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Homenagem à Mulher – Carlos Byington – 08/03/2018

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Queridas companheiras.

Presenteio vocês com minha admiração e amor no dia do seu aniversário…

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Palestra de Psicologia Simbólica Junguiana na comemoração do Dia Internacional da Mulher em 08.03.2018

O mito antecede e prevê a ciência. Foi na dimensão do Mito que Aristófanes, no Banquete de Platão, no ano de 380 AC, realizado na casa de Agatão, explicou a natureza do amor entre o homem e a mulher:

“No princípio havia três gêneros. O homem, a mulher e o andrógino, formado pelo corpo do homem e da mulher. Ele tinha um único crânio, mas quatro orelhas, as partes genitais de um e do outro, quatro braços e quatro pernas e todo o resto. O homem do andrógino era originário do sol, a mulher da terra e o andrógino da lua.”

“O andrógino deslocava-se rolando. Atingia grande velocidade e daí provinha sua temível força e vigor. Ele teve pensamentos soberbos e imaginou subir aos céus e atacar os deuses. Zeus e os outros deuses não quiseram matá-lo, pois isso exterminaria sua raça. Júpiter meditou penosamente e no final, decidiu cortar o andrógino em dois. Ordenou a Apolo que lhe voltasse o rosto, puxou os lados do que se chama ventre e o apertou à volta do que se chama umbigo”.

“Cada metade procurava a outra, mas sem ela, morria de preguiça. Compadecido, Zeus colocou o sexo dos dois na frente para que se unissem para a fecundação e consagração do amor”.

“Os que já eram homem e mulher junto com o andrógino se buscavam como iguais, mas não precisavam do encontro tanto quanto o andrógino. O homem e a mulher resultantes do andrógino dividido, desde então, se reúnem para o sexo, mas sem ele, ficam querendo estar juntos permanentemente. Esse desejo se chama amor. Ele refaz a união primária do andrógino e reúne o homem e a mulher durante a vida e após a morte no Hades, para todo o sempre. Essa reunião deve ser devotada a Eros, pois ela traz a restituição de nossa natureza original que nos proporciona felicidade e alegria.”

Vinte e seis séculos depois, a ciência pode ratificar a natureza simbólica do mito. Ao conceituar a teoria da evolução, ela descobriu que durante os primeiros dois bilhões de anos do início da vida, os seres vivos não tinham sexualidade e se reproduziam como o andrógino (partenogênese), o que tornava a evolução muito lenta. Há dois bilhões de anos, separaram-se os gêneros, surgiu a sexualidade o que acelerou a evolução. Desde então, durante dois bilhões de anos, a evolução transformou as espécies com machos e fêmeas se fecundando das mais diferentes maneiras.

Histórias de Amor na Biologia





Observamos nessa pluralidade incontável das espécies formas de atração e fecundação as mais variadas possíveis, desde a maior promiscuidade à mais fiel monogamia. Há apenas dez milhões de anos, nosso cérebro cresceu e nos caracterizou como hominídeos. Nossa sexualidade começou a se estruturar como ela é hoje, com a produção de milhões de espermatozoides em cada ejaculação do homem e um único óvulo produzido em cada ciclo menstrual da mulher. É importante termos uma ideia da fecundação em outras espécies para percebermos as muitas formas de amor que o macho e a fêmea praticam entre si através dos tempos.

Em inúmeras espécies, o macho e a fêmea não se encontram nem para a fecundação, mas a compulsão genética instintiva faz com que suas células gonádicas se encontrem em circunstâncias extraordinárias para realizá-la. Os exemplos são os mais variados possíveis.

O caso do salmão de água salgada é emblemático para a fecundação e a desova. Sem sequer se conhecerem, sua fecundação é determinada geneticamente e seguida dramaticamente com a morte. O salmão nasce na cabeceira dos rios de água doce, onde permanece por 18 meses, quando então desce para o mar, se transforma biologicamente, se capacita a viver na água salgada e nela fica por aproximadamente quatro anos. Durante esse período, ele cresce e nada até milhares de quilômetros para longe de casa. Quando completa quatro anos e está pronto para o amor, ele volta à cabeceira dos rios onde nasceu utilizando um tipo de “sensor interno” que se orienta pelo campo magnético da terra. Ao encontrar o rio onde nasceu ele sobe o rio contra a corrente, orientado por sua memória olfativa. As fêmeas desovam e os machos cobrem seus óvulos com seu esperma. As fêmeas vigiam os ovos fecundados até suas energias se esgotarem e elas morrerem. Os machos continuam fecundando os óvulos de outras fêmeas até também morrerem de exaustão.

