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FREUD e JUNG: O que a Emoção não Deixou Reunir

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Em primeiro lugar, devo dizer que falo de Freud e de Jung como os pais heróis de minha vocação. Ainda no curso médico, comecei minha análise com um psicanalista e logo me apaixonei pela obra de Freud. Estudei Psicanális e durante este período com a firme intenção de tornar-me psicanalista. Acontece que meu analista, “sem minha autorização”, foi fazer análise com a Dra. Nise da Silveira. Ela havi a conhecido a obra de Jung, ido fazer análise com ele e a Dra. Marie-Louise von Franz em Zurique e retornara ao Rio de Janeiro, onde se tornou a pioneira da psicoterapia com técnicas expressivas e da Psicologia Analítica no Brasil. Assim aconteceu que minha primeira análi se, que estava no seu quarto ano, terminou, ou continuou, numa viagem a Zurique para me formar analista junguiano. Ao concluir meu curso de formação, escrevi uma tese intitulada Autenticidade como a Dualidade na Unidade. Nela incluí a noção de complementaridade entre as obras de Freud e de Jung, que me custou a ruptura com a Dra von Franz, a discípula erudita da obra de Jung e minha querida analista durante cinco anos. Ao retornar ao Brasil e fundar, com outros colegas brasileiros, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, continuei minha criatividade no desenvolvimento da teoria psicológica incluindo a complementaridade entre as obras de Freud e de Jung, dentro de um referencial simbólico e arquetípico, que intitulo Psicologia Simbólica Junguiana. Nesta teoria, retorno à obra e à figura de Freud para nutrir-me e, ao fazê-lo, freqüentemente relembro a frase célebre da cultura francesa, que tanto desenvolveu a arte de amar: “voltamos sempre ao nosso primeiro amor” – on revient toujours à son premier amour. É dentro dessa perspectiva de afeto e gratidão que lhes falarei hoje sobre como vejo a problemática emocional no relacionament o destes dois gênios pioneiros da psicologia dinâmica.

Jung    conheceu    o    pensamento    de    Freud    possivelmente     através     da   leitura    da Interpretação dos Sonhos      (1900), pois na sua tese de formatura em Psiquiatria – Sobre os Fenômenos Ocultos  – citou-a três vezes.

O encontro pessoal entre eles, que durou treze horas, em fevereiro de 1907, na casa de Freud, em Viena, foi, no entanto, o grande marco que os reuniu num fascínio recíproco até 1913. O cerne da sua relação emocional e transferencial criativa e defensiva foi provavelmente o complexo paterno de ambos.

Freud, dezenove anos mais velho, aos 50 anos já hav ia edificado os pilares de sua obra monumental, que iria transformar a cultura com a introdução dos conceitos de inconsciente dinâmico e de evolucionismo psicológic o. Seu problema, como judeu dentro da cultura alemã e médico neurologista formado na escola positivista de Helmholz, era a ratificação institucional dessas novas Psicologia e Psiquiatria, centralizadas na sexualidade, em uma tradição psiquiátrica na qual não militava e que era exercida dentro de uma cultura tradicionalmente cristã e moralista, com forte comp onente anti-semita. Nesse contexto, Jung tinha várias características para ser o filho ideal , herdeiro e divulgador da obra do pai. “… na noite em que eu o adotei como filho mais velho e o ungi in partibus infidelium (na terra dos infiéis) como meu sucessor e príncipe coroado…”, escreveu Freud em 1909 (Carta 139). Além de ser o chefe de clinica do famoso Bleuler, que acabara de cunhar o termo esquizofrenia, e de chefiar o Burghölzli, em Zuriqu e, um dos grandes centros de psiquiatria da Europa, Jung era filho de um pastor protestante, ou seja, melhor goyn não se poderia encontrar.

Jung, por sua vez, aos 31 anos, apenas começava sua extensa carreira. Somente havia escrito sobre questões psiquiátricas – o próp rio tema do Espiritismo havia sido tratado como uma tese de Psiquiatria. O gigante, que nos 53 anos seguintes iria empregar o conceito de arquétipo para enraizar todos os fenômenos humanos, individuais e culturais, na imaginação criativa transcendente do instinto de individuação, era apenas um jovem médico psiquiatra muito inteligente e ambicioso.

Todos os componentes psicológicos dos complexos, símbolos e arquétipos são bipolares. A principal constituição arquetípica bipolar do complexo paterno é a paternidade e a filitute paterna, expressas dominantemente nas imagens do pai e do filho.

