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Freud e Jung, sua Limitação com o Sagrado e o seu Complexo de Édipo

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Boa tarde a todos. É um prazer estar reunido hoje com vocês para homenagearmos os 50 anos da morte do nosso querido mestre Carl Gustav Jung. É difícil abordar tema tão vasto como “Jung e a Religião” em apenas 30 minutos, mas me esforçarei para fazê-lo. Como vocês que acompanham o meu pensamento sabem, descrevo a formação do Ego na Psicologia Simbólica Junguiana a partir de um quatérnio primário formado pelo complexo materno, pelo complexo paterno, pelo vínculo entre os pais e pelas ações e reações da criança. Assim sendo, não considero o complexo de Édipo normal e o percebo como uma fixação do quatérnio primário, ou seja, como parte da psicopatologia. Desta maneira, o Mito de Édipo é aqui percebido como um mito que representa uma relação disfuncional familiar que afeta patologicamente a formação do Ego da criança.

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Considero que o relacionamento de sete anos entre a genialidade de Freud e de Jung, que foi tão fértil para a criatividade de ambos, sofreu uma ruptura teórica quando Jung considerou a libido energia psíquica e não somente sexual. No entanto, essa discordância, que poderia ser de imensa valia para a Psicologia, não foi elaborada e nem sequer por eles abordada, porque depois desta separação teórica, eles nunca mais se falaram. Isso, a meu ver, revelou, na Sombra do seu relacionamento, um complexo patológico que foi constelado durante o convívio entre eles e terminou por romper a relação e impedir a elaboração dialética de suas diferenças teóricas. Isso explica, para mim, a natureza radical desse afastamento, o qual continuou na obra de muitos de seus seguidores e de suas escolas.

Freud e Jung, apesar de sua genialidade e de terem lançado as bases da Psicologia moderna, nunca fizeram uma terapia com elaboração de suas defesas conscientes e inconscientes dentro de uma relação transferencial, o que caracteriza a análise como a concebemos hoje, de acordo com os parâmetros por eles lançados. O complexo constelado na sua relação, e que acabou os afastando, parece-me ter sido um complexo de Édipo em suas personalidades, o qual não foi elaborado em uma terapia.

No que concerne a Freud, seu Complexo de Édipo foi descoberto genialmente por ele próprio, mas depois não foi elaborado. Suas principais defesas para não fazê-lo foram, a meu ver, a projeção e a racionalização. Ao afirmar que toda criança nasce com o Complexo de Édipo e, por isso, é um perverso polimorfo, Freud esquivou-se de caracterizar como o seu próprio complexo de Édipo havia se formado e como ele o havia elaborado. Foi como se dissesse: “eu tenho o complexo de Édipo e todas as crianças nascem com ele. Como eu mesmo o descobri na humanidade, eu sei que o tenho e, por conseguinte, já o elaborei.” O relacionamento e as rupturas com seus principais seguidores, como Adler, Jung e Steckel, por exemplo, não confirmam essa elaboração. A patologização tão frequente na Psicanálise, dentro da qual está a redução da religião à neurose pela idealização defensiva de Deus encobrindo o parricídio edípico, também não confirma essa elaboração. Seu complexo de Édipo mal elaborado e projetado na imagem de Deus parece-me ser a explicação para tal generalização.

Jung, por sua vez, me parece também não ter elaborado seu complexo de Édipo, o que afetou sua religiosidade devido à incompatibilidade entre sua religiosidade e a de seu pai. Ele escreve em suas Memórias:

Certa vez, folheando o catecismo em busca de algo diferente das explanações sentimentais, incompreensíveis e desinteressantes acerca do “Senhor Jesus”, deparei com o parágrafo referente à Trindade de Deus. Fiquei vivamente interessado: uma unidade que ao mesmo tempo é uma “trindade”! A contradição interna deste problema cativou-me. Esperei com impaciência o momento em que deveríamos [meu pai e eu] abordar essa questão. Quando chegamos a ela, porém, meu pai disse: “Chegamos agora à Trindade, mas vamos passar por alto este problema, pois, para dizer a verdade, não a compreendo de modo algum.” Por um lado, admirei sua sinceridade, mas por outro fiquei extremamente decepcionado e pensei: “Ah, então é assim! Eles nada sabem disso e não refletem! Como poderei abordar esses temas?” (p.58)