Imaginem, como outro exemplo de história de amor, o encontro dos crocodilos. Eles são os maiores répteis do Planeta. Têm 70-80 dentes e vivem de 70 a 100 anos. São ovíparos, de forma interna, o que quer dizer que o macho coloca os espermatozoides dentro da fêmea e os óvulos são aí fecundados. Eles atingem a puberdade aos 10 anos. Os machos fazem ruídos graves, batem o focinho na água e lutam ferozmente entre si. Durante a corte, o macho e a fêmea esfregam um no outro a parte de baixo do papo para se acariciarem. A fêmea incuba de 25 a 50 ovos durante dois meses. Ela põe os ovos num buraco qualquer e os pais ficam por perto vigilantes durante três meses. Quando os filhotes começam a gritar dentro dos ovos, a mãe morde os ovos, que são do tamanho de um ovo de galinha, e eles saem. Se a temperatura da incubação ficar abaixo de 31,7º, só nascem fêmeas.

Imaginem, agora, outra história de amor. A ova de um peixe fêmea com milhões de óvulos é deixada na superfície do mar. Ela atrai a ova de um peixe macho com milhões de espermatozoides que são desovados sobre ela. Apesar da sua grande atração, os amantes jamais se conhecerão, mas, assim mesmo, serão pais de milhões de peixes que povoarão os mares e também nunca os conhecerão. No entanto, sua desova vem se encontrando e se fecundando por uma atração geneticamente programada, há muitos milhões de anos. Essa relação amorosa extraordinariamente variável entre macho e fêmea, vem acontecendo há dois bilhões de anos e é dentro dessa evolução que quero compreender melhor a relação de amor entre o homem e a mulher na nossa espécie.

Um casamento interessante é o do pássaro Lotus (Jacana Pente com Crista) que vive na Austrália, no meio da cultura dos indígenas australianos Gagudjú. A fêmea é fecundada, põe quatro ovos e vai buscar outro parceiro. O macho choca os ovos e quando os filhotes nascem ele os cria até saberem voar.

Outra relação extraordinária de amor é o dos cavalos marinhos. A fêmea é atraída pelos machos grandes e de corpo manchado. Os cavalos marinhos não têm estômago e, por isso, se alimentam de 30 a 50 vezes por dia. Antes do casamento, cada um vive no seu espaço. Saem para namorar, uma hora por dia, fazendo danças circulares. No casamento, a fêmea coloca seus óvulos, que variam de 100 a 500, mas podem chegar a 1.500, dentro da bolsa incubadora do macho. Eles são monogâmicos.

Duas a quatro semanas depois, o macho pare em contrações que duram até 12 horas. Durante 2 a 3 semanas os filhotes vivem no plâncton. Somente 5% sobrevivem.

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Nossa Grande Diferença

Nossa grande diferença com as demais espécies é nosso nascimento prematuro e a grande influência que, por isso, a cultura passa a ter sobre nós.

Segundo o antropólogo Adolf Portman (1947), citado por Neumann (1955), nossa gravidez deveria durar um ano a mais. Possivelmente devido à bipedestração, nascemos precocemente em uma gestação de nove meses. Dessa maneira, Portman considera nosso primeiro ano de vida uma gravidez social. Isso faz com que recebamos uma influência enorme da cultura que compete com a conduta instintiva automática coordenada pelo DNA. Prova dessa imaturidade ao nascer é que os quadrúpedes se põem de pé e andam logo após o nascimento e nós demoramos quase um ano para fazê-lo. Assim sendo, a cultura e a história tem um papel especial e único na formação da nossa identidade, muito maior que em qualquer outra espécie. Exatamente por sermos subordinados socialmente já no primeiro ano de vida, nossa espécie adquire por simbiose uma grande dependência da cultura. Nossa independência do DNA é relativa, pois os arquétipos também coordenam o desenvolvimento cultural. Essa independência relativa gerou uma enorme variação de comportamento entre o homem e a mulher, geralmente imaginada e exercida pelo homem, desde as formas mais sublimes de amor até as mais terríveis e cruéis de dominação.