Por suas histórias de vida, podemos inferir que tanto Freud quanto Jung apresentavam limitações significativas resultantes de fixações d os seus complexos paternos mal elaborados.

A problemática de Freud com o complexo paterno, com o sabemos, propiciou a descoberta genial do seu Complexo de Édipo. Primogênito, com cinco irmãs e um irmão dez anos mais jovem, numa tradição patriarcal que supervaloriza o homem, com uma linda mãe apenas 21 anos mais velha que ele, era muito difícil não sentir atração por ela, dentro da afetividade. Ao mesmo tempo, o pai, 20 anos mais velho que sua mãe, um pequeno comerciante, era um rival frágil diante de sua ambi ciosa vocação acadêmica na competição normal entre filho e pai. A vivência do anti-semiti smo na sociedade vienense e a dificuldade de um pai de família judáica para enfrentá-la, exem plificadas na adolescência de Freud, quando seu pai contou-lhe que havia sido humilhado na rua por um grupo de rapazes anti-semitas, que chegaram a derrubar seu boné, e que não havia reagido, possivelmente também contribuíram para a desidealização mal elaborada da figura paterna (Jones, 1953, vol.1, p. 22). A morte do pai quando Freud tinha 40 anos e a satisfação e a culpa que sentiu junto com a dor marcaram o caminho para a descoberta genial do Complexo de Édipo em si mesmo. Mas daí a concluir que todos os meninos, ao nascerem, já tenham inevitavelmente a tendência incestuosa e parricida como o instinto central do Id, parece-me uma generalização descabida.

A identificação de Freud com Édipo é impressionante, como ilustra um episódio relatado por Jones. No seu aniversário de 50 anos, os discípulos de Freud lhe presentearam com um medalhão, idealizado por Paul Federn, que tr azia de um lado a sua imagem e do outro, Édipo diante da Esfinge, com a famosa frase de Sófocles: aquele que decifrou o famoso enigma e foi um homem extraordinariamente poderoso. Foi uma sincronicidade, pois, segundo Freud confidenciou muito emocionado aos presentes, ele, quando jovem, caminhando pelos corredores da Universidade de Viena, havia se deparado com vários bustos de antigos professores e fantasiado, exatamente com essas palavras, que um dia também seria célebre (Jones, 1953, vol.2, p.13). No entanto, seria essa identificação restrita exclusivamente ao lado genial e bem sucedido da personalidade de Édipo?

Ora, sabemos que a celebridade de Édipo ocorreu muito menos por ter ele decifrado o enigma do que por ter matado o pai, praticado o incesto com sua mãe, ter tido quatro filhos com ela e ter se automutilado, cegando-se, ao sabê- lo. Édipo só se torna existencialmente sábio depois do seu repúdio à guerra entre seus doi s filhos e da peregrinação ao Templo das Eríneas, das Fúrias, descrito por Sófocles em Édipo em Colona , a última peça da trilogia. Somente aí ele se consagra e é finalmente conduzido por Teseus para o Além.

O drama de Édipo nos transmite, então, um paradoxo que reúne a glória do intelecto coroada pela tragédia existencial. A homenagem dos discípulos com o medalhão deveu-se, certamente, à identificação de Freud com o lado da personalidade de Édipo que decifrou o enigma, mas, como relacionar com Freud o outro lado da personalidade de Édipo, que saiu da vitória intelectual para a mais fragorosa das derrotas no processo existencial?

Para tentar responder a essa pergunta ameaçadora para a glória de um tão grande gênio, necessitamos penetrar mais fundo no mito da Esfinge. Ela é a própria imagem do incesto, concebida com outros monstros no imaginári o mitológico do período pré-olímpico da cultura grega. Sua mãe é a dragão Echidna, amante d o seu próprio filho, o cão Orthos, irmão do cão Kerberos, de três cabeças, que guarda a porta do Hades. Seu corpo com garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de á guia e unhas de hárpia, expressa a monstruosidade que representa o incesto quando ele ocorre dentro da família e da cultura edificadas sobre o tabu de incesto (Kerényi, 1959).