Em minha Teoria Arquetípica da História, concebi a ultrapassagem mitológica dos dez mil anos de dominância patriarcal na civilização pelo surgimento na história da constelação do Arquétipo da Alteridade pelo Mito de Buda, no Oriente, e pelo Mito Cristão, no Ocidente. De acordo com esta teoria, a civilização começou a implantar a posição dialética da alteridade na Consciência nos últimos dois milênios, e essa implantação caracteriza o caminho progressista das sociedades modernas. No entanto, a busca dialética de alteridade se faz ainda em meio à dominância patriarcal mais ou menos em muitas sociedades, inclusive patriarcalizando regressivamente o Cristianismo e o Budismo nas suas próprias instituições.

Ora, no Ocidente, a implantação da alteridade através do Mito Cristão descrito no Novo Testamento segue-se ao mito de dominância patriarcal formulado nas Tábuas da Lei do Velho Testamento. Além disso, como descrevi em muitas passagens de minha obra, o Mito Cristão sofreu uma imensa distorção pela patriarcalização defensiva ocorrida em sua institucionalização. Essa deformação criou uma gigantesca Sombra que culminou na oficialização da Inquisição, sancionando a denúncia anônima de heresia, seguida de tortura para o acusado confessar sua culpa e frequentemente pela pena de morte.

Assim sendo, mesmo após a ruptura da Universidade com a Igreja, a cultura ocidental continua a luta entre a dominância patriarcal e a implantação da alteridade. Foi essa luta entre esses dois gigantes aquetípicos que envolveu a relação religiosa de Carl Gustav com seu pai, o reverendo Jung. O símbolo da Trindade relatado na passagem acima é muito ilustrativo, pois é ele que caracteriza a relação dialética de alteridade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo no centro do Mito Cristão. É esta dialética dos opostos que permeia a Alquimia e será buscada por Jung em sua obra, e que seu pai diz que não compreende de modo algum.

No entanto, nesta mesma passagem, percebemos o complexo de Jung envolvendo sua relação com o Cristianismo, quando ele escreve: “Certa vez, folheando o catecismo em busca de algo diferente das explanações sentimentais, incompreensíveis e desinteressantes acerca do “Senhor Jesus” (…)” Vemos aqui claramente que, se o Reverendo Jung nada entende da Trindade, o seu filho Carl também tem dificuldade para entender a bondade de Jesus. Isto é importante porque seu complexo envolvendo a fixação de uma polaridade – neste caso, pai-filho (apesar de Freud inexplicavelmente não ter envolvido Laio e Jocasta na sua descrição do complexo de Édipo), sempre envolve os dois polos da polaridade.

O complexo de Édipo de Jung, que envolveu sua religiosidade e sua ambiguidade com relação ao Cristianismo, começa já com o sonho que teve com o falo subterrâneo aos 3 anos de idade. Nesse sonho, a voz de sua mãe associa o falo com o “Senhor Jesus”, que havia sido ligado pelas pessoas com o cadáver de um afogado no Rio Reno, como se Jesus levasse com ele os mortos para o além.

A segunda vivência de Jung, que marcou para sempre sua religiosidade, com relação ao Cristianismo e com seu pai, foi o episódio em que, um dia, aos 12 anos de idade, voltando do colégio viu a Catedral da Basileia, cuja beleza ele tanto admirava, e imaginou Deus sentado acima dela, em um trono de ouro, no céu. Nesse momento, Jung teve uma visão de Deus defecar sobre a Catedral e espatifá-la.

Durante dois dias, Jung apagou de sua mente o que vira, pois sabia que era uma blasfêmia terrível e imperdoável. No entanto, a imagem foi se tornando cada vez mais obsessiva, a ponto de ele pensar que Deus queria que ele pecasse, como Adão e Eva o haviam feito para descobrir algo muito importante. Desesperado, resistiu ao máximo, mas de repente cedeu e viu o que já tinha visto. A terrível blasfêmia inicialmente o aliviou, mas depois o deixou marcado para sempre, mostrando que o Deus vivo não era só bom, e que poderia ser terrível em suas exigências, inclusive naquela em que levou Seu filho à cruz.