Foi uma surpresa quando descobrimos que tudo no universo é formado por átomos comuns às estrelas, inclusive o nosso corpo. Outra surpresa igualmente extraordinária foi a descoberta do DNA de cromossomos e genes comuns à toda matéria viva. Podemos assim acompanhar a história da vida neste universo tendo como denominador comum o DNA e os genes que caminharam em direção à criação de nossa espécie. Temos 10 trilhões de células em nosso corpo e 100 bilhões de neurônios em nosso sistema nervoso, responsáveis pela formação de nossa Consciência. É esse dom espetacular que nos permitiu tantas culturas diferentes durante a história e também a capacidade de tentar compreender a nossa identidade junto com a identidade da natureza ao nosso redor.

Durante a evolução, a vida foi se diversificando. Os períodos de transformação do Planeta serviram para assinalar o aparecimento de novas categorias de seres. Suas subdivisões nos ajudam a compreender as direções diversas tomadas pelas transformações. Estas categorias são: filo (mineral, vegetal e animal), subfilo, classe, ordem, família, gênero e espécie.

Há 600 milhões de anos o domínio ancestral das algas azuis-verdes foi rompido e outras formas de vida surgiram. Foi a explosão Cambriana, assim chamada porque os fósseis dessa época foram encontrados na Galia (Cambria) pela primeira vez. Há 500 milhões de anos surgiram as trilobitas, pequenos anfíbios que viviam nos oceanos. Eles eram incríveis porque enxergavam com olhos feitos por cristais. A evolução acelerou e surgiram os peixes e os peixes vertebrados; as plantas vieram para a terra e surgiram os insetos. Seguiram-se as árvores e os dinossauros, há 140 milhões de anos. Vieram então os mamíferos, os primeiros pássaros e as flores. Todos sexualizados e vivendo para buscar o amor. Os dinossauros foram extintos há 80 milhões de anos e surgiram os primeiros cetáceos, ancestrais das baleias e golfinhos. Nesse mesmo período apareceram os primatas, ancestrais dos gorilas, dos chimpanzés e dos orangotangos. Há 10 milhões de anos apareceram as criaturas pré-humanas com um aumento considerável do cérebro e somente há alguns poucos milhões de anos surgiram os hominídeos.

O estudo genético cada vez mais aprimorado nos levou hoje a uma biologia molecular que aprofundou o conhecimento da evolução e nos permitiu concluir que a espécie Homo Habilis existiu de 2,3 milhões há 1,3 milhões de anos atrás; o Homo Erectus, de 2 milhões há 300 mil anos atrás; o Homo Neandertalense, de 200 há 300 mil até há 29 mil anos atrás; e, finalmente, o Homo Sapiens, há 150 mil anos (Watson, 2003).

Esta arqueologia, baseada na análise molecular mitocondrial, permite-nos saber também que o Homo Erectus saiu da África em duas grandes migrações. Uma, há 700 mil anos, deu origem ao Homo Neandertalense, na Europa. A outra, formada pelo Homo Sapiens, chegou à Europa por volta de 39 mil anos a 50 mil anos e foi seguida pelo desaparecimento do Homo Neandertalense, há 29 mil anos.

Para compreender as características da criatura Homo Sapiens que vemos no resultado recente da evolução, seguindo Darwin e a Palioantropologia, devemos considerar o surgimento de quatro características, de acordo com Landau (1991).

1- Terrestrialização – a passagem das árvores para a terra.

2- Bipedestrialismo – a aquisição da postura ereta.

3- Encefalização – o desenvolvimento do cérebro, da inteligência e da linguagem.

4- Civilização – o desenvolvimento da tecnologia, da moral e da sociedade.

Nossa tendência cultural foi se identificar com as últimas fases da evolução e renegar as características das fases anteriores, deixando-as para trás, mas isso não é assim.

A descoberta dos processos inconscientes e emocionais durante o século XIX, porém, e a certeza cada vez mais convincente de que neles estão as raízes da formação da Consciência, e de uma inteligência sensual que engloba o homem e a mulher dentro da natureza da inteligência insular matriarcal.

Em minha Teoria Arquetípica da História procurei demonstrar três temas principais. O primeiro é que o mito é uma função estruturante que surge da fantasia sobre lendas ou fatos históricos e que a seguir estrutura simbolicamente a Consciência Coletiva durante longos períodos da história.