Como bem descreveu Engels (1884), a partir da obra de Morgan (1861), a ausência do conhecimento da função paterna biológica na família grupal dos bandos caçadores-coletores impedia a existência do papel social do pai estabel ecido na família patriarcal, que deu início

Como formulei em minha Teoria Arquetípica da História (Byington, 1983), a dominância do Arquétipo Patriarcal que se seguiu à dominância do Arquétipo Matriarcal só se tornou possível com a conquista da moradia permanente e a fundação das cidades, ensejadas pela revolução agropastoril e pela estocagem de alimentos. Minha interpretação do significado da formação da família patriarcal, dentro da dominânci a histórica do Arquétipo Patriarcal, é que a organização social dela oriunda produziu naturalmente o tabu de incesto. Por conseguinte, o incesto e o parricídio tornaram-se imorais somente com a organização patriarcal da família e da cultura, que marcaram o início da civilização. Assim sendo, podemos supor que, no bando caçador-coletor, com organização familiar de dominância matriarcal, o estupro era habitual e a mulher provavelmente se relacionava com qualquer homem que a possuísse, independentemente do grau de parentesco. O parricídio, por sua vez, não seria proibido simplesmente porque a figura social do pai não exis tia. Desta maneira, com o passar das gerações, os filhos resultantes acumularam todos os papéis familiares. Do ponto de vista desta Consciência Coletiva, nessa fase da cultura, isso seria natural e não haveria monstruosidade alguma.

No entanto, depois de estruturada a civilização baseada na família patriarcal e no tabu de incesto, esse relacionamento naturalmente indiscriminado e incestuoso tornou-se equivalente à monstruosidade e foi projetado, na Mitologia Grega, nas imagens de animais fantásticos que praticavam abertamente o incesto. S eguindo esta hipótese, a Esfinge seria a representação do incesto existente na dimensão matr iarcal e que, na dimensão patriarcal da cultura, passou a ser vista como monstruosidade. Pelo fato de o tabu de incesto acompanhar a codificação da lei, podemos compreender a associação do incesto com o parricídio, pois ambos representam a transgressão m áxima, respectivamente, da família e da sociedade patriarcalmente organizada. Nesse sentido, o símbolo da Esfinge, que vem punir Tebas pela degeneração dos costumes através do enigma do processo existencial intelectualmente decifrado por Édipo, inclui o incesto e o parricídio.

A palavra Esfinge vem da Mitologia Grega, que denominava o monstro de Sphigks, talvez aparentado com o verbo sphiggo, que significa apertar e que originou a palavra esfíncter, em Medicina. Por isso, Kerényi interpretava o significado da Esfinge como “aquela que aperta”, ou seja, como “a estranguladora”. (Ker ényi, 1959) Dentro deste significado, podemos ver a Esfinge como a imagem arquetípica da fixação, genialmente descrita por Freud como o principal distúrbio da libido no proce sso de desenvolvimento.

O enigma da Esfinge é a pergunta sobre qual é o ser que caminha de quatro, no início; de dois, no meio; e de três no final. Ao decifrar o enigma como sendo o ser humano na infância, na vida adulta e na velhice, ou seja, ao definir a vida como processo de desenvolvimento, a Esfinge despenca no fundo do abismo. Se ela representa o incesto e o parricídio, os dois principais distúrbios do amor e da agressividade no desenvolvimento, e se Édipo a vence para depois afundar no incesto e no parricídio, este paradoxo pode significar que ele aparentemente a vence pelo intelecto, mas que a vitória intelectual é ilusória, pois, na realidade existencial, ela retorna do fundo do abismo para derrotá-lo. A falsa vitória do intelecto sobre a Esfinge representa, assim, a onipotência da Consciência racional que, ao descrever a vida, acredita controlá-la. Pensamos im ediatamente na razão coroada em Paris pelo Iluminismo, na Revolução Francesa, e que logo a seguir naufragou no Terror. Mas, aplicada à identificação de Freud com Édipo, podemos pensar também no fenômeno do insight como a maior desilusão da Psicanálise. De fato, a descoberta dos processos inconscientes deu origem à crença de que a simples compreensão racional desfaria qualquer sintoma e traria a sua cura, da mesma maneira que Anna O. despertou curada da fobia de água quando, hipnotizada por Breuer, lembr ou-se que sua fobia se iniciara quando vira o cãozinho de sua governanta bebendo água de u m copo em cima da mesa. Tão iludidos quanto Édipo, inúmeros psicanalistas passaram a tratar fóbicos, depressivos, portadores de ansiedades graves, adictos, pessoas com distúrbios de personalidade e até esquizofrênicos buscando a cura pelo insight através de análises até seis vezes por semana e interpretações exaustivas. Passavam-se meses e até anos. As interpretações pareciam corretas. Os pacientes chegavam até a verbalizar para amigos e familiares quais eram seus principais complexos inconscientes, mas a cura não vinha. Tudo era explicado pela