Essa experiência do Deus vivo e terrível era completamente diferente de tudo o que lhe haviam ensinado em sua educação religiosa, que prezava somente a bondade de Jesus e de Deus. Isso havia sido muito importante na sua educação, pois a família de sua mãe tinha seis sacerdotes e a de seu pai, três.

Veio, finalmente, a vivência da primeira comunhão, que mostrou exuberantemente a fixação do seu complexo paterno com o Cristianismo e que sumarizava sua relação com seu pai e com a religião cristã.

Apesar do tédio que sentia, fiz todos os esforços para crer sem compreender – atitude que parecia corresponder à de meu pai – e assim me preparei para a Comunhão, na qual depusera a minha última esperança. Tratava-se de uma comunhão comemorativa, de uma festa em memória do Senhor Jesus, morto 1860 anos antes (estávamos em 1890). Ele fizera certas alusões, tais como “tomai e comei. Este é o meu corpo”, designando o pão da comunhão que deveríamos comer senso Seu corpo, e que na origem fora carne; deveríamos também beber o vinho, que na origem fora sangue. Eu compreendera que dessa forma deveríamos incorporá-lo. Isso me parecia uma impossibilidade evidente, um grande mistério. Mediante a comunhão, à qual meu pai dava tanta importância, eu O experimentaria. Essa expectativa constituiu o essencial da minha preparação à Santa Comunhão. (Memórias, p.58)

Registremos como Jung associou o ritual central do Cristianismo, que é o sacrifício de Jesus, com seu pai e à resistência que demonstrava a ele. Sua resistência era tanta que chegou mesmo a errar a idade de Jesus, julgando-a 30 anos ao invés de 33 anos.

Segundo o costume, o padrinho deveria ser um membro do consistório. O meu era um velho carpinteiro, silencioso e simpático (…) Chegou solenemente transformado pelo fraque e pela cartola e me levou à Igreja, onde meu pai se mantinha atrás do altar em seu traje sacerdotal, lendo as orações da Liturgia. No altar, havia pratos grandes, cheios de pedacinhos de pão. Eu sabia que esse pão era feito pelo padeiro que nos servia; não era bom, era insípido. O vinho que estava num cântaro foi derramado numa taça de estanho. Meu pai comeu um pedacinho de pão, bebeu um gole de vinho, cuja proveniência eu também sabia – era um albergue conhecido. Depois, passou a taça a um dos velhos. Todos pareciam solenes, indiferentes. Tenso, eu olhava, mas não podia ver nem adivinhar se algo de particular lhes ocorria. Tudo se passava como nos outros atos religiosos: batismos, enterros etc. Tinha a impressão que tudo era praticado escrupulosamente, segundo a tradição. Meu pai também parecia esforçar-se por executar tudo de acordo com as regras, e era preciso, portanto, que as palavras apropriadas fossem pronunciadas ou lidas com ênfase. Ninguém mencionou o fato de que 1860 anos haviam passado desde a morte de Jesus, tal como é costume nas comemorações desta natureza. Não percebi nem tristeza nem alegria, e segundo me pareceu, a festa foi insignificante sob todos os pontos de vista, dada ao extraordinário significado da personalidade celebrada. Não podia ser comparada às festas leigas. (idem, p.59)

Vê-se como Jung, na fixação do seu complexo, apresenta uma religiosidade bloqueada, a ponto de literalizá-la e desmerecê-la, beirando o cinismo, como se não tivesse a menor capacidade de simbolização. Sabendo que ele é o criador do conceito de função transcendente, que expressa a simbolização, e que tinha uma religiosidade de uma profundidade extraordinária, aquilatamos o grau da sua defesa.