O segundo tema, dentro da perspectiva histórica e arquetípica, é a evolução da Consciência Coletiva da humanidade, coordenada dominantemente, durante 180 mil anos, pela posição insular matriarcal e que, desde o assentamento dos povos foi, há aproximadamente 10 mil anos, progressivamente estruturada pela posição polarizada patriarcal para a organização política e social do planeta.

No terceiro tema, procurei demonstrar que há mais de dois milênios, com a força dos Mitos do Buda e do Cristo, vem se implantando no Self Cultural e Planetário a posição dialética de Alteridade com os Arquétipos da Anima e do Animus (Byington, 2008) que englobam os arquétipos Matriarcal e Patriarcal.

Dessa maneira, na perspectiva da evolução descrita por Darwin e Wallace, podemos perceber a implantação da humanização de Chardin e o processo de individuação de Jung.  De acordo com a teoria do cérebro triuno de Paul McLean (1990), o polo frontal do nosso cérebro (pensamento) é inseparável da função emocional (cérebro límbico) e da função orgânica (cérebro reptiliano). Por isso, precisamos considerar o amor uma função existencial que expressa tudo o que existe no Ser humano, inclusive razão, corpo e emoção.

A percepção dessa evolução dentro da perspectiva arquetípica nos permite ver a aquisição crescente da inteligência racional característica do polo frontal linguístico, geralmente o esquerdo, sem desligá-la da inteligência emocional característica do cérebro límbico, e da inteligência física característica do cérebro reptiliano (Paul McLean, 1990), relacionadas dialeticamente para construir a identidade única e profunda de cada pessoa e de cada cultura dentro da inteligência dialética da alteridade e, por conseguinte, também da relação homem-mulher.

A evolução nos permite situar nossa espécie durante a transformação de todas as outras, mas para irmos além e compreendermos a relação de amor do homem e da mulher precisamos conhecer o seu relacionamento dentro da teoria arquetípica da história. Esse período abrange desde a mutação que nos deu origem há 200 mil anos (Sagan 1980) até hoje. Usarei essa duração ao invés daquela de cento e cinquenta mil anos, proposta por Watson (2003), dentro da teoria da biologia molecular.

Se nossa espécie tem 200 mil anos, durante mais de cento e oitenta mil anos fomos povos nômades, caçadores/coletores. Harari (2011) em seu livro Sapiens, descreve o conhecimento e a riqueza dessas culturas nômades, que expressaram individualmente, de geração em geração, o conhecimento adquirido, pois todos necessitavam desse conhecimento para viver e sobreviver. Dessa maneira, segundo Harari, um nômade pré-histórico era muito mais culto que um operário da civilização industrializada, que desconhece a fabricação e o funcionamento de noventa por cento das coisas que utiliza. Dentro dessa perspectiva arquetípica, os povos nômades não eram tão diferentes de nós porque seu Self cultural era essencialmente coordenado dia e noite pela função estruturante da alimentação para sobreviver. Assim, podemos dizer que sua consciência coletiva era coordenada basicamente pela posição insular do Arquétipo Matriarcal, que é a expressão arquetípica da sensualidade e que continua coordenando a elaboração de muitos símbolos do nosso Self.

Imaginando a relação sexual amorosa entre o homem e a mulher dentro dos povos nômades, o estupro possivelmente foi algo habitual dentro dos grupos caçadores-coletores. Devido à maior força física do homem, seu desejo sexual provavelmente foi habitualmente imposto à mulher. É difícil dizer quanto a mulher se sentia violentada com essa conduta, pois sua sexualidade, sua excitação e o seu orgasmo talvez fossem muito mais prazerosos que na família patriarcal da fase seguinte, quando ela era “protegida” pelas leis do casamento. Certamente, na pré-história, ela nunca foi submetida à cliterotomia para não ter orgasmo e nem pertence a uma família controlada pelo “pátrio poder”.

Entre 10 e 20 mil anos atrás, aprendemos a domesticar animais e a plantar. Foi a revolução agropastoril. Deixamos de ser povos nômades e passamos a ser povos assentados. Esta nova forma de viver, mudou o paradigma arquetípico da história e da relação amorosa. Na fase anterior, o arquétipo dominante era o arquétipo matriarcal coordenador da sensualidade e da alimentação. Após o assentamento, a vida social passou a ser o problema central da civilização e, devido a isso, o Arquétipo Patriarcal se tornou dominante. Sua base de organização social foi a família patriarcal regulada pela proibição do incesto, pelos papéis sociais conjugais e parentais do homem e da mulher, pela propriedade privada, pelas leis da herança, pelo capitalismo e a seguir pela estruturação das classes sociais, que deram origem ao Estado (Engels, 1884).