resistência, nada pelo erro na teoria. Como Édipo, pacientes e analistas afundaram na patologia e na compulsão de repetição, e a Esfinge acumulou cada vez mais vitórias. Até hoje, a Psicanálise não ampliou a sua técnica de el aboração simbólica para ultrapassar a interpretação exclusivamente verbal e empregar qualquer uma das inúmeras técnicas expressivas não verbais utilizadas fartamente na Ps icologia Analítica e em inúmeras outras escolas de psicoterapia.

Os gregos chamavam a onipotência de hybris, a arrogâncias dos homens que perdiam a justa medida e desagradavam aos deuses, sendo por isso castigados. A hybris de Édipo, do Iluminismo, da Psicanálise e da ilusão mágica do poder da palavra é arquetípica. De fato, o cogito cartesiano é vivenciado pela criança na própria aquisição da palavra: “falo, logo sou”. No entanto, é entre escorregões e quedas que ela aprenderá que é através das experiências da vida que “o Verbo se encarna”.

O enigma da Esfinge refere-se ao tempo e às etapas da vida. Como a genialidade de Freud descobriu e Édipo tragicamente aprendeu, é o processo de desenvolvimento existencial através das vivências que formam a Cons ciência, e não o contrário. Se Édipo houvesse compreendido o enigma que decifrou também na dimensão existencial e não apenas intelectual, talvez tivesse examinado melhor sua infância e a relação com seus pais em Corinto e descoberto a história real do seu processo existencial. Ao decifrar a Esfinge somente no nível intelectual e sentir-se onipotentemente conhecedor da verdade, Édipo teve que pagar o preço da tragédia para descobrir sua verdade existencial. Infelizmente, a Psicanálise está tendo que pagar a onipotência da i nterpretação racional com mais de um século de frustrações.

Precisamos lembrar sempre e de novo que Freud e Jung analisaram mutuamente alguns dos seus sonhos, mas que ambos nunca foram analisados. É de se esperar então que, apesar da genialidade dos dois, muitas de suas teorias apresentem defesas atuadas como racionalizações. Dentre essas defesas, podemos perceber a resistência em incluir as descobertas um do outro. Pela criatividade extraordinária deles, estas formulações teóricas podem conter grandes descobertas, mas, ao mesmo tempo, operam em seus processos existenciais como grandes defesas, exatamente como aconteceu com Édipo. O maior sintoma da atuação de suas defesas, no que diz respeito à relação entre eles, foi para mim a sua separação abrupta, em plena associação extraordinariamente criativa, sem nenhuma elaboração emocional e qualquer integração das suas diferenças. Perderam eles, por certo, mas, por serem os pilares da psicologia dinâ mica, sua separação traumática afetou o campo da Psicologia de maneira fundamental. Ficaram polarizados no estudo do inconsciente pessoal e coletivo. Assim, não percebe ram que a separação entre pessoal e arquetípico nem sempre existe, uma vez que a dimensão pessoal tem fundamentação arquetípica, a começar pelos símbolos do pai, da mãe e da criança bem como por todas as defesas descritas por Freud para formar o inconsciente pessoal. Por isso, devemos evitar acreditar que cada uma das teorias seja auto-suficiente e possa se desvincular das posições teóricas da outra, pois, quando assim fazemos, perpetuamos as limitações dos dois gênios e paralisamos a Psicologia nas suas fixações. São con gressos como este que nos ajudam a perceber e a buscar ultrapassar as cisões e lacunas por eles deixadas.

A meu ver, a principal conseqüência teórica da elab oração insuficiente do complexo parental de Freud foi sua descrição do Complexo de Édipo, genialmente descoberto em si mesmo, como normal e existente em todas as crianças. Qualquer analista principiante não teria a menor dificuldade em perceber a racionalização se alguém lhe dissesse que tem um problema, mas que todas as crianças nascem com ele. Essa racionalização confundiu extraordinariamente o normal com o patológico e toda a teoria do desenvolvimento da personalidade, ao postular que toda criança nasce perverso-polimorfa e precisa ser reprimida para sublimar seu Complexo de Édipo, formar seu Superego e civilizar-se.

