e a Igreja – está sofrendo uma grande elaboração devido ao processo de globalização e tem uma oportunidade auspiciosa de se diferenciar. No entanto, sem a emoção participativa comunitária do Arquétipo Matriarcal, o Arquétipo Patriarcal tende a reduzir o desenvolvimento social exclusivamente aos planos macroeconômicos, o que arrisca nos tornarmos uma sociedade alienada com um nível crescente de produtividade, mas cada vez mais desumana e sem nada de autêntico e criativo para oferecer ao mundo.

A busca da percepção da identidade multi-cultural da América Latina se faz em meio à ativação do Arquétipo da Alteridade na transição da sociedade moderna e pós-moderna. O Self Planetário integrado pelo aperfeiçoamento crescente dos sistemas de comunicação propicia cada vez mais a percepção das identidades étnicas e o relacionamento enriquecedor dialético das suas semelhanças e diferenças junto com a criatividade e a fixação dos símbolos e funções estruturantes no seu processo histórico.

Temos de reconhecer a existência crescente da ameaça de destruição da nossa espécie. Etnias e nações de dominância patriarcal, muitas delas governadas por forças repressivas psicopáticas, minam o desenvolvimento da alteridade duramente conquistado na Europa, como é o caso atual da guerra dos Balkans. Da mesma forma, a guerra entre etnias de dominância matriarcal com armamento sofisticado têm mostrado no centro da África uma capacidade mortífera até hoje difícil de se imaginar. Em meio a tantas ameaças, a ativação crescente do Arquétipo da Alteridade enseja sua complementação pelo Arquétipo da Totalidade, com a inter-relação do Self Individual, Self Cultural e Self Planetário expressando sua tendência à globalização, o que propicia a percepção de extensas zonas de miséria. A constatação da miséria como Sombra Planetária é terrível, mas permite o início de medidas práticas para o seu confronto, como, por exemplo, a discussão do imposto Jopin sobre qualquer transação das grandes bolsas mundiais e do perdão da dívida externa dos países do terceiro mundo. A criatividade de nossa espécie é freqüentemente ativada para sobrepujar nossa própria destrutividade. Oxalá isso possa acontecer no milênio que se abre.

A melhor compreensão do Arquétipo Matriarcal dentro da Antropologia Simbólica permite uma nova avaliação comparativa das culturas onde ele é diferenciado junto com o reconhecimento da sua imensa capacidade estruturante na dimensão do corpo, da emoção, do eros coletivo, da arte popular e da natureza. Desta maneira, pode-se relacionar a exuberância do Arquétipo Matriarcal e a necessidade do seu resgate e valorização no ensino atual ainda de dominância patriarcal, sem corpo, sem emoção e sem intuição. Trata-se de um ensino importado que violenta nossa sociedade erótica e patrocina a mentalidade racional e pouco participativa dos planos econômicos abstratos de gabinete, distantes do sofrimento e das necessidades da comunidade e de sua capacidade de mobilização emocional.

Outro aspecto de grande importância sócio-cultural desta nova reorganização planetária em curso, que está afetando enormemente o nosso continente, é a liberação vulcânica do Arquétipo Matriarcal que acompanhou o enfraquecimento da dominância patriarcal na segunda metade do século vinte. A liberação da sensualidade matriarcal, do corpo na dança, na sexualidade e no prazer, foi acompanhada de uma avidez geral de vida que gerou o consumismo da “cultura shopping-center”, que acompanha a corrupção e o enfraquecimento dos valores tradicionais da família, da sociedade e dos costumes em geral. Novamente aqui, faz-se sentir o valor das etnias com diferenciação matriarcal significativa, que já tem o Arquétipo Matriarcal ritualizado em seus costumes e, por isso, também muito podem ensinar ao mundo moderno.

Embasada nos postulados psicodinâmicos da Ciência Simbólica, que reúne no seu fundamento o subjetivo e o objetivo, o interno e o externo, o indivíduo e a sociedade, a Antropologia Simbólica pode ensejar o estudo da interação do Arquétipo Matriarcal e do Arquétipo Patriarcal na Identidade Multicultural Latino-Americana dentro do processo de globalização do Self Planetário. Para completar a sincronicidade que inspirou esta palestra, quero relembrar que o Orixá Oxumaré é a serpente arco-íris. Ele se enrosca e morde a própria cauda (ouroboros). Enrola-se em volta da Terra para impedi-la de se desagregar. Se perdesse as forças, isso seria o fim do mundo (Verger, 1981). Boa noite e bons sonhos a todos.

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É médico psiquiatra e analista junguiano. Nascido em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina. Especializou-se em Psiquiatria e Psicanálise, e, em 1965, graduou-se pelo Instituto Jung, em Zurique. Retornou ao Brasil e fundou, com outros colegas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, que já formou até 2005 noventa analistas, e a Sociedade Moitará, para o estudo de símbolos da cultura brasileira, mais tarde incorporada à SBPA. Foi presidente, diretor de ensino e há muitos anos é supervisor e coordenador de seminários na SBPA. Além de ministrar inúmeros cursos e palestras no Brasil e no exterior, ensinando e divulgando a obra de Jung, Carlos Byington desenvolveu conceitos próprios, que originaram a Psicologia Simbólica Junguiana.

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