A família patriarcal foi a base da organização social do planeta na maioria das culturas nos últimos 10 mil anos e codificou de maneiras variadas a relação entre o homem e a mulher. A função estruturante do amor foi submetida à organização patriarcal muito variada.

O arquétipo patriarcal organiza as polaridades em função do poder, e, por isso, é hierárquica, ou seja, um polo tem primazia sobre o outro e sua organização é desigual.

Durante a dominância matriarcal, a maior força do homem, dominou fisicamente a relação com a mulher. Durante a dominância patriarcal esse domínio passou a ser exercido pelos papeis sociais, pelos costumes e, com o tempo, pelas leis. Assim é que a organização pela família patriarcal determinou a identidade pelos papeis clássicos da mulher do lar, criando os filhos e cuidando das atividades domésticas e do homem comandando o lar e as demais atividades sociais.

No que diz respeito ao amor, a diferença da dominância matriarcal para a patriarcal foi enorme, desde a determinação do papel social dos cônjuges até a sua escolha frequentemente determinada pelas famílias quando eles ainda são crianças. A monogamia predominou, mas a poligamia com mais de uma mulher (poliginia) também existe. A sexualidade foi sempre uma função poderosa e, por isso, foi alvo de muita vigilância e controle dentro da organização patriarcal. A fidelidade da mulher devia ser absoluta dentro do casamento e o seu adultério sujeito a punições terríveis, como por exemplo, o apedrejamento no Velho Testamento.

O domínio e a opressão da mulher pelo homem, na família patriarcal, durante os últimos 10 mil anos foi estereotipado pela rígida coordenação do papel social dela no lar. Esse controle atingiu níveis grotescos de opressão e crueldade. Basta citar como exemplo, cento e sessenta milhões de mulheres cliterotomizadas para não ter prazer sexual e manter a organização da família, vivendo hoje na África e no Oriente Médio.

A dominância patriarcal pela coordenação abstrata da relação Ego-Outro se tornou sistêmica (todo o Self), individual, cultural e planetária e permitiu nos diferenciarmos das demais espécies, organizando e dominando o planeta. O reflexo desse domínio caracterizou o Antropoceno (Era centrada no Ser humano) e teve consequências terríveis – incluindo as guerras -, para os povos dominados e as minorias, inclusive a mulher.

Esse poderio hierárquico para controlar a organização social patriarcal, que criou as elites sociais e econômicas nas culturas, mostrou-se extraordinariamente desumana nos conflitos sociais e, sobretudo, nas guerras. A tecnologia crescente e o armamento cada vez mais mortífero propiciaram há mais de dois mil anos, a escravidão de Israel pelo Império Romano. Israel representava uma tradição gloriosa militar e cultural do “povo do livro” e Roma, era o maior império do Planeta. Israel devido à sua refinada dominância patriarcal, não podia se submeter à escravidão, mas a rebelião significava genocídio.

Nessa tensão patriarcal do Self Cultural ameaçado de destruição, ativaram-se  no Self cultural de Israel, dois grandes arquétipos do herói messiânico. Representando a maioria, o Arquétipo do Herói guerreiro patriarcal com a imagem gloriosa de David. Representando a minoria, o Arquétipo do Herói messiânico da compaixão e do amor, que foi sacrificado, mas depois do genocídio dominou o Self cultural de Roma pelo símbolo da cruz e da ressurreição.

Assim aconteceu que há dois mil e quinhentos anos na Índia e há dois mil anos no

Ocidente ativou-se o Arquétipo do Herói messiânico da compaixão e da alteridade. Ao invés da hierarquia da relação dos opostos pelo poder caracterizado pela organização patriarcal parricida-filicida, começou a implantação de uma nova etapa arquetípica da relação quaternária dialética entre o Ego e o Outro pela compaixão na relação Pai, Filho e Espírito Santo da Santíssima Trindade, que englobou os Arquétipos da Anima e do Animus descritos por Jung no processo de individuação.

Convertido o Imperador Constantino, cessaram as perseguições aos cristãos e abriu-se o processo de conversão do Império Romano e da cultura ocidental. O arquétipo da fé religiosa e da compaixão no amor venceu o arquétipo da luta guerreira.