Este enfoque é muito diferente do enfoque arquetípico, que percebe a função estruturante do complexo parental com infinitas vivências de relacionamento entre cônjuges, pais e filhos, que, quando fixadas, podem originar o Complexo de Édipo, que Freud observou em si próprio.

Ao abandonarmos a teoria do perverso-polimorfo, percebemos que, da mesma forma que a monstruosidade da Esfinge, esta denominação expressa o preconceito da dominância patriarcal sobre o matriarcal, identificada com o desejo parricida e perverso. No entanto, se admitirmos com Erich Neumann que a primeira infânci a é dominada pelo Arquétipo Matriarcal e que, a criança, assim como a cultura, ao passar para a segunda infância entra na dominância patriarcal, devemos teorizar como iss o se faz sem a sublimação do perverso-polimorfo para formar o Superego. De fato, é forçoso admitir que a dominância matriarcal na primeira infância ocorre em meio a todas as fantasi as possíveis, que incluem as tendências incestuosas e parricidas. No entanto, quando a criança passa pela educação esfincteriana, a aquisição da fala e a socialização, sob a hegemonia patriarcal implantada com a aquisição do tabu de incesto, da lei e da organização social, é necessário separarmos as transformações que trazem a sócio-sintonia e as fixações que as impedem e que geram distúrbios do complexo parental, como aquelas prese ntes no Complexo de Édipo. Quando imputamos à criança o dinamismo perverso-polimorfo e edipiano já ao nascer, patologizamos seu Id a priori e criamos grandes problemas teóricos e práticos para perceber a anormalidade inerente às fixações e defesas durante o processo de desenvolvimento de dominância matriarcal e da sua passagem para a domi nância patriarcal. Quando assim fazemos, reduzimos o Arquétipo Matriarcal e o identificamos com o desejo imaturo e desregrado e também criamos enormes dificuldades para conceber o funcionamento exuberante e criativo do dinamismo matriarcal durante o funcionamento da dominância patriarcal na segunda infância e no resto da vida. Como tenho buscado demonstrar, a partir da adolescência os arquétipos da Anima e do Animus passam a operar dentro do Arquétipo da Alteridade, que conjuga a interação dialética do Arquétipo Matriarcal, com o desejo e a sensualidade, e do Arquétipo Patriarcal, com a organização e a lei.

A dificuldade de Freud perceber o Complexo de Édipocomo uma variedade patológica das inúmeras características do complexo parental i mpediu-lhe de ver o complexo parental como a primeira e principal imagem arquetípica das incontáveis polaridades que permearão a elaboração simbólica de todo o processo de individuação no decorrer da infância, da maturidade e da velhice, como indicava o enigma da Esfinge.

Podemos dizer que, se de sua parte, Freud atuou o lado senex do complexo paterno, fixado no Complexo de Édipo, Jung, por sua vez, atuou o lado puer na mesma fixação. É fato conhecido como a relação de Jung com seu pai foi problemática desde o início da vida, sobretudo em relação à posição dogmática da sua rel igiosidade. A esse respeito, a visão de Jung, na entrada de sua adolescência, é muito ilust rativa de seu complexo paterno negativo.

Um dia, ao voltar da escola para casa, Jung teve uma visão de Deus defecando e espatifando a Catedral da Basiléia. Esta visão, que muito o abalou, foi por ele e por muitos junguianos interpretada como sua revolta contra a religião dogmatizada na busca do Deus vivo, que caracterizou sua religiosidade. Ao associarmos a Catedral da Basiléia com o símbolo maior do Protestantismo, do qual seu pai era ministro, e pensarmos que Jung estava entrando na puberdade, é inevitável relacion armos sua visão com um complexo paterno intensamente negativo, que provavelmente se constelou na relação com Freud. “Eu o considerava uma personalidade superior, na qual projetava a imagem do pai” (Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões ).