Chegou então a minha vez. Comi o pão: era insípido, como esperava. Tomei um pequeno gole de vinho, ácido e não dos melhores. Depois fizemos a prece final e todos saíram, nem oprimidos nem alegres, e seus rostos pareciam dizer: “Ufa, acabou-se!” Só pouco a pouco, durante os dias que se seguiram, emergiu a ideia: nada acontecera! Atingira, entretanto, o apogeu da iniciação religiosa, da qual esperava algo de inédito – sem saber ao certo o quê – mas nada acontecera. Sabia que Deus teria podido provocar coisas insólitas, coisas de fogo e de luz supra-terrestre. Aquela celebração solene, pelo menos para mim, não manifestara qualquer traço de Deus. Falara-se dEle, mas tudo se limitara a palavras. Não percebera nas outras pessoas nem desespero intenso, nem comoção poderosa ou graça transbordante, e tudo isso constituía para mim a essência de Deus. Nada observara de uma comunhão, nada semelhante a uma união ou a uma unificação. Unificação com quem? Com Jesus? Não se tratava acaso de um homem morto a 1860 (1757?) anos? Por que unir-se a Ele? Por que era chamado Filho de Deus? Tratarse-ia de um semi-deus tal como os heróis gregos? De que modo poderia um homem comum unir-se a Ele? Chama-se a isso “religião cristã”, mas o que tem ela a ver com Deus, tal como eu O experimentara? Por outro lado, era perfeitamente claro que Jesus, o homem, tinha relação com Deus. Estava desesperado em Getsemâni e na cruz, depois de haver ensinado que o amor e a bondade de Deus era a de um bom pai. Mas vira então, quanto Deus pode ser terrível. Isso, eu podia compreender. Mas por que aquela pobre comemoração com pão e vinho? Pouco a pouco tornou-se claro para mim que aquela comunhão fora uma deplorável experiência. Dela só resultara o vazio, pior ainda, uma perda. Sabia que nunca mais poderia participar dessa cerimônia. Para mim não se tratava de uma religião, mas uma ausência de Deus. Não voltaria mais à igreja, que, para mim, não era um lugar da vida, mas da morte. Foi assim que se rompeu minha união com a Igreja e o mundo circundante, tal como os conhecia. Sofrera, ao que me parecia, a maior derrota da minha vida. A aproximação e a concepção religiosa, que eu julgava ser a única relação razoável com a totalidade do universo, havia ruído. E isto significava que eu não podia mais participar da fé em geral. (…) Deus permanecera ausente [da comunhão]. Por Sua vontade separei-me da Igreja e da fé de meu pai e de todos os outros, na medida em que representavam a religião cristã. (idem, pp. 59-60)

Que diferença desta experiência pessoal que Jung relatou com mais de 80 anos e tudo o que escreveu sobre o Cristianismo, inclusive na Interpretação do Dogma da Trindade e no Símbolo de Transformação na Missa (1954). Escreve Jung:

O Ritual da Missa toma esta situação mundana [do pão, do vinho e do sacerdote] e a transforma passo a passo até atingir o clímax – a consagração, quando o próprio Cristo, como sacrificado, fala as palavras decisivas da boca do padre. Naquele momento, Cristo está presente no tempo e no espaço. (par.307)
No exame cuidadoso, nós vemos que a sequência das ações rituais na Missa contém, às vezes claramente, e às vezes por alusões sutis, a representação em forma condensada da vida e do sofrimento do Cristo. (1954, par. 336)
Assim sendo, a Missa contém como sua essência o mistério e o milagre da transformação de Deus, que ocorre na esfera humana, na transformação de Deus no ser humano e na sua volta à sua existência absoluta nEle e para Ele. O ser humano, também pela sua devoção e auto-sacrifício, como instrumento sacerdotal, é incluído nesse processo misterioso. (idem, par.338)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JUNG, Carl Gustav (1961). Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975. _________ (1940, 1954, 1956). Psychology and Religion. CW 11. London: Routledge & Kegan Paul, 1958.

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É médico psiquiatra e analista junguiano. Nascido em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina. Especializou-se em Psiquiatria e Psicanálise, e, em 1965, graduou-se pelo Instituto Jung, em Zurique. Retornou ao Brasil e fundou, com outros colegas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, que já formou até 2005 noventa analistas, e a Sociedade Moitará, para o estudo de símbolos da cultura brasileira, mais tarde incorporada à SBPA. Foi presidente, diretor de ensino e há muitos anos é supervisor e coordenador de seminários na SBPA. Além de ministrar inúmeros cursos e palestras no Brasil e no exterior, ensinando e divulgando a obra de Jung, Carlos Byington desenvolveu conceitos próprios, que originaram a Psicologia Simbólica Junguiana.

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