No entanto, a pujança do Arquétipo Patriarcal é enorme e, baseado na tradição governamental de Roma, avançou sobre a organização católica e em pouco tempo iniciou a opressão e a perseguição dos que inovavam e foram considerados hereges, criando o Santo Ofício e a Inquisição.

A mulher foi espiritual e politicamente engrandecida pela figura de Helena, mãe do Imperador Constantino, que havia se convertido ao Cristianismo em Israel e sido a inspiradora da conversão de seu filho e do Império Romano. Mas a repressão milenar patriarcal voltou à todo vapor!

O processo de repressão patriarcal da Inquisição dirigido em nome de Jesus contra o Demônio englobou a mulher, possuiu as emoções dela com a histeria e redobrou sua terrível submissão ao sadismo machista com a tortura e a fogueira, desta vez, reforçada até mesmo pela cooptação psicopática do Cristo. (Byington: Prefácio da tradução de O Martelo das Feiticeiras, 1484).

No entanto, apesar da repressão odiosa da Inquisição, a força da compaixão do mito foi progressivamente se impondo na cultura e alcançou a relação homem-mulher no século 12 com as canções de amor (Liebedienst) dos contos de cavalaria, nos quais o Arquétipo da Ternura começou a ser motivado além do Arquétipo do Sexo dentro do Arquétipo do Amor. O desenvolvimento do amor na alteridade deu início a literatura moderna com a Lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda.

O reconhecimento da ternura no amor modificou radicalmente a consideração da mulher como desejo sexual para uso social e liberou o amor para o encontro espiritual do homem e da mulher na sua missão civilizatória de implantação da alteridade e da sustentabilidade. Para desenvolver essa identidade, a mulher precisa resistir à tentação da regressão patriarcal e à competição com o homem, com os valores patriarcais cultivados por ele. Ela precisa enfatizar a importância da ternura na sua identidade e no seu relacionamento, e, assim, cultivar o grande tesouro que ela preservou, apesar de oprimida, dentro dos 10 mil anos da família patriarcal.

É a relação entre o homem e a mulher com o amor pleno, que comemoramos hoje. Como homem, homenageio a mulher como companheira no erotismo e na ternura na missão de implantar a alteridade no amor e salvar nossa espécie da Sombra patriarcal hierárquica social, econômica, política, ecológica e religiosa que nos ameaça de destruição.

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Referências Bibliográficas

BYINGTON, Carlos Amadeu Botelho (1991). Prefácio da tradução de O Martelo Das Feiticeiras (Malleus Malleficarum – 1484), de KRAMER, H. E Sprenger, J. Rio de Janeiro: Ed. Rosa dos Tempos, 1991, Pgs. 19-41.

ENGELS, Friederich (1884). A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Editora Civilização Brasileira, Rio De Janeiro, 1977.

HARARI, Yuval (2011). Sapiens: A Brief History of Humankind. New York: Harper & Collins Publishers, 2015.

LANDAU, Misia (1991). Narratives of Human Evolution. New Haven and London: Yale University Press, 1991.

MACLEAN, David Paul (1990). The Triune Brain in Evolution. New York: Plenum, 1990.

PLATÃO (380 AC). O banquete. Editor Francisco Lyon de Castro. Publicado por Copa-América, 1977.

PORTMANN, Adolf (1947). Das Tier als soziales Wesen in Eranos-Jahrbuch XVLL, 1947.

SAGAN, Carl (1980). Cosmos. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1992.

WATSON, James D. e BERRY, Andrew (2003). DNA – O Segredo da Vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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É médico psiquiatra e analista junguiano. Nascido em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina. Especializou-se em Psiquiatria e Psicanálise, e, em 1965, graduou-se pelo Instituto Jung, em Zurique. Retornou ao Brasil e fundou, com outros colegas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, que já formou até 2005 noventa analistas, e a Sociedade Moitará, para o estudo de símbolos da cultura brasileira, mais tarde incorporada à SBPA. Foi presidente, diretor de ensino e há muitos anos é supervisor e coordenador de seminários na SBPA. Além de ministrar inúmeros cursos e palestras no Brasil e no exterior, ensinando e divulgando a obra de Jung, Carlos Byington desenvolveu conceitos próprios, que originaram a Psicologia Simbólica Junguiana.

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