A maior resistência da Psicanálise à teoria junguia na centralizou-se, a meu ver, no conceito de arquétipo. No entanto, nenhum psicanalista nega que as funções psíquicas como a projeção, a introjeção, a identificação e to das as funções descritas como mecanismos de defesa, como a repressão, a formação reativa, a transferência, a resistência e a compulsão de repetição inexistam em algum ser h umano ou em qualquer cultura isto é, que elas sejam arquetípicas. De fato, o conceito de inconsciente coletivo e de arquétipo é não só compatível como subjacente à teoria psicanalítica. Caso essas estruturas fossem aceitas como arquetípicas, seria muito mais fácil v ê-las operando ora na normalidade e sem fixações, ora defensivamente, com fixações, o que a s caracterizaria como funções estruturantes arquetípicas. Nesse caso, elas operariam normalmente na Consciência, como funções estruturantes não fixadas, ou no inconscien te reprimido, como funções estruturantes fixadas e defensivas, reunindo as duas obras em torno da transferência. Quando lemos a Psicologia da Transferência, de Jung, e a comparamos à transferência neurótica, descrita por Freud, achamos, à primeira vista, que uma não t em nada a ver com a outra. No entanto, se as reunirmos como funções estruturantes arquetípicas, a de Jung, criativa, e a de Freud, defensiva, percebemos claramente que as duas se complementam extraordinariamente bem para explicar o relacionamento humano normal e patológico: a transferência criativa de Jung, aplicada à busca do desenvolvimento pleno na Individuação, e a transferência defensiva de Freud, aplicada à fixação e à projeção das defesas.

Da mesma forma, a percepção arquetípica da cena primária, do complexo de castração e da compulsão de repetição também podem expandir s eu valioso conteúdo para o contexto existencial individual e coletivo e sair do redutivismo dentro do qual costumam ser empregados.

A reação teórica de Jung à ruptura também foi muito significativa, a começar por haver descrito o funcionamento dos arquétipos e todo o processo de individuação somente na segunda metade da vida, sem ter nada a ver com a formação do Ego. Coube aos seguidores de Jung, como Jolande Jacobi, Michael Fordham e Erich Neumann descrever a formação do Ego a partir dos arquétipos e o processo de individuação desde o início da vida. A falta de percepção de Jung para a formação arquetípica do Ego antes dos seus seguidores aparece, assim, como uma possível reação fóbica à obra de Freud.

Outra grande limitação da Escola Junguiana me parece ser o problema da formação e da natureza da Sombra, oriundo da relutância em inc orporar a genial descoberta de Freud da fixação e da formação das defesas. Nesse sentido, a teoria dos complexos da Psicologia Analítica ficou muito aquém da teoria das defesas da Psicanálise para descrever a Sombra e o Mal na Psique. Tivesse Jung empregado a noção de fixação e de defesa à sua teoria dos complexos, não teria reduzido a Sombra ao mesmo sex o do Ego e os símbolos do sexo oposto aos Arquétipos da Anima e do Animus. Essa relutância tem a pertinácia das defesas de cunho emocional e limitou muito a psicopatologia e o estudo da ética na Psicologia Analítica e a própria interpretação de Jung dos fenômenos históricos e, sobretudo, do Cristianismo.

Apesar de a Psicanálise ter, freqüentemente, confun dido o normal e o patológico, a começar pela descrição do Complexo de Édipo e da recomendação de sua repressão para sublimá-lo e formar o Superego, o conceito de fixação aliado ao de defesa, sobretudo ao da resistência e da compulsão de repetição, são contri buições centrais arquetípicas para a formulação da psicopatologia psicodinâmica, ou seja , daquela que considera a importância dos processos inconscientes. Ao não incorporá-las s istematicamente na formação da Sombra, a Escola Junguiana freqüentemente reduz a S ombra ao que é incompatível com a Persona e a Consciência com o mesmo gênero do Ego. Essa perspectiva, no entanto, presta-se a enorme confusão teórica quando se interpreta símbolos valiosos da Sombra, caso em que ela é tida como positiva, em contraposição a situações em que ela é julgada negativa ou destrutiva. Quando levamos em conta o fenômeno da fixação na formação das defesas, da compulsão de repetição, da resistência e da Sombra, isso não faz o menor sentido, posto que todos os símbolos e funções fixados na Sombra têm valor, são bissexuais e necessários ao processo de individuação. O mesmo acontece na concepção da ética e do Mal, que Jung tanto valorizou, mas que, ao deixar de lado os conceitos de fixação e de defesa, tornou-os, em muitos casos imprecisos e confusos. Assim, Jung formulou muitas vezes a ética, situando-a em função do processo de individuação, mas sem precisar suas disfunções e como se forma o Mal. No seu livro Aion chegou mesmo a falar do Mal Absoluto, mas sem fundamentá-lo cientificamente. Em meio a essa confusão conceitual , para enfatizar sua crença na existência do Mal, Jung empreendeu uma verdadeira c ruzada contra a Doutrina do Summum Bonum da Teologia Católica, que afirma Deus ser bom e o Mal ser a Sua privação (privatio boni). Ora, quando admitimos a Sombra como o Mal, originada nas fixações da elaboração simbólica, vemos claramente que ela não está nem no arquétipo nem no genoma ao nascer, e sim, que ela se forma como uma fixação do arquétipo (Privatio Boni) durante o desenvolvimento. Nesse caso, o Arquétipo Central, que dá origem à imagem de totalidade expressa pelo conceito de Deus nas religiões, tem o potencial para a realização plena (Summum Bonum) e é a sua disfunção durante a elaboração que gera a Sombra e o Mal.

Outra conseqüência séria na obra de Jung pela falta de adotar o conceito de fixação e de defesa, apesar de ele tê-los conhecido fartament e com Freud, foi a sua dificuldade de assinalar e diferenciar claramente os aspectos positivos e negativos nos fenômenos culturais, aproveitados com má-fé, por exemplo, por aqueles que quiseram vingativamente desqualificar Jung com a pecha de anti-semitismo por haver deixado a Psicanálise. Esta limitação custou caro a Jung em muitos mal-entendidos graves, como foi, por exemplo, sua interpretação arquetípica do Nazismo através da imagem arquetípica guerreira de Wotan. Não há dúvida que ela existiu dentro do militarismo tradicional da Alemanha, mas deixar de computar junto com essa imagem a terrível fixação psicopática histérica que caracterizou a personalidade de Hitler e o Nacional Socialismo deu margem a que ele fosse injustamente massacrado com a acusação de anti-semitismo e de simpatizante do Nazismo.

A interpretação do Cristianismo, junto com sua crítica e apologia, foi um tema precioso, tratado extensamente por Jung durante sua obra. A falta do emprego das diferenças entre as funções psíquicas não fixadas e fixadas, mais um a vez prejudicou muito suas ponderações, porque considerou como uma coisa só e não diferenciou entre a pujança criativa do Mito original e a patriarcalização fixada e defensiva do Mito durante sua institucionalização, que tanto o deformou a ponto de a Igreja criar a Inquisição, que torturou e assassinou em nome do Messias da compaixão. Tives se Jung acolhido e empregado os conceitos de fixação e de defesa descobertos por Freud, teria certamente analisado melhor os inúmeros temas culturais que abordou, inclusive sua divergência básica com seu pai, localizada entre a posição dogmática, estagnada, fi xada e defensiva da instituição e a posição mística viva e pujante do Mito, ambos como expressões do Cristianismo.

Quero parabenizar os idealizadores deste Congresso e agradecer mais uma vez o gentil convite para dele participar, pois este caminho do diálogo institucional pelos seguidores dos dois grandes pioneiros, incluindo a valiosa obra de um seguidor de Freud tão importante quanto Lacan, é sem dúvida a maneira de prestigiarmos a sua criatividade, empregando suas próprias conceituações e descobertas para fertilizar mutuamente a Psicologia naquilo que suas limitações pessoais e emocionais não deixaram reunir.

Referências Bibliográficas:

BYINGTON, Carlos A. B. (1965). “Genuineness as Duality in Unity“. Tese de Diploma de Analista no Instituto C.G. Jung, Zurich, 1965.

 

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ENGELS, Friedrich (1884). A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

 

FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação dos Sonhos.          Obras Completas. Rio de Janeiro:

 

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KERÉNYI, Carl (1959).The Heroes of the Greeks. London: Thames & Hudson, 1959.

 

MORGAN, Lewis Henry (1877). Ancient Society. Chicago: Charles H. Kerr.

 

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É médico psiquiatra e analista junguiano. Nascido em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina. Especializou-se em Psiquiatria e Psicanálise, e, em 1965, graduou-se pelo Instituto Jung, em Zurique. Retornou ao Brasil e fundou, com outros colegas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, que já formou até 2005 noventa analistas, e a Sociedade Moitará, para o estudo de símbolos da cultura brasileira, mais tarde incorporada à SBPA. Foi presidente, diretor de ensino e há muitos anos é supervisor e coordenador de seminários na SBPA. Além de ministrar inúmeros cursos e palestras no Brasil e no exterior, ensinando e divulgando a obra de Jung, Carlos Byington desenvolveu conceitos próprios, que originaram a Psicologia Simbólica Junguiana